Uso de remédios contra ansiedade aumenta e especialistas fazem alerta
Especialistas fazem alerta para o uso sem avaliação psiquiátrica e de medicamentos que não deveriam ser utilizados por muito tempo
Choro compulsivo, boca trêmula, membros travados e a retirada dos próprios fios de cabelo que lhe causaram coágulos de sangue na cabeça foram os sinais de ansiedade apresentados por uma estudante de 14 anos após intenso estresse por performance escolar e por sofrer bullying. Sua mãe, uma empreendedora de 45 anos, conta que ainda tem trauma de ver cabelos no chão.
A jovem precisou de medicação para ansiedade, após oito meses de psicoterapia. Mas ela não é a única. Médicos afirmam que o uso de remédios contra ansiedade tem aumentado entre jovens. A percepção é confirmada pelo crescimento da condição entre pessoas de 18 a 24 anos – nesse público, casos de ansiedade chegaram a 31,6%, segundo a pesquisa Covitel 2023, acima da média nacional.
Levantamento realizado pelo Ministério da Saúde mostra que, em 10 anos, os atendimentos relacionados a transtornos de ansiedade no SUS aumentaram 4.423% entre adolescentes de 15 a 19 anos.
Para a psiquiatra Francislainy Dal’Col, esse aumento pode ter relação com dois fatores: aumento real dos transtornos de ansiedade e mais acesso à informação.
“O Brasil lidera o ranking mundial do país mais ansioso e muitas pessoas demoram a buscar tratamento, fazendo com que os casos cheguem ao psiquiatra já mais intensos”.
“Por outro lado, hoje as pessoas têm contato com conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais e em outros veículos, e isso aumenta a conscientização e faz com que mais pessoas reconheçam seus sintomas e procurem ajuda”, analisa a médica.
Segundo a psiquiatra Janine Moscon, também é perceptível o aumento de casos entre crianças e adolescentes. De acordo com a médica, o uso de medicação está indicado para casos em que os sintomas prejudicam o funcionamento da vida, seja nas relações interpessoais, desempenho nos estudos ou no trabalho, como sintomas físicos que paralisam o paciente.
Para o psiquiatra José Luís Leal de Oliveira, vice-presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (Apes), o aumento do uso de medicamento não é um problema, mas como acontece.
“Preocupa quando a gente observa uso de medicação sem avaliação psiquiátrica, uso prolongado de medicamentos que não deveriam ser usados por muito tempo e a medicalização de reações emocionais normais”, destaca.
Sofrimento
“Tinha medo de ficar viciada”
O início da graduação e a perda da avó foram alguns dos gatilhos que levaram uma estudante de 24 anos a perceber que apenas o acompanhamento não estava sendo suficiente.
“Já fui parar na emergência algumas vezes por causa da falta de ar muito intensa ou dores de cabeça que não passavam. Em duas situações me medicaram porque eu não parava de chorar e tremer”, conta.
Após ser aconselhada pela psicóloga, ela procurou ajuda psiquiátrica e hoje faz uso de medicação. “Tinha medo de ficar viciada nas medicações”.
Choro e falta de ar
Crises de ansiedade de forma recorrente no período da pandemia, com palpitação, choro e falta de ar, foram sintomas apresentados por uma jornalista de 24 anos.
“A pandemia e a separação dos meus pais foram os principais gatilhos”, relata.
Ela conta que iniciou com a psicoterapia logo após as primeiras crises, mas percebeu, aproximadamente dois anos depois, que precisaria de medicação para os períodos mais intensos da ansiedade.
“Tive muita resistência, não queria acreditar que os cuidados que eu estava tomando não eram suficientes e, de alguma forma, me sentia incapaz por não conseguir resolver sozinha, sem o auxílio de medicação”.
Divórcio dos pais
Por muito tempo, uma secretária de 25 anos conviveu com sintomas de ansiedade. Segundo ela, as crises aumentaram logo após o divórcio dos pais, quando precisou cuidar mais de sua mãe. Em sua família, a mãe, as irmãs e tias também lidam com a ansiedade.
“Percebi que tinha medo de cometer algo contra a minha vida. Tive muita queda capilar. Então, há quatro meses faço uso de medicação, além de acompanhamento com psiquiatra e psicólogo. Em momento algum tive resistência a usar a medicação, mas acredito que vou precisar fazer alguns ajustes”, contou.
Preocupação
Segundo o Ipsos Health Service Report 2025 -pesquisa global com 30 países - , 52% dos brasileiros apontaram a saúde mental como o principal problema de saúde do País.
Em 2018, eram apenas 18%.Isso significa um aumento de 34 pontos percentuais em sete anos — e o índice praticamente triplicou no período.
Saiba Mais
Primeiro lugar mundial
- O Brasil ocupa o primeiro lugar mundial em prevalência de ansiedade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
- Ainda assim, somente 5,1% dos brasileiros fazem tratamento com psicoterapia.
Ansiedade em números
2023
- 26,8% dos brasileiros tinham ansiedade em 2023, segundo Covitel 2023.
- 34,2% das mulheres apresentavam o problema.
- Entre os mais jovens, de 18 a 24 anos, a prevalência chegou a 31,6%, acima da média nacional. Já entre pessoas com 65 anos ou mais, foi de 20,1%. Ou seja, a prevalência entre os jovens era 11,5 pontos percentuais maior que entre os idosos.
2024
- Estudo da Ipsos revelou que 45% dos entrevistados, na ocasião, mencionaram sofrer de ansiedade, com uma maior prevalência entre mulheres (55%) e jovens de 18 a 24 anos (65%).
Estresse
- 70% dos brasileiros entrevistados em 2025, segundo a pesquisa Ipsos, disseram ter passado por pelo menos uma situação no último ano em que se sentiram tão estressados que acharam que não conseguiam lidar com as coisas.
Bem-estar mental
- 74% dos brasileiros dizem pensar frequentemente sobre seu bem-estar mental — 3º lugar entre os 30 países, atrás apenas de México (80%) e África do Sul (78%), aponta Ipsos.
Medicação
- 16,6% da população, 1 a cada 6 brasileiros, faz uso de remédios, 77,7% há mais de um ano, segundo o levantamento do Instituto Cactus.
O consumo de antidepressivos no Brasil aumentou
- 12,4% entre adultos de 29 a 58 anos, de acordo com um levantamento da Funcional Health Tech, empresa especializada em inteligência de dados na área da saúde.
- Em 2025, 52% dos líderes e 59% dos liderados brasileiros recorreram a psicofármacos para lidar com estresse, ansiedade e burnout, demonstra pesquisa realizada pela The School of Life.
Atendimento
- 240% foi o aumento nos atendimentos por ansiedade no SUS, segundo o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) entre 2018 e 2023.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários