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OPINIÃO ECONÔMICA

Risco de perder a coroa do turismo até 2030

Coluna é publicada no jornal A Tribuna

Marco Azevedo | | Atualizado em
Opinião Econômica

Durante décadas, repetiu-se no Espírito Santo uma máxima quase indiscutível: Guarapari é a indiscutível capital do turismo capixaba.

Os jornais de janeiro reforçam a tese ao estamparem imagens de praias lotadas e números impressionantes de visitantes. No entanto, quando despimos a cidade das luzes do Réveillon e analisamos a frieza dos dados econômicos, emerge uma realidade incômoda: o modelo turístico de Guarapari sobrevive apoiado em uma estrutura frágil, altamente informal e perigosamente estagnada.

A fragilidade da matriz hoteleira local é retratada por um dado alarmante: a hotelaria formal de Guarapari representa minguados 2,5% da oferta total de leitos do município. Em uma cidade com capacidade estimada em cerca de 150 mil leitos, impressionantes 96% da acomodação repousam no mercado informal de aluguel por temporada e nas segundas residências. Para agravar o quadro, a única instituição de turismo social do município — o Sesc Guarapari, com seus 547 quartos — responde isoladamente por quase 50% de toda a oferta de leitos formais da cidade. Que um único complexo assistencial detenha metade do mercado hoteleiro formal revela a histórica incapacidade do município em atrair investimentos privados de redes hoteleiras de porte.

O gigantesco volume de visitantes que inunda a cidade entre dezembro e fevereiro não se hospeda em hotéis, mas sim em imóveis que hibernam durante os outros nove meses do ano. É a monocultura do verão: uma overdose de demanda por 60 dias que satura a infraestrutura pública e deixa um rastro de baixo faturamento para o comércio local nos outros 300 dias do ano.

Enquanto Guarapari repousa sobre a fama do passado e confia apenas na beleza natural “bruta” de suas praias, seus vizinhos investem pesado em infraestrutura e redesenham o mapa do turismo estadual.

Em Vila Velha, o poder público promoveu uma verdadeira revolução na oferta de equipamentos urbanos e ecológicos. A estruturação do Morro do Moreno, a requalificação do Parque Natural Morro da Manteigueira e o resgate da Reserva de Jacarenema com a Ponte da Madalena transformaram a cidade em um polo de ecoturismo e lazer ativo o ano inteiro. Isso sem contar a profissionalização da locação por temporada na orla, que atrai visitantes de janeiro a janeiro.

Em Vitória, o turismo de negócios ganhou a companhia de uma infraestrutura de lazer invejável. A modernização da Curva da Jurema, a reurbanização da Ilha das Caieiras — que consolidou o polo gastronômico da torta capixaba — e a entrega do belíssimo Píer do Canal de Vitória criaram cartões-postais funcionais, que atraem tanto o morador quanto o executivo no meio da semana.

Nas montanhas, Domingos Martins e Marechal Floriano consolidaram um ecossistema focado no turismo de experiência e alta gastronomia, já empatando com Guarapari em leitos formais qualificados, mas com uma diária média incomparavelmente superior.

A projeção para 2030 é clara. Se a gestão pública e o empresariado de Guarapari não reagirem, a cidade será oficialmente ultrapassada por Domingos Martins em faturamento e qualidade hoteleira, e por Vila Velha e Vitória em infraestrutura, equipamentos públicos e atratividade urbana.

Para evitar o rebaixamento definitivo ao status de mero “dormitório de veraneio”, Guarapari precisa urgentemente de uma guinada estratégica: criar incentivos para atrair hotelaria de bandeira, investir em infraestrutura urbana de lazer fora da faixa de areia e aproveitar a onda de investimentos industriais do Litoral Sul para atrair o turismo corporativo.

O turismo moderno não se mede mais apenas por praias cheias em janeiro, mas pela capacidade de encantar e gerar riqueza de janeiro a janeiro. O tempo para Guarapari acordar deste sonho de Verão está se esgotando.

Marco Azevedo é engenheiro civil e diretor do Acquamania e do Hotel Flamboyant

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