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OPINIÃO INTERNACIONAL

Entre o beijo e a inquisição

Coluna é publicada no jornal A Tribuna

José Vicente de Sá Pimentel | | Atualizado em
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel


          Imagem ilustrativa da imagem Entre o beijo e a inquisição
José Vicente de Sá Pimentel, nascido em Vitória, é embaixador aposentado |  Foto: Divulgação

Meu exemplar de “Os Irmãos Karamázov” está bem ruinzinho. É uma edição antiga, de quatro reformas ortográficas atrás. Herdei do meu pai e só por isso não substituo por outra. Ontem enfrentei as páginas amareladas porque me lembrei de uma passagem do livro ao ver o vídeo em que Flávio Bolsonaro anuncia que, se eleito, decretará que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.

A primeira reação diante do vídeo é um pé atrás de ordem jurídica. O Estado brasileiro é constitucionalmente laico. Laicidade não é aversão à religião; é garantia de que todos os cidadãos são iguais perante a lei. Se o Estado adota uma religião, os não fiéis viram cidadãos de segunda classe. A laicidade também preserva a própria religião de instrumentalização política, que corrompe seus valores espirituais.

Como apreciador da cultura americana, o candidato melhor faria se lembrasse Thomas Jefferson. Em carta aos batistas de Danbury, em 1802, o founding father defendeu um “muro de separação entre a Igreja e o Estado”, pois a interferência do governo na religião corrompe a fé, e a interferência da religião no governo destrói a liberdade civil.

Mas o vídeo provocou minha curiosidade: como seria, na prática, o Brasil do Senhor Jesus Cristo? É aí que entra a obra-prima de Dostoiévski.

Em dado momento do livro, Ivã, o irmão intelectual e ateu, explica ao caçula Aliócha, noviço num mosteiro, que não é Deus que ele rejeita. Ele rejeita o mundo que Deus criou. O Criador não poderia permitir que crianças sejam espancadas e até mortas por pais desalmados. Se a entrada no paraíso depende de aceitar crueldades como essa, ele devolve o ingresso. Para ilustrar, conta um poema.

O cenário é Sevilha, século XVI, auge da Inquisição. Cem hereges acabam de ser queimados em praça pública, ad majorem Dei gloriam, quando Jesus Cristo volta à Terra. O povo o reconhece imediatamente e o venera quando repete os milagres dos Evangelhos. Os guardas, porém, prendem Jesus.

À noite, o Grande Inquisidor, um cardeal de 90 anos, vai à cela e repreende o prisioneiro: “Por que vieste atrapalhar?” Para ele, Jesus errou ao recusar as três tentações no deserto e dar ao homem a liberdade de escolha. O homem não vive de liberdade, argumenta. Ele quer pão, milagre e autoridade, quer alguém que lhe diga o que fazer. A Igreja, diz o cardeal, corrigiu o erro de Cristo: tirou a dolorosa liberdade e deu segurança, queimando hereges para manter a humanidade dócil e feliz.

Jesus ouve tudo em silêncio. Quando o monólogo termina, aproxima-se do velho e o beija no rosto. O Inquisidor estremece, mas se recompõe e diz: “Vai e não voltes nunca mais”.

Ao ouvir o poema, Aliócha repete o gesto de Jesus: levanta-se e beija Ivã. Teólogos, filósofos e juristas estudam a parábola desde que o livro foi publicado, há quase 150 anos. O texto é hermético e permite leituras opostas. Carl Schmitt, o jurista do nazismo, lê na mensagem a confirmação de que o mundo precisa de alguém para decidir o que é verdade, um soberano que, quando julgar necessário, suspenda a lei para salvar o povo. O Grande Inquisidor é, para Schmidt, o modelo do Führer.

Albert Camus, em O Homem Revoltado, escrito em 1951, logo após a derrota do fascismo, destrói essa interpretação. Para Camus, o ateísmo de Ivã é uma revolta moral legítima, é o direito de denunciar a injustiça. Por sua vez, o Inquisidor representa o que acontece quando essa revolta vira projeto de poder. Ele raciocina que, como Deus não existe, tudo é permitido. Pode queimar cem hereges ad majorem Dei gloriam para, supostamente, salvar milhares de homens covardes demais para escolher entre o bem e o mal.

É aí que mora o perigo do vídeo. O candidato não deixa claro se oferece o Cristo que beija ou se encarna o Inquisidor que manda queimar em nome do beijo. Ao falar em decreto, parece assumir o papel de um soberano que, em vez de dar ao brasileiro a liberdade de escolha, decidirá o que temos de crer, o que fazer e quem odiar. Será o prenúncio de mais uma tentativa de golpe de estado?

Na verdade, não convence muito uma proposta de fé nacional única, menos ainda se imposta por decreto.

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