Empregada doméstica vira doutora em Educação
Claudiana Raymundo, que se formou em Artes, foi a primeira pessoa da família a fazer faculdade. Agora, ela comemora conclusão do doutorado
Para muitas pessoas, a formação escolar termina ao concluir o ensino médio. Mas para ex-empregada doméstica Claudiana Raymundo, de 41 anos, não. Para ela, esse foi apenas mais um degrau. Hoje, Claudiana leva com orgulho o título de doutora em Educação.
A história de Claudiana começou como a de muitos jovens negros e periféricos do País. Ela trabalhava como doméstica em casa de família e também como babá, e conciliava o trabalho com os estudos.
“Eu não achava que era possível entrar na Ufes, mas minhas amigas me inscreveram em um curso pré-vestibular. E assim eu consegui começar a faculdade”, contou.
Em 2010, quando foi aprovada no curso de Artes da Universidade Federal do Espírito da Santo (Ufes), começou no Programa de Educação Tutorial – que tinha como foco incentivar os estudantes a permanecer na docência. Ela pesquisou sobre o tema e o estudo a fez continuar na educação.
Ela se formou em 2015 e, em 2018, participou do processo seletivo para o mestrado.
A pesquisa se tratava de um estudo de caso com observação participante. Ela observou a prática pedagógica de uma professora de Artes junto a um estudante com deficiência visual.
Já em 2022, iniciou o doutorado e, na última segunda-feira (14), defendeu a tese que investigou a formação continuada de professoras da educação especial, um estudo comparado entre Brasil e México.
A pesquisa a levou três vezes ao país para observar os modos de organização e produção da formação continuada tanto no Brasil quanto no México.
Claudiana foi a primeira de sua família a ingressar em um curso superior. Depois, duas primas entraram na faculdade. Uma delas está terminando Medicina na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).
“Ocupar o espaço universitário é extremamente difícil para uma mulher preta. A minha trajetória de vida encoraja muitas mulheres. Isso é de extrema importância”, concluiu a doutora.
“Espaço para todos”
A Tribuna — Qual conselho você daria para quem deseja ter uma profissão mas não vê possibilidades para que isso aconteça?
Claudiana Raymundo — O primeiro conselho é acreditar que é possível, mas também não ficar parada. Acreditar que a universidade é sim um espaço para todos.
Estudar, fazer o Enem, assistir jornais, porque isso ajuda muito a ampliar o repertório cultural também.
Buscar o máximo de informações possíveis para poder conseguir ser aprovada no Enem, principalmente.
Qual a importância de mulheres negras ocuparem o ambiente acadêmico?
Ocupar o espaço universitário é extremamente difícil para uma mulher, principalmente uma mulher preta. A universidade ainda é um espaço elitista e a minha presença aqui, e de outras mulheres pretas, reforça a importância desse lugar ser um lugar de todas e todos.
De que forma a sua família contribuiu para que você conseguisse conciliar a universidade com as outras responsabilidades?
Não posso romantizar e dizer que é fácil, porque não é. Eu só consegui alcançar porque a minha família foi uma grande rede de apoio. Os horários de muitos cursos acabam contribuindo para que nem todos tenham acesso.
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