“Todos estamos sujeitos a perder a razão”, diz Eduardo Moscovis
Em entrevista ao AT2, Eduardo Moscovis fala sobre a violência atual e como as pessoas são testadas até o limite e acabam surpreendendo
Acúmulo de tensão, frustração, medo, humilhação e impotência podem levar a uma ação ou reação diferente da que se espera.
É a partir dessa possibilidade que Eduardo Moscovis, 58, olha para um dos aspectos mais incômodos da condição humana: a capacidade de alguém aparentemente pacífico se deixar levar por um impulso violento.
“É lógico que existem pessoas menos suscetíveis, seja por conta de religião ou de alguma outra questão, mas todos nós estamos sujeitos a perder a razão”, afirma, por telefone, ao AT2.
Criado para ser um adulto pacífico, o carioca se reconhece em Antonio, matemático vivido por ele em “O Motociclista no Globo da Morte”, peça que chega a Vitória no próximo fim de semana.
Sentado numa cadeira, esse homem racional relata para a plateia sobre o dia em que se envolveu numa espiral de violência e foi testado até seu limite.
“O texto me pegou ao falar de nossas escolhas e hábitos, inclusive, de convívio. Ele só conta aquela história e o público vai percebendo e se percebendo. E é tão bom quando a gente se percebe!”, opina o ator, que ganhou o Prêmio Shell de Teatro com o monólogo.
Em outubro, ele volta a Vitória com “Duetos, A Comédia”, ao lado de Patricya Travassos. A data ainda não foi divulgada.
“Tive criação para ficar atento aos perigos”
AT2 — O que te fez aceitar fazer “O Motociclista no Globo da Morte”, mesmo não gostando de monólogos?
Eduardo Moscovis — O monólogo não é um formato de teatro que me seduz, porque gosto da contracenação. Mas esse espetáculo tem uma característica específica que é de trazer o texto em forma de depoimento, então existe uma troca direta com o público.
Esse é meu segundo solo. O primeiro foi “O Livro”. E também tinha muito disso, porque a diretora Christiane Jatahy também quebrava essa quarta parede.
Mas “O Motociclista no Globo da Morte” é diferente de tudo que já fiz e tem sido um exercício prazeroso, para eu queimar a minha língua. (Risos)
A peça foi indicada ao Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. É um trabalho que tem exigido muito de você?
Estar sozinho causa insegurança, motiva e dá frio na barriga o tempo todo. Sempre que entro no palco tenho um lapso de tempo de respirar fundo e digo: “Vamos lá!”. Tenho que entrar muito concentrado porque, quando estou sozinho, não há ninguém para me dar cola.
Que tipo de pequenas violências mais te incomodam?
São muitas. Às vezes, a gente está tão no automático que não percebe que tal comportamento é abusivo, desrespeitoso ou antiético. Mas, respondendo, é falar alto, piadas de mau gosto e toque nas pessoas, principalmente quando há hierarquia ou machismo.
O que justificaria um ato violento?
É delicado falar sobre isso porque, às vezes, o ato violento é uma reação de defesa. Não que eu apoie isso, pelo contrário, mas acho que seria hipócrita da minha parte não te responder o que penso. Acho que, em algum momento, dependendo de que tipo de agressão você está sendo acometido, você pode vir a ter uma reação violenta.
Foi criado para ser esse homem pacífico retratado na peça?
Tive uma criação para ficar atento aos perigos, mas não para ser uma criança violenta.
Ao ver tanta violência, olha para o futuro com otimismo?
Sempre penso no bem e emano. Mas é complicado, é um momento em que estamos muito divididos e o mundo está muito agressivo. É difícil acreditar num grande movimento de mudança.
Acredita que as redes sociais ajudam a potencializar a banalização da violência?
Sim. A internet vem com um poder de ajudar pra muita coisa. Mas, infelizmente e como sempre, tem uma ramificação para os incentivos à violência, aos grupos que manifestam ódio.
Além da peça, o que mais tem feito?
No teatro, também estou em cartaz com “Duetos, A Comédia”, que segue até o fim do ano. Enquanto isso, intercalo as duas peças. Na Netflix, tem a série “Fúria” e estou em “Querido Mundo”, de Miguel Falabella, que estreia em breve.
Dá um alívio intercalar dois espetáculos tão diferentes?
Um superalívio! É um respiro, uma reciclagem. “Duetos” é uma comédia, uma delícia para o público e para mim. Mas adoro estar em “O Motociclista no Globo da Morte”, tá? Não é sofrimento fazê-lo. (Risos)
Pretende deixar de fazer novela, assim como muitos dos atores da sua geração?
Eu pretendo continuar. Se vai ser em novela, filme, série, eu não sei. Eu só quero continuar!
Você continua sem beber desde que iniciou a preparação para a série “Fúria”?
Eu vinha já num ritmo de trabalho onde sentia vontade de reorganizar meus hábitos alimentares e físicos, e “Fúria” veio para me ajudar. Eu precisava me preparar para interpretar um ex-atleta. Agora, tento manter os hábitos. Estou sem beber e está sendo bem bom!
Serviço
“O Motociclista no Globo da Morte”
- O quê: Monólogo estrelado por Eduardo Moscovis, com texto de Leonardo Netto e direção de Rodrigo Portella.
- Quando: Próximo sábado (18), às 19h30, e domingo (19), às 18 horas.
- Onde: Teatro Glória (Centro Cultural Sesc Glória), centro de Vitória.
- Ingresso: A partir de R$ 50 (meia).
- Venda: Site lets.events
- Classificação: 14 anos
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