Alfabetização, letramento digital e o risco em anos eleitorais
Mesmo com menos analfabetos no ES, milhões ainda têm dificuldades de ler, interpretar e checar informações em um cenário eleitoral digital.
ES EM AÇÃO
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Silvia Varejão
Economista, mestre em economia e consultora do ES em Ação especializada em desenvolvimento econômico e políticas públicas.
O Espírito Santo fechou 2025 com 3,8% de sua população adulta analfabeta, a menor taxa da série histórica e abaixo da média nacional, de 4,9%, segundo a PNAD Contínua do IBGE. Dos 125 mil capixabas analfabetos, seis em cada dez têm 60 anos ou mais.
O Brasil avançou na porta de entrada, ao garantir que mais crianças tenham acesso à escola e à alfabetização. O que ainda não resolveu foi a porta de saída: a geração que não teve essa oportunidade décadas atrás continua esperando por ela.
É dívida antiga: no início dos anos 2000, mais de um terço dos capixabas com 60 anos ou mais não sabia ler, hoje são 11%. A queda reflete a renovação entre gerações, mas não uma política voltada a quem já passou da idade escolar.
Quando ler não basta: o analfabetismo funcional
Reduzir o debate ao analfabetismo clássico é olhar só a parte mais visível do problema. Enquanto essa taxa caiu, o analfabetismo funcional, a dificuldade de usar a leitura para interpretar uma conta, seguir uma instrução ou entender uma notícia, ficou praticamente estagnado.
Quase 3 em cada 10 brasileiros de 15 a 64 anos ainda enfrentam o analfabetismo funcional, patamar semelhante ao de dez anos atrás, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf).
Desigualdade no mundo digital e letramento midiático
A mesma limitação se estende ao ambiente digital. Menos de 4 em cada 10 brasileiros têm ao menos o nível básico de habilidades digitais, de acordo com o estudo da Anatel de 2026, mesmo com 85% da população conectada.
Ter acesso à internet não é o mesmo que compreender o que ela mostra. A isso se soma o letramento midiático: a capacidade de reconhecer a diferença entre conteúdo jornalístico, publicidade e opinião, identificar manipulações e verificar uma informação antes de compartilhá-la.
Esse conjunto de competências pesa mais em ano eleitoral, quando boa parte da disputa pública acontece em aplicativos de mensagem, redes sociais e vídeos, muitas vezes com uso de inteligência artificial.
Quem tem mais dificuldade de leitura crítica também tem mais dificuldade de reconhecer uma informação falsa ou uma promessa inviável. Para quem enfrenta essas limitações, a mensagem mais simples, repetida muitas vezes, pode parecer mais convincente do que a informação verdadeira.
Políticas públicas e o desafio com quem já deixou a escola
O poder público já reconhece parte da lacuna. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prevê, desde 2018, que os estudantes aprendam a utilizar a tecnologia de forma crítica e a checar informações, e a Política Nacional de Educação Digital, de 2023, torna obrigatória a inclusão de letramento digital nos currículos a partir de 2026.
O desafio é que a mudança de currículo alcança primeiro quem ainda está na escola. Os adultos que já a deixaram dependem de uma política à parte.
São necessários programas permanentes e com linguagem acessível, articulados entre Educação de Jovens e Adultos (EJA), centros de assistência social, organizações comunitárias, unidades de saúde e outros espaços que já existem, mas que ainda não conversam entre si.
A queda do analfabetismo é uma conquista real. Mas, numa democracia mediada por telas, ler não basta: é preciso interpretar, verificar e decidir.
Sem isso, o acesso digital pode conviver com uma nova forma de exclusão: a de quem está conectado, mas não consegue exercer plenamente seus direitos.
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