Arte e cultura com a tradição das rendeiras
Herança da cultura portuguesa, a renda de bilro se consolidou em diferentes pontos do Espírito Santo, como Barra do Jucu e Meaípe
Na calçada de uma loja de artesanato próxima à praia de Meaípe, em Guarapari, um grupo se reúne todas as terças e quintas-feiras para manter viva uma tradição da comunidade: a renda de bilro.
Herança da cultura portuguesa, a arte se consolidou em diferentes pontos do Espírito Santo, especialmente na Barra do Jucu, em Vila Velha, e em Meaípe, na região sul de Guarapari.
No balneário, duas mestras ainda se dedicam a preservar a tradição: as aposentadas Idralmira Bourguignon, conhecida como Gralma, de 78 anos, e Dilma Sant’Ana, de 77.
O movimento ganhou força com a ajuda da artesã Cristina Andrade, de 62 anos, dona da loja de artesanato que disponibiliza o espaço para o curso gratuito.
Natural de São Paulo, ela se mudou para Guarapari com o marido, Luiz Carlos Papassoni, após a aposentadoria e, até então, nunca havia tido contato com a renda de bilro.
Ao conhecer o trabalho das rendeiras, Cristina se encantou e decidiu ajudar na divulgação e na venda das peças produzidas pelas mestras.
Juntas, conseguiram financiamento por meio de um edital de cultura para a compra de materiais. Como contrapartida, passaram a visitar escolas para apresentar aos estudantes o trabalho e a tradição das rendeiras.
Além das atividades com os estudantes e da participação em feiras de artesanato, a iniciativa também deu origem a um projeto de lei, aprovado este ano, que estabeleceu 20 de fevereiro como o Dia Municipal das Rendeiras de Bilro de Meaípe.
“O próximo passo é fazer com que a renda seja considerada patrimônio imaterial da cidade. Hoje, identificamos outras 12 rendeiras na região para que ajudem a preservar essa tradição”, afirmou Cristina.
A renda de bilro é produzida por meio do cruzamento sucessivo de fios sobre uma almofada especialmente preparada para o trabalho. A técnica permite a criação de diferentes tipos de peças, que vão de roupas e acessórios a artigos para cama e mesa.
Segundo as mestras rendeiras, a atividade faz parte de uma tradição que, no passado, estava presente em praticamente todas as casas do município, onde havia pelo menos uma mulher dedicada à produção. O trabalho também servia como alternativa de geração de renda nos períodos em que os maridos, muitos deles pescadores, saíam para o mar.
Herança que vem de família
Cada uma das mestras rendeiras de Meaípe tem uma história diferente com a renda. Dona Dilma Sant’Ana contou que, ainda criança, mexia escondida na almofada que a mãe usava para trabalhar.
“Toda vez que ela sentava para fazer renda, eu observava e ia aprendendo. Quando ela saía, eu mexia e acabava bagunçando tudo. Aos poucos, aprendi como se fazia”, relembrou.
O contato com a arte, no entanto, ficou interrompido durante alguns anos. Foi apenas por volta dos 30 anos que ela retomou o aprendizado e não parou mais.
“É uma tradição que vem da família. Minha mãe e minha irmã eram rendeiras, depois as sobrinhas, e o meu pai era pescador”.
Já dona Idralmira Bourguignon foi levada pela curiosidade. Aos 9 anos, em uma época em que as possibilidades de aprendizado eram mais restritas à escola, encontrou na renda uma nova atividade.
“Tínhamos que aprender o que era comum aqui. Havia outras meninas que se juntavam para aprender também e, desde então, nunca mais larguei a minha almofada, mesmo quando trabalhei fora”.
Durante anos, a renda ficou como um hobby e também como uma forma de produzir peças para presentear amigos e familiares.
“Eu gosto de fazer renda, enfeitava as roupas da minha filha e presenteava também. É uma coisa que eu gosto de fazer desde os meus 9 anos”, disse.
Novas mãos para os bilros
Embora a tradição tenha atravessado décadas, encontrar novas pessoas interessadas em aprender a técnica ainda é um desafio.
A gaúcha Tuléia Lajús, de 75 anos, e o estudante Pedro Vaz Tonon, de 17, estão entre os alunos que ajudam a renovar essa história.
Eles frequentam duas vezes por semana as aulas gratuitas oferecidas pelas mestras, aprendendo os movimentos, desenhos e segredos de uma arte que exige paciência e precisão.
“Eu sempre gostei de aprender coisas novas, de ter uma ocupação. Como sou aposentada, aproveito o tempo para aprender renda, crochê, entre outras coisas. Sou aluna fixa e já até consegui vender uma peça aqui. Faço bastante coisa e guardo para dar de presente”, afirmou Tuléia.
Bisneto do fundador de uma banda de Congo da região, o jovem Pedro Tonon descobriu as aulas de renda há pouco mais de um mês, depois de visitar a loja de artesanato durante um ensaio da banda São Sebastião, que também é realizado no local.
“O aprendizado tem sido um desafio, mas gosto de ficar aqui, conversar e conhecer histórias da região. Além disso, também gosto muito de trabalhos manuais e de aprender coisas novas. Inclusive, faço macramê”, contou.
Curiosidades
Renda de bilro surgiu na Europa
A renda de bilro surgiu na Europa e chegou ao Brasil trazida pelos portugueses, espalhando-se principalmente por comunidades litorâneas.
Embora tradicionalmente associada às mulheres, a produção de renda de bilro também foi realizada por homens em diferentes regiões do País.
Há registros da prática em municípios como Conceição da Barra, São Mateus, Colatina e Guarapari.
Na Barra do Jucu, em Vila Velha, o ofício é registrado desde o início do século 20. Algumas das rendeiras que mantiveram essa tradição ao longo da vida ainda estão vivas.
Mulheres e filhas de pescadores produziam as rendas enquanto os homens estavam no mar. A atividade ajudava a complementar a renda de famílias numerosas.
Apesar da perda de espaço para produtos industrializados, a técnica continua sendo transmitida entre gerações por meio de mestras que ensinam novos aprendizes.
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