O dinheiro corre e o sistema tropeça
Drex pode modernizar transações financeiras e reduzir burocracia, custos e riscos
Tasso Lugon
Tasso Lugon é CEO da Banestes DTVM e especialista em tecnologia, inovação e transformação digital. Reconhecido nacionalmente, lidera projetos que unem setor público e financeiro para gerar impacto e inclusão. Sua trajetória inclui passagens pelo Tribunal de Justiça do ES, Ministério Público Estadual, Prefeitura de Vila Velha e Governo do Estado, sempre promovendo modernização e resultados.
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Fazer um pagamento no Brasil virou uma tarefa de poucos segundos. Abrimos o celular, digitamos uma chave Pix e pronto. O dinheiro chegou antes mesmo de conseguirmos guardar o aparelho no bolso.
Mas basta a operação envolver um investimento, um imóvel, uma garantia ou qualquer transação um pouco mais sofisticada para a velocidade desaparecer. O dinheiro vai de avião. A burocracia ainda prefere viajar de ônibus.
É justamente aí que o Drex pode fazer diferença. Apesar de ser chamado de real digital, ele não foi criado apenas para colocar a nossa moeda dentro do celular.
Isso já acontece há muito tempo. Também não é uma criptomoeda sem dono, sem regras e fora do alcance das autoridades. O Drex é uma tentativa de modernizar a infraestrutura por trás das transações financeiras.
Hoje, em muitas operações, pagamento, transferência do ativo, conferência de documentos e registro acontecem em sistemas diferentes. Cada etapa depende de verificações, autorizações e conciliações.
Se algo falha no caminho, começa a conhecida sequência de e-mails, planilhas e telefonemas. A tecnologia avançou, mas alguns processos continuam firmes nos anos 1990.
Com uma infraestrutura programável, essas etapas podem funcionar de forma coordenada. O ativo só muda de dono se o pagamento ocorrer e todas as condições forem cumpridas. Ou a operação inteira acontece, ou nenhuma parte dela é concluída.
Parece um detalhe técnico, mas não é. Estamos falando da possibilidade de reduzir atrasos, erros, custos e riscos em operações financeiras. Para bancos, corretoras e distribuidoras, isso pode transformar a maneira de oferecer investimentos, usar ativos como garantia e desenvolver novos produtos.
Isso não significa que as instituições financeiras desaparecerão. Essa previsão costuma surgir sempre que aparece uma nova tecnologia — e, curiosamente, os intermediários continuam por aqui. O que muda é o valor que cada um precisa entregar.
Se a tecnologia assumir tarefas repetitivas, as instituições terão de se destacar pela capacidade de avaliar riscos, estruturar soluções, proteger o cliente e oferecer uma experiência melhor.
Convenhamos, ninguém sentirá saudade de uma instituição cuja grande contribuição era pedir o mesmo documento três vezes.
Também não adianta imaginar que o Drex resolverá tudo por encanto. Código não substitui confiança. Para funcionar, o sistema precisará garantir privacidade, segurança, estabilidade e regras claras. Digitalizar um processo ruim apenas cria um processo ruim mais rápido.
Na minha avaliação, o sucesso do Drex não será medido pelo dia em que ele chegar ao celular dos brasileiros. Será medido pelos problemas que conseguir eliminar sem criar outros no lugar.
O Pix nos ensinou que o dinheiro pode chegar em segundos. Agora falta fazer o restante do sistema acompanhar essa velocidade.
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