Novo remédio contra dor que afeta 476 mil no ES
Aprovado pela Anvisa, novo tratamento em comprimido atua na prevenção das crises de enxaqueca e substitui o uso de injeções
Dor de cabeça forte, latejante, que piora com a luz e o barulho e ainda pode vir acompanhada de náuseas e vômitos. Esses são os sintomas mais comuns de quem sofre com enxaqueca, condição que afeta cerca de 15% da população, o equivalente a 476 mil adultos no Espírito Santo.
As crises recorrentes no mês são comuns para quem enfrenta o problema, mas uma nova medicação oral, aprovada recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), promete prevenir os episódios de enxaqueca.
O medicamento Aquipta (atogepanto) é indicado para adultos que têm pelo menos quatro episódios mensais de enxaqueca e atua no bloqueio de uma via envolvida na transmissão da dor e na fisiopatologia da doença, prevenindo, assim, o aparecimento das crises.
O atogepanto, segundo a neurologista Marina Tanure, representa um avanço importante, já que pertence à classe dos chamados “gepantes” e atua bloqueando o receptor do CGRP, um neuropeptídeo que tem papel central na transmissão da dor e na fisiopatologia da enxaqueca.
“Durante muitos anos, utilizamos na prevenção medicamentos originalmente desenvolvidos para outras condições, como alguns antidepressivos, anticonvulsivantes e anti-hipertensivos. Hoje, temos terapias direcionadas ao CGRP, incluindo os anticorpos monoclonais injetáveis e, mais recentemente, opções orais como o atogepanto.”
O neurologista Gabriel Baltazar destaca que o tratamento preventivo da enxaqueca, com medicações de uso diário, geralmente se destina a pacientes que apresentam crises frequentes ou incapacitantes. “O atogepanto é indicado para o tratamento preventivo da enxaqueca em adultos, tanto na forma episódica quanto na crônica, e não é restrito apenas a casos refratários, embora seu principal papel seja exatamente nos casos de dores frequentes e que não responderam a outras medicações.”
No mercado, segundo o neurologista Daniel Escobar, já havia uma classe similar à nova medicação, mas que atuava diretamente na molécula CGRP, em vez da via final do receptor. “Além disso, as medicações antigas eram injeções, o que poderia, em alguns casos, afastar um pouco os pacientes. Agora temos essa nova classe de medicamentos em comprimido, o que pode aumentar a adesão dos pacientes.”
Hábitos que ajudam no controle
O tratamento moderno da enxaqueca não se resume a prescrever um medicamento, alertam especialistas. Sono irregular, longos períodos em jejum, desidratação, estresse, sedentarismo e consumo excessivo de cafeína ou de analgésicos podem dificultar o controle das crises em determinados pacientes, sinaliza a neurologista Marina Tanure.
“Por isso, orientamos regularidade do sono e das refeições, hidratação adequada, atividade física e identificação de fatores desencadeantes que sejam realmente relevantes para aquele indivíduo. Também é fundamental evitar o uso excessivo de analgésicos, porque isso pode, paradoxalmente, aumentar a frequência da dor e contribuir para a cronificação da enxaqueca.”
O ponto mais importante, segundo a médica, é entender que a enxaqueca é uma doença neurológica, e não simplesmente uma “dor de cabeça forte”.
É importante avaliar também, ressalta o neurologista Gabriel Baltazar, de forma individual, eventuais gatilhos, como alimentos específicos que podem desencadear as crises de enxaqueca em cada paciente.
Outro fator de atenção, destaca o neurologista Daniel Escobar, é a flutuação hormonal. As mulheres, explica o médico, geralmente têm dois picos de incidência de enxaqueca: na puberdade ou no climatério, quando muda a quantidade de estrogênio no organismo.
“Ao longo do mês, também é muito comum que a enxaqueca aconteça nos períodos de flutuação do estrogênio, ou seja, próximo ao ciclo menstrual. Então, a palavra correta para quem tem enxaqueca é rotina, aliada a um estilo de vida adequado.”
Dor afeta até 15% da população
Enxaqueca
Dor de moderada a forte intensidade. É chamada de pulsátil. Costuma piorar com a movimentação e, normalmente, vem associada a intolerância à luz, ao barulho e à presença de náuseas e vômitos. Em certos casos, provoca intolerância a odores.
A condição afeta cerca de 15% da população brasileira, segundo estimativa da Sociedade Brasileira de Cefaleia. Considerando a população acima dos 18 anos no Espírito Santo, com base na Projeção de População do IBGE 2026, esse número é de 476 mil.
Medicamento
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o atogepanto para a prevenção da enxaqueca em adultos com pelo menos quatro dias de enxaqueca por mês.
Trata-se de um antagonista oral do receptor do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) aprovado no Brasil para prevenção da doença, atuando diretamente em um dos principais mecanismos envolvidos na fisiopatologia da enxaqueca.
A nova terapia oferece uma alternativa para pacientes que apresentam resposta insuficiente aos tratamentos atualmente disponíveis, ampliando as opções terapêuticas para o manejo da doença.
A Anvisa autorizou duas apresentações do Aquipta: comprimidos de 10 mg e de 60 mg, em caixas com 28 unidades.
O medicamento já foi aprovado nos Estados Unidos e na Europa.
Preço
a AbbVie, farmacêutica responsável pelo medicamento, afirmou que o atogepanto ainda passará pela avaliação da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão responsável por estabelecer os preços máximos dos medicamentos comercializados no Brasil.
Comentários