Mulheres usam IA para identificar agressores antes do 1º encontro
Ferramentas consultam processos judiciais e redes sociais para alertar sobre possíveis riscos ou apontar histórico de violência doméstica
Aplicativos com inteligência artificial estão sendo utilizados por mulheres para se proteger antes do primeiro encontro. São ferramentas como Plinq e Puft.IA que usam tecnologia para realizar investigações amorosas e levantar antecedentes criminais em segundos.
O consultor em direito digital e inteligência artificial generativa, Bruno Costa Teixeira, explica que esse tipo de plataforma funciona fazendo uma agregação automatizada de dados. Robôs consultam bases abertas, como Tribunais, juntas comerciais, redes sociais públicas, entre outras.
“Um sistema tenta confirmar se o registro encontrado pertence mesmo àquela pessoa e, por fim, uma IA generativa resume tudo em um relatório em linguagem simples. É mais próximo do que o mercado chama de background check: a consulta de registros que qualquer pessoa poderia acessar sozinha, só que feita em segundos e em escala”, afirma.
Uma das plataformas é a Plinq, que tem mais de 63 mil cadastrados. Ela usa nome e telefone para buscar dados públicos e gerar um relatório de risco. Segundo sua idealizadora, Sabrine Matos, mais de 70 mil pesquisas já foram realizadas. Entre os alertas de risco gerados, 10% são relacionados a registros de violência doméstica.
“Não trazemos apenas processos criminais, como também estado civil, signo, data de nascimento e outros dados que conseguimos de forma pública”.
A presidente da Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Espírito Santo, Layla de Freitas, afirma que ferramentas desse tipo, quando agregam dados públicos, são lícitas. “Do ponto de vista da proteção à mulher, são como uma extensão do espírito preventivo da Lei Maria da Penha”.
Embora considere o recurso legítimo como prevenção, a advogada Sandra Araujo ressalta que nem toda mulher tem condição ou disposição de pagar por esse tipo de ferramenta. Mas há opções gratuitas.
É o que fez Helena, que prefere não se identificar com seu nome real. Aos 37 anos, ela começou a se relacionar com um rapaz, mas, quanto mais conversava, mais seu sinal de alerta acendia. Um amigo advogado lhe ensinou a pesquisar antecedentes criminais na internet. Descobriu que o pretendente respondia a processos com base na Lei Maria da Penha e, inclusive, tinha uma medida protetiva. Hoje, cinco anos depois, continua a pesquisar os antecedentes antes de encontros.
Nem todo risco aparece na consulta
A ausência de processos ou registros não pode ser interpretada como garantia de que aquele homem não oferece risco, pois nem todos os casos de risco aparecem em uma consulta pública ampla, alerta a advogada Layla de Freitas.
Um exemplo citado por ela são as medidas protetivas e os processos de violência doméstica, que frequentemente tramitam sob sigilo.
“Essa é, talvez, a distorção mais perigosa que esse tipo de ferramenta pode gerar se usada isoladamente. Uma ‘tela limpa’ no aplicativo é, no máximo, ausência de registro formal encontrado até aquele momento — não é certificado de segurança”, afirma.
A especialista destaca que os sinais de alerta comportamentais continuam sendo indicadores tão ou mais relevantes do que qualquer consulta documental. Alguns exemplos são: controle excessivo, isolamento da rede de apoio, ciúme desproporcional e explosões de agressividade verbal.
Outro ponto, citado pelo advogado Bruno Teixeira, é que consultar para fins de segurança é lícito. Porém, compartilhar o relatório em grupos, expor a pessoa nas redes ou usar a informação para persegui-la pode culminar em crime.
“Já entra no terreno da difamação, do dano moral e até do crime de perseguição”, destaca.
A descoberta de um processo ou de uma medida protetiva não significa automaticamente que a mulher precise procurar as autoridades, explica a advogada Sandra Araújo.
Mas, se ela própria estiver sendo ameaçada, perseguida ou assediada, deve buscar ajuda. Entre os canais de denúncia estão a Delegacia da Mulher, o telefone 180 e, em situações de emergência, o 190.
Pesquisa para ter segurança
Após sair de um casamento de 18 anos, a publicitária Jessica Soma se viu tendo que descobrir como voltar a ter encontros. Os aplicativos foram a solução, mas geraram outro problema: a segurança.
“Eu sou bastante desconfiada. Aí, quando baixei o Tinder, ia pesquisando a pessoa na internet para me sentir mais segura”, conta.
Apesar de conhecer os aplicativos de checagem, diz que só fez busca manual, a exemplo de pesquisas em tribunais e redes sociais.
O que as plataformas fazem?
Reúnem automaticamente e em pouco tempo informações disponíveis em bases públicas, como tribunais, diários oficiais e redes sociais, e apresentam um relatório de risco.
Como é feita a busca?
Algumas plataformas conseguem fazer a pesquisa utilizando apenas o nome completo e o telefone da pessoa pesquisada.
O que uma investigação amorosa consegue descobrir?
A busca pode ajudar a identificar sinais de alerta antes de um encontro, mas não funciona como um atestado de segurança. Não consegue, por exemplo, encontrar informações que não sejam públicas. É o caso dos boletins de ocorrência que não viraram processos.
Um aplicativo pode fazer isso legalmente?
Em princípio, sim, quando utiliza informações públicas para uma finalidade legítima, como a proteção da vida e da integridade física. Mas os dados continuam protegidos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e não podem ser usados de qualquer maneira. A consulta deve respeitar limites, como necessidade e adequação ao objetivo.
A ferramenta pode errar?
Homônimos, dados desatualizados ou uma interpretação equivocada podem fazer com que uma informação seja atribuída à pessoa errada. Por isso, o resultado da busca não deve ser tomado como verdade absoluta. As plataformas, porém, podem usar o cruzamento de informações para reduzir esse risco.
Por que as mulheres estão usando essas ferramentas?
A busca aparece como uma forma de prevenção e autoproteção diante da violência contra a mulher. Segundo os especialistas, os aplicativos são uma espécie de extensão de protocolos que muitas mulheres já adotam, como compartilhar a localização, marcar encontros em locais públicos e combinar códigos com amigas.
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