Espírito Santo pode ganhar mais 6 centros de pesquisa de elite
Meta de fazer do ES a “Israel brasileira” avança com grupos de pesquisa que podem elevar de um para sete os institutos nacionais
Transformar o Espírito Santo em uma “Israel brasileira” é a meta defendida por Carlos Sena para fazer do Estado um polo de ciência, tecnologia e inovação. Mas tal desejo nada tem a ver com política: na comparação, ele destaca a capacidade do país do Oriente Médio de transformar conhecimento em soluções e negócios.
A ambição, de acordo com ele, é criar um “oásis tecnológico”, capaz de levar pesquisas ao mercado, abrir novas frentes econômicas e reter profissionais com trabalho bem remunerado.
Na atual gestão do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC), da qual Sena é diretor de Inovação e Sustentabilidade, a entidade encontrou seis grupos de pesquisa com potencial para se juntar ao único Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do Espírito Santo.
Os INCTs são redes de pesquisadores reconhecidas pela excelência científica em áreas estratégicas. Se todos avançarem, o Estado poderá passar de um para sete centros de pesquisa de elite.
O CDMEC conversa com Ufes, Ifes e UVV e busca aproximar os pesquisadores de órgãos que financiam inovação.
Sena diz que talento e projetos já existem. Cita caminhões autônomos para fábricas, próteses de reabilitação, uma torre eólica que reduz em até 90% as dimensões da fundação e uma tecnologia a laser que recria em 3D instalações industriais sem plantas atualizadas.
Engenheiro eletricista e sócio-fundador da ESSolar, ele também falou ao podcast Histórias Empresariais, por mais de uma hora, sobre a empresa aberta em 2017 e a mudança de rumo provocada pela pandemia. Abaixo, alguns trechos da entrevista, que pode ser conferida na íntegra no QR Code presente em destaque na página.
A Tribuna — Qual é o objetivo da proposta de transformar o Espírito Santo em uma “Israel brasileira”? Isso nada tem a ver com política, correto?
Carlos Sena — Uma liderança precisa mostrar uma visão de futuro. Queremos fazer do Espírito Santo um oásis tecnológico, referência mundial no desenvolvimento de tecnologias, reter a mão de obra local com trabalho de qualidade e alavancar a economia pela pesquisa e inovação.
Quando falamos em Israel, a referência é a força científica e tecnológica de um país reconhecido mundialmente pelo desenvolvimento de soluções.
O Espírito Santo já reúne pesquisadores de alto nível, empresas inovadoras e projetos capazes de gerar novos produtos, mas boa parte desse trabalho ainda é pouco conhecida e tem dificuldade para chegar ao mercado.
O papel do CDMEC é encontrar esses talentos, aproximar universidades, empresas e órgãos de fomento e ajudar a transformar conhecimento em negócio.
A meta é fazer a pesquisa receber investimento, atender problemas reais, abrir mercados e manter aqui profissionais qualificados.
> O Espírito Santo já reúne um ecossistema de inovação capaz de sustentar essa ambição?
Tem muita coisa boa acontecendo! No ano passado, iniciamos no CDMEC o podcast Energize-se para conhecer e divulgar iniciativas de inovação, tecnologia e transição energética.
Foi uma surpresa encontrar pesquisadores de renome mundial que não são conhecidos no Estado. A Ufes desenvolveu uma tecnologia para caminhões autônomos em unidades industriais e tem um núcleo de referência em próteses para reabilitação de membros superiores.
Há ainda a torre eólica da Metalvix, que reduz em até 90% as dimensões da fundação e permite reaproveitar a base na troca da turbina. O Estado tem um INCT e identificamos outros seis núcleos que podem buscar essa transformação. Estamos conversando com Ufes, Ifes e UVV para ajudar esses grupos a virar institutos nacionais.
> A torre eólica da Metalvix já está pronta para o mercado ou ainda precisa passar por testes?
A torre já foi patenteada no Brasil, nos Estados Unidos e em países da Europa. Agora está na fase de validação para um aerogerador de quatro megawatts. A Metalvix tem um contrato com a Finep e procura o local e o parceiro para fazer o teste em escala real. Os ensaios em túnel de vento e as simulações computacionais já foram feitos.
> Para o senhor, o desafio é fazer o dinheiro chegar aos projetos inovadores da academia?
A questão muitas vezes é como acessar o dinheiro. Conversamos com a Fapes e com o gestor do Fundo Soberano e vamos buscar Embrapii, Finep e outros órgãos.
Empresas associadas ao CDMEC sabem preparar e desenvolver esses projetos. O centro também é uma instituição privada de ciência e tecnologia. Queremos fazer a informação circular e os recursos chegarem a quem precisa.
> A inovação produzida no Espírito Santo vai além dos projetos diretamente ligados à indústria metalmecânica?
Temos PicPay e Wine na área de software e uma tecnologia capixaba que faz o levantamento em 3D de instalações industriais com laser. Ela entra em fábricas antigas, onde os projetos e registros já não correspondem à realidade, e recria todas as estruturas. Também precisamos olhar o setor metalmecânico de forma mais ampla.
Uma prótese pode nascer na medicina, mas sua fabricação exige peças, projeto e fábrica. Precisamos sair da ideia de pesquisa pela pesquisa e buscar uma solução para uma dor da sociedade.
A indústria tem problemas e a academia reúne a mão de obra mais qualificada para enfrentá-los. O CDMEC quer unir os dois lados e chegar a novos produtos e mercados.
> Como surgiu a ESSolar e como a atuação da empresa evoluiu desde então?
A ESSolar foi aberta em março de 2017 para aproveitar o crescimento da geração distribuída. Desenvolvemos em Linhares um projeto de minigeração compartilhada.
Em 2019, deixei a carreira executiva para me dedicar ao negócio. Logo depois veio a pandemia. Paralisamos o projeto próprio, começamos a prestar serviços para terceiros e a ESSolar virou uma empresa de soluções em energia renovável.
Hoje trabalhamos também com sistemas de armazenamento em baterias para casas, propriedades rurais e indústrias.
> O armazenamento passou a ser um desafio tão importante quanto ampliar a geração?
Eu diria que sim. Mas costumo dizer que o setor elétrico foi planejado para dar errado. Geração, transmissão e consumo não avançam no mesmo ritmo, e o sistema está sempre atrás do prejuízo.
O armazenamento pode ajudar a mudar esse modelo. Ao espalhar polos de baterias pela rede, podemos tornar as regiões mais autossuficientes e deixar as grandes interligações principalmente para situações de emergência.
Curiosidades
Granito vira bateria
Carlos Sena revelou que o pó do beneficiamento do granito Preto São Gabriel é exportado do Espírito Santo para Israel e transformado em pastilhas que armazenam calor, tornando-se bateria. Ele afirma que o material pode chegar a 915 graus e perder menos de 1% da energia térmica em 24 horas.
Tesouro aposentado
Ao falar de descomissionamento, Carlos Sena disse que uma plataforma de petróleo aposentada guarda toneladas de materiais valiosos: aços especiais, cobre, ouro e titânio, que podem ser separados durante o desmonte e reaproveitados como matéria-prima pela indústria, em vez de sair do País como sucata.
PERFIL
Carlos Sena
Atividade atual: Sócio-diretor e CEO da ESSolar. Diretor de Inovação e Energia do CDMEC
Formação: Engenharia Elétrica pelo Cefet-MG. Mestrado em Controle e Automação pela Ufes. MBA Executivo de Finanças e Análise de Investimentos pelo Ibmec-BH
Mais de 26 anos no setor elétrico. Passagens por Fiat e fornecedores, Escelsa/EDP e pelo complexo termelétrico hoje controlado pela Eneva
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