Pedidos de demissão batem recorde no ES e passam de 112 mil no semestre
Troca de emprego ganha força com mercado aquecido, maior poder de barganha, busca por melhores condições e mais qualidade de vida
O número de pedidos de demissão no Estado vem batendo sucessivos recordes. No primeiro semestre deste ano foram 112.085, 3,5% a mais que no mesmo período de 2025, que já havia sido o mais alto.
Os dados são do Ministério do Trabalho e Emprego, calculados com base nas informações de desligamentos do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de 2020 a 2026.
Considerando os anos completos, o movimento fica ainda mais evidente. Os pedidos de demissão passaram de 70.043, em 2020, para 210.412, em 2025.
O movimento também é percebido por profissionais de recursos humanos no Estado. Eliana Machado, CEO da Center RH, é uma delas.
Ela avalia que “grande parte” dos pedidos de demissão ocorre entre quem está migrando de uma oportunidade para outra. O crescimento de municípios no Estado, combinado à busca por qualidade de vida e pela proximidade do trabalho, é um dos fatores.
“O nosso Estado é muito voltado à logística e temos vários municípios, como Viana, que estão crescendo demais nessa área. Muitos moradores dessas regiões estão vendo surgir oportunidades e migrando”, disse.
A remuneração, por sua vez, passou a ser avaliada junto com outros fatores, como os benefícios. Um exemplo é o plano de saúde. “Hoje a saúde é algo crítico e muito buscado pelo colaborador”.
Ela também observa busca pela estabilidade, por isso, há profissionais que deixam a empresa ao perceber dificuldades no desempenho ou mudanças que podem afetar a organização, como as tributárias. “Ele busca outro emprego não porque desgosta do cargo, mas porque está antecipando o que pode ocorrer no futuro”.
Equilíbrio entre vida pessoal e profissional e possibilidade de trabalho híbrido também passaram a pesar na hora de permanecer em uma empresa, acrescenta o economista Ricardo Paixão.
“Uma parcela maior dos trabalhadores parece disposta a trocar uma relação de trabalho que considera insatisfatória por outra que oferece melhores condições. Em termos econômicos, podemos dizer que aumentou seu poder de barganha, principalmente em ocupações com maior qualificação.”
O cenário econômico favorável também ajuda a explicar o fenômeno. Segundo ele, apesar da desaceleração na criação de vagas nos últimos anos, o mercado formal continua aquecido. No primeiro semestre, foram criados cerca de 24 mil novos postos de trabalho.
“No futuro, essa tendência pode não continuar. Parte do fenômeno é estrutural, ligado a novas preferências profissionais, mas outra parte é conjuntural e depende das condições do mercado de trabalho”.
Custo médio de R$ 21.100 por cada desligamento
Empresas são afetadas de várias formas por um pedido de demissão. Um exemplo é que a saída de um funcionário pode provocar até R$ 21.100 em custos.
O valor, estimado pela psicóloga e colunista de A Tribuna Satina Pimenta, leva em consideração os custos de recrutamento e integração do funcionário que se demitiu, as verbas rescisórias e o recrutamento e a integração de um novo profissional. O cálculo é feito para um funcionário com salário-base de R$ 3 mil.
“Isso ainda não considera o custo gasto em ação trabalhista, caso a pessoa saia devido a um ambiente tóxico”, pontua Sátina.
Além disso, quando um profissional sai, a empresa perde também conhecimento, experiência, relacionamento e domínio de processos, explica Gisélia Freitas, psicóloga e diretora de Liderança, Cultura e Diversidade do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo (IBEF-ES).
“Para as empresas, o aumento no número de demissões é uma preocupação crescente, principalmente, porque muitos setores já enfrentam dificuldade para encontrar profissionais qualificados”, diz.
A alta rotatividade, explica, também gera efeitos no ambiente de trabalho como sobrecarga de equipes e comprometimento do engajamento.
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