O meu corpo não é assunto seu
Após receber um comentário sobre seu corpo após palestra, articulista discute pressão estética, autoestima e o limite entre opinião e cuidado.
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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No início de agosto, fui ao CANEG, o Café de Negócios da Associação dos Empresários da Serra (ASES). Cabelo arrumado, maquiagem, vestido bonito e muita expectativa. Subi ao palco para falar sobre aquilo que estudo e defendo: a relação entre saúde mental, produtividade e lucratividade nas empresas. Foi uma palestra maravilhosa, vieram fotos, vídeos, encontros e muito networking. Eu estava feliz.
Até que chegou uma mensagem privada: “Nossa, engordou, né?”. Li e fui procurar quem era aquela pessoa. Não a conhecia, nunca havia tido qualquer contato com ela. E fiquei pensando: o que exatamente fez alguém acreditar que, ao ver uma foto minha nas redes sociais, ganhou autorização para comentar sobre o meu corpo?
Essa não é uma questão nova. Mulheres públicas e anônimas convivem diariamente com opiniões não solicitadas sobre peso, idade, roupas, gravidez, celulite e aparência. Recentemente, a atriz Leandra Leal voltou a falar sobre isso ao criticar a pressão estética e lembrar como comentários sobre o corpo podem afetar a autoestima. Ela chamou atenção para uma lógica perigosa: a sociedade trata o corpo feminino como se fosse público, disponível para ser avaliado, julgado e padronizado.
É justamente contra essa lógica que o movimento Body Positive ganhou força: a defesa de uma relação mais saudável com o próprio corpo, questionando padrões de beleza e a ideia de que precisamos corresponder a eles para sermos aceitos. Não significa deixar de cuidar da saúde. Significa compreender que o corpo de outra pessoa não é um espaço aberto para a nossa avaliação.
E aqui quero fazer uma pergunta diferente: qual é a função da opinião que estamos prestes a oferecer? Se eu vejo alguém e penso que engordou, emagreceu, envelheceu ou deveria mudar alguma coisa em seu corpo, o que exatamente a minha opinião acrescentará à vida daquela pessoa? Se ela não pediu, se não existe intimidade e se não há uma possibilidade concreta de cuidado, talvez o silêncio seja uma forma de responsabilidade.
Eu poderia ter respondido àquela mensagem. Poderia ter exposto a pessoa. Preferi trazer a pergunta para cá. Quando compartilhei o episódio nas minhas redes, vieram muitas manifestações. Pessoas contando que já passaram pelo mesmo. Uma mulher grávida relatou ter recebido comentários sobre seu corpo durante a gestação. E é justamente aí que mora o perigo: uma frase que para quem escreve parece banal pode encontrar alguém em um momento de fragilidade e transformar-se em mais uma voz contra ela mesma.
Talvez eu tenha conseguido ler “engordou, né?” sem transformar aquilo em verdade porque aprendi a não entregar minha autoestima nas mãos de desconhecidos. Mas nem todo mundo construiu essa proteção. Por isso, responsabilidade não significa não ter opinião. Significa entender que nem toda opinião precisa ser oferecida ao mundo.
Antes de comentar sobre o corpo de alguém, talvez devêssemos perguntar: isso é cuidado ou é apenas a minha necessidade de dizer o que penso? Porque liberdade de expressão não deveria ser confundida com liberdade para ferir. E existem tantas coisas interessantes para conversar sobre uma pessoa que acabou de subir a um palco. O tamanho do corpo dela definitivamente não é uma delas.
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