Juízes querem o combate ao feminicídio nas escolas
Magistrados defendem que a desconstrução de padrões tóxicos de masculinidade deve começar ainda na formação dos meninos
“Você está chorando igual a uma menininha” ou “seja homem” são frases que meninos podem ouvir desde a infância e que ajudam a reproduzir padrões de masculinidade baseados em força, controle e superioridade.
Para juízes das áreas de violência doméstica e infância e juventude, combater o feminicídio passa por interromper esse processo ainda na formação de crianças e adolescentes, quando a escola tem papel fundamental.
A juíza Thaita Trevizan, coordenadora das Varas de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Tribunal de Justiça do Estado (TJES), defende que a escola trabalhe conceitos como machismo, misoginia e violência de gênero, antes que esses comportamentos avancem para agressões.
“O feminicídio é o último grau da escada da violência, que desemboca na letalidade. Na perspectiva da prevenção, a gente tem que trabalhar para a conscientização desses meninos do que é esse machismo estrutural”, afirmou.
O Judiciário prepara um projeto-piloto para levar essa abordagem às escolas de Vitória. Segundo Thaita, a iniciativa está em desenvolvimento e prevê parcerias com o município e a área de educação.
“A gente já fez um termo de cooperação com a Prefeitura de Vitória para fazer um projeto-piloto nas escolas, sejam elas particulares ou públicas, com essa conscientização”, disse.
Segundo a juíza, existem diálogos nesse sentido com a Prefeitura de Vila Velha, por meio da Secretaria de Educação.
O juiz Marco Aurélio Soares Pereira, da Vara de Violência Doméstica da Serra, afirma que a formação dos meninos também precisa questionar modelos de masculinidade. “É levar inteligência emocional para dentro das escolas, mas com esse olhar sobre a misoginia, sobre esse desnivelamento social.”
A coordenadora das Varas da Infância e Juventude do TJES, Richarda Aguiar Littig, afirma que a escola pode identificar comportamentos antes que se consolidem.
“A escola é um espaço privilegiado porque consegue alcançar crianças e adolescentes antes que determinados padrões de relacionamento se consolidem.”
Internet ajuda a disseminar ódio
Conteúdos que associam masculinidade à dominação e apresentam mulheres como inferiores circulam nas redes sociais e podem influenciar a formação de crianças e adolescentes.
Juízes defendem a educação digital, a orientação familiar e a preparação de profissionais para identificar manifestações de misoginia. A escola é apontada como um dos espaços para discutir o tema.
A juíza Thaita Trevizan cita o crescimento de grupos nas redes sociais que disseminam discursos de ódio contra mulheres entre os jovens.
“Tem um retrocesso, um pensamento retrógrado, conservador de todo esse discurso contra mulher, um discurso de ódio à condição de gênero. As redes sociais são o grande desafio, porque é uma monetização dessa misoginia.”
O juiz Marco Aurélio Soares Pereira observa que a chamada “machosfera” alcança conteúdos que incentivam agressões e exposição de mulheres.
“Temos o movimento red pill. São conteúdos ensinando a agressão a mulheres, expondo nudes femininos, misoginia. É um perigo se não tiver uma fiscalização, um controle. É esse ataque à figura da mulher, piadinhas, ataques à Lei Maria da Penha, por exemplo.”
O juiz observa a importância da preparação dos profissionais, uma vez que a vítima, muitas vezes, não sabe que está sofrendo violência.
“É preciso uma qualificação própria. Nós, juízes, por exemplo, estamos passando por qualificações para o protocolo de julgamento com perspectiva de gênero. O professor também precisa ser qualificado, o médico num PA, para ele ter um outro olhar.”
Para a juíza Richarda Aguiar Littig, o ambiente digital também pode reproduzir comportamentos de controle e perseguição. “A gente tem que trabalhar a questão de que controlar a rede social da namorada não é cuidado, criar perfil falso para ameaçar a namorada é crime e tudo isso é rastreável.”
Opiniões
“Violência de gênero”
“Sou favorável a toda essa perspectiva de ensinamento acerca do que é misoginia, do que é violência de gênero, do que é machismo estrutural e também que isso seja trabalhado nas escolas. O feminicídio é o último grau da escada da violência.”
“Vítima precisa ser amparada”
“A criança de hoje é o adulto de amanhã. Se o adulto traz comportamentos inadequados, errou-se lá na educação dele na infância. A vítima também precisa ser amparada. Nas escolas o machismo pode ser combatido com palestras, levando-se informação, assim como foi levada um dia a educação para o trânsito”.
“Relação de confiança”
“O jovem hoje mais ouve o que se deve fazer quando vem de um colega, ou de um professor que ele tem boa relação do que quando vem de dentro de casa. E, muita vezes, aquele jovem também vive a violência dentro de casa e vai reproduzi-la. Antes que isso se torne natural, é preciso que a escola prepare esses jovens.”
Saiba Mais
Machismo
Crença ou comportamento que coloca homens em posição de superioridade e impõe papéis e comportamentos às mulheres.
Misoginia
Desprezo, aversão ou hostilidade contra mulheres por serem mulheres.
Machosfera
conjunto de espaços online voltados a discussões sobre masculinidade, alguns com discursos antifeministas e misóginos.
Red pill
Conceito usado por grupos que dizem ter “descoberto a verdade” sobre relações, com ideias antifeministas.
Incel
Homens que se identificam como “celibatários involuntários” e, em comunidades radicalizadas, podem atribuir às mulheres a culpa por suas frustrações afetivas e sexuais.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários