Apartamentos menores são os mais procurados por solteiros no ES
Número de pessoas morando sozinhas e entrada da geração Z no mercado aceleram a demanda por estúdios e imóveis compactos no Espírito Santo
No mundo dos solteiros, existem aqueles que estão à procura de um par e aqueles que estão felizes vivendo sozinhos. No Brasil, mais de 15 milhões de pessoas vivem sozinhas. No Espírito Santo, o dado representa 21,3% da população.
Esse cenário tem transformado as demandas do mercado imobiliário. A gerente comercial da Construtora Javé, Natália Farias, afirma que os apartamentos menores estão entre os mais procurados por esse público.
“No Espírito Santo, a demanda por esse tipo de imóvel está em patamares recordes”, pontua. Ao mesmo tempo, as construtoras têm trabalhado para atender às expectativas.
“A busca por apartamentos do tipo estúdio, lofts e compactos (de 20 a 45 metros quadrados) deixou de ser um nicho e virou o foco de grandes construtoras para atender quem mora sozinho”, explica Natália.
Dados da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-ES) e do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado (Sinduscon-ES) apontam que, em 2025, os apartamentos de um dormitório lançados no Estado representaram 43,6% de todo o padrão de ofertas.
Natália complementa que essa será a tendência do mercado imobiliário daqui para frente.
“A projeção de especialistas e institutos de pesquisa demográfica aponta que os apartamentos compactos e com facilidades integradas não são apenas uma moda passageira, mas o futuro da moradia urbana”, explica.
Para Fabiano Martins, diretor da Ademi-ES e gerente comercial da Construtora Épura, a redução no tamanho dos apartamentos também está relacionada principalmente à entrada da geração Z no mercado de consumo.
“Esse público busca imóveis mais funcionais, característica encontradas facilmente nos projetos compactos”.
A vida solo também têm aumentado a procura por moradias com serviços integrados, como academias, mercados e área de lazer.
Para Fabiano, essa é uma das principais adaptações que os imóveis tendem a aderir. Porém, a faixa etária do público pode influenciar nesse aspecto.
“Um imóvel compacto para o público 60+ terá áreas comuns diferentes daquelas que seriam entregues para a geração Z ou para empreendimentos destinados à locação de curta temporada”, destaca.
Entrada no mercado de trabalho muda o cenário
A entrada no mercado de trabalho e o aumento da independência financeira também ajudam a explicar a mudança na relação com a moradia.
Ter renda própria ampliou, principalmente para as mulheres, a possibilidade de escolher quando e com quem morar, ou até mesmo viver sozinha.
De acordo com a psicóloga Ana Carolina Maffazioli, há mulheres que estão vivendo uma experiência inédita em suas famílias: são a primeira geração com condições de se sustentar e de escolher morar sozinhas.
“O que antes poderia ser visto como sinal de que algo não saiu como o esperado passa a ser encarado como uma conquista de independência”, destacou.
A psicóloga Naira Delboni também observa uma valorização crescente da autonomia.
Para ela, morar só pode representar liberdade, privacidade e a possibilidade de organizar a rotina de acordo com o próprio estilo de vida. Isso, no entanto, não significa abandonar relacionamentos ou vínculos familiares.
A independência financeira, especialmente entre as mulheres, também muda a lógica das relações. “Ela não precisa estar em um relacionamento para ter segurança financeira ou para se sentir realizada”, explica Naira.
“Nesse cenário, estar com alguém passa a ser mais uma escolha do que uma necessidade”.
O movimento, porém, não é uniforme. Questões financeiras, emocionais e até o conforto ainda fazem com que muitas pessoas adiem a saída da casa dos pais.
“Tenho mais autonomia”
A empresária Tamires Silveira Costa, 33 anos, mora sozinha há três anos. Ela conta que saiu da casa dos pais aos 18 anos, morou em repúblicas universitárias e dividiu o apartamento com uma pessoa durante 10 anos.
Hoje, Tamires não abre mão de morar sozinha, por sua independência. Também não pensa em começar um relacionamento.
“Não me vejo morando com outra pessoa, nem começando um relacionamento agora. A casa é minha, são minhas regras, faço o que quero para comer. Minha autonomia é muito maior”, relata.
Privacidade é vantagem
Para o consultor de vendas Lucas Hasntenreiter, de 32 anos, uma das principais vantagens de morar sozinho é a privacidade. “Morar sozinho tem seus desafios, mas é muito bom. Vivo assim desde os 18 anos”.
Lucas precisou aprender “algumas coisas” para se adaptar à rotina da vida solo.
“Tive que fazer minha própria correria. Começar uma rotina de lavar, cozinhar , arrumar casa e pagar as contas de água e luz. Muita coisa muda”, relata.
Lucas está solteiro, mas destaca que não dividiria sua casa se começasse um relacionamento. “Só pensaria nisso se fosse casar. Do contrário, não me vejo vivendo junto de ninguém”.
Análise
“Economia da solteirice reflete mudança no comportamento”
“A chamada 'economia da solteirice' reflete uma mudança importante no comportamento e na própria estrutura das famílias brasileiras.
Cada vez mais pessoas vivem sozinhas, adiam relacionamentos, casamentos e a formação de famílias ou simplesmente optam por uma vida com maior autonomia. Isso cria um público consumidor com necessidades e hábitos próprios, e o mercado começa a perceber que existe uma demanda significativa que antes era pouco explorada.
Esse fenômeno não parece ser um movimento passageiro. Por isso, a tendência é que a chamada 'economia dos solteiros' continue se expandindo.
Para as empresas, o desafio será compreender que esse consumidor não constitui um grupo homogêneo: existem jovens, adultos e idosos vivendo sozinhos, com rendas, estilos de vida e padrões de consumo bastante diferentes. Quem conseguir identificar essas particularidades terá boas oportunidades de negócio nos próximos anos”.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários