Indústrias e 25 mil empregos até 2050
A expansão da cadeia de minerais críticos e terras raras pode acrescentar R$ 192,1 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) nacional
O Espírito Santo tem potencial de criar cerca de 25 mil empregos até 2050 diante de cenários possíveis na cadeia de minerais estratégicos, com atração de indústrias de transformação.
No País, dados de um estudo da Amcham Brasil apontam que a expansão da cadeia de minerais críticos e terras raras pode acrescentar R$ 192,1 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) e criar 750 mil empregos nos próximos 24 anos.
Das 750 mil ocupações, 446 mil estão associadas a um movimento de maior adensamento da cadeia. Isso representa cerca de 60% do efeito estimado sobre o emprego, destacou Jaques Paes, executivo da indústria de mineração e professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Esse dado é particularmente interessante para o Estado, pois ele já tem parte importante das condições necessárias para disputar esses elos. Há infraestrutura portuária e logística, capacidade industrial, experiência em processamento, acesso a regiões produtoras e conexão com mercados externos.
A partir disso, ele avaliou que o Estado pode alcançar a criação de aproximadamente 25 mil ocupações até 2050, cerca de 3,3% das 750 mil estimadas nacionalmente. “Se o Estado souber aproveitar as competências que já possui para atrair processamento, transformação, fornecedores e novas atividades industriais, esse número pode ser maior.”
Paes disse que o Estado atrairá indústrias e empresas que produzem tecnologias que usam os minerais. Disse ainda que a Great Wall Motors (GWM), que instalará montadora em Aracruz, no Norte do Estado, pode funcionar como uma âncora.
“A GWM é apenas um exemplo desse movimento, especialmente relevante por ser a primeira. Uma primeira instalação cria um precedente industrial: testa infraestrutura, relação institucional, mão de obra, fornecedores, licenciamento e operação. Para quem vem depois, parte dessas incógnitas já deixou de ser apenas hipótese.”
O verdadeiro vetor de desenvolvimento sustentável e de criação de empregos de alta remuneração para engenheiros, químicos e técnicos locais está em agregar valor dentro do Estado, transformando o mineral em componentes tecnológicos acabados, destacou o físico nuclear, professor do Departamento de Física da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e representante da Ufes no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Terras Raras, Marcos Tadeu Orlando.
“Terra rara exige tecnologia. Exploração predatória não funciona. O que gera riqueza é agregar valor aqui”, disse o especialista.
Vocação logística dá vantagem ao Estado
As vocações logísticas fazem com que o Espírito Santo tenha vantagem competitiva por minerais extraídos de outros estados, além da atração de indústrias.
O economista Sebastião Demuner avaliou que rodovias, ferrovias e portos são um fator bastante positivo para que minerais do Estado e de outras regiões sejam transformados em território capixaba. “Com uma articulação bem estruturada entre as empresas do setor, o Espírito Santo possui, de fato, uma oportunidade concreta de atrair novos investimentos e instalações industriais”, disse.
A infraestrutura portuária e a vocação exportadora do Estado posicionam o estado como um potencial polo de processamento de minerais críticos, independentemente da origem da extração primária, destacou o economista mineral Gilberto Dias Calaes.
A Nova ES, agência de atração de investimentos do Estado, disse que a estratégia é buscar empresas interessadas no beneficiamento dos minerais e na fabricação de componentes, em vez de limitar a atividade à retirada e à exportação da matéria-prima.
“O interessante para o Espírito Santo é atrair a industrialização, não exportar a commodity. O valor agregado está na industrialização”, afirmou a diretora-presidente da Nova ES, Patrícia Gouvêa.
Você sabia
Terras raras são um grupo específico de 17 elementos químicos. Minerais críticos são uma categoria mais ampla: reúne matérias-primas essenciais cuja falta pode afetar a economia e a indústria. Ou seja, terras raras podem ser críticas, mas nem todo mineral crítico é terra rara.
Saiba mais
Oportunidades para o ES
A corrida mundial por minerais críticos e terras raras pode abrir oportunidades para o Estado em áreas como pesquisa, tecnologia, indústria, empregos e investimentos. Cerca de 25 mil novos empregos podem ser criados até 2050.
A cadeia produtiva cria vagas de alto valor agregado para geólogos, engenheiros de minas, físicos nucleares e químicos industriais.
A exploração de terras raras exige etapas que vão além da simples retirada do minério. Os elementos não são encontrados de forma isolada e precisam passar por processos de refinamento e separação.
Os 17 elementos químicos que formam as terras raras são lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio e lutécio, mais escândio e ítrio.
Potencial econômico
O potencial de atração de empresas e investidores já existe pela conjuntura do Espírito Santo e pelas possibilidades de integração entre diferentes cadeias de suprimentos.
ao ampliar a visão da cadeia para além da extração local, também se amplia o universo de empresas que podem ser atraídas.
Processamento, materiais intermediários, componentes, equipamentos e aplicações tecnológicas passam a fazer parte da mesma equação.
Potencial geológico
O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras, o que representa perto de 23% das reservas mundiais. O Espírito Santo tem uma formação geológica muito antiga, da Era Arcaica (período Eoarqueano, entre 4 e 2,5 bilhões de anos), e alguns pontos com essas reservas já foram detectados.
Atualmente, o grupo de pesquisa da Ufes trabalha em laboratório com a extração de elementos presentes em areias monazíticas para estudar suas características e possibilidades de utilização.
O diferencial está em transformar uma matéria-prima de baixo valor em produtos de alto valor agregado, criando condições para que a riqueza mineral se converta em tecnologia, investimentos e desenvolvimento econômico no Estado.
Fique por dentro
Pedidos de pesquisa na Ufes
Mineradoras locais têm procurado ativamente a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) para analisar amostras de seus lotes de extração.
O departamento de Física da Ufes diz que já foram encontrados potencialidade de uso de três minerais considerados raros: cério, samário e neodímio, elementos fundamentais para a fabricação de tecnologias avançadas, eletrônicos e energias renováveis.
Transformação em tecnologias
O grupo de pesquisa da Ufes já aplica os minerais em dispositivos, trabalhando em três frentes.
Cerâmicas magnéticas: imãs para dispositivos de memória RAM (memória volátil de pendrives).
Limitadores de corrente (para curto-circuito): é um dos carros-chefe do grupo de pesquisa. A ideia é instalar esses dispositivos em plataformas de petróleo para evitar curtos-circuitos em ambientes com gases explosivos.
Scaffolds (suportes ósseos): em parceria com a Universidade Nacional da Colômbia, produzem estruturas cerâmicas (fosfatos impregnados com terras raras do Espírito Santo) via impressão 3D. Elas funcionam como “andaimes” para regeneração de fraturas ou reconstrução de massa óssea para implantes. O material é biocompatível e absorvível, e a terra rara ajuda a mapear o crescimento do osso e a absorção do material sem técnicas invasivas.
Fonte: Marcos Tadeu Orlando e Ufes.
Análise
“Vantagens com o processamento e as etapas industriais”
“Os minerais críticos ganharam importância porque são insumos de tecnologias que tendem a crescer nas próximas décadas, como baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de energia. A experiência chinesa mostra que a vantagem não está apenas em possuir o minério, mas em dominar também seu processamento e as etapas industriais que vêm depois.
Para o Espírito Santo, a oportunidade está justamente aí. Se o potencial mineral existente no Estado se confirmar, haverá espaço para novos investimentos e empregos. Mas o ganho pode ser maior se o ES conseguir aproveitar sua estrutura portuária, sua indústria metalúrgica e sua logística para atrair também empresas de processamento, fornecedores e atividades industriais ligadas a essa cadeia.
O cuidado é não imaginar que isso acontece automaticamente. Ter o recurso natural é apenas o começo. Transformá-lo em desenvolvimento exige uma estratégia de longo prazo, porque novas cadeias produtivas levam anos para se formar.
E também construir uma boa governança para que essa riqueza se traduza em mais emprego, renda, tecnologia, arrecadação e, no fim, maior bem-estar para a sociedade”.
Eduardo Araújo, economista e consultor do Tesouro Estadual na Sefaz-ES.
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