Quem está no controle?
Psiquiatra analisa como o celular saiu do papel de ferramenta, passou a comandar rotinas e o que fazer para retomar o equilíbrio
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Imagine a seguinte situação: você pega o celular para ver uma mensagem. Minutos depois, percebe que assistiu a vídeos, leu comentários, navegou pelas redes sociais e já nem se lembra do motivo que levou você a desbloquear a tela. Isso lhe parece familiar?
Essa cena se tornou tão comum que muitos deixaram de enxergá-la como um problema. Estarmos conectados o tempo todo não significa, necessariamente, que isso seja saudável.
Como psiquiatra, observo diariamente os efeitos do uso excessivo do celular sobre a saúde mental. Não se trata de demonizar a tecnologia, que trouxe avanços importantes para a comunicação, o trabalho e o acesso à informação. O problema começa quando ela deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar um espaço central na nossa vida.
Você já parou para pensar em quem está no controle?
Estudos em neurociência mostram que notificações, curtidas, mensagens e conteúdos rápidos ativam circuitos cerebrais ligados à recompensa. Cada novidade provoca pequenas liberações de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer. Aos poucos, o cérebro aprende a buscar essa sensação repetidamente, criando um ciclo difícil de interromper.
Os efeitos aparecem de diferentes formas: dificuldade de concentração, sensação de mente acelerada, ansiedade, irritabilidade e alterações no sono. Muitas pessoas já não conseguem assistir a um filme, concluir uma leitura ou permanecer alguns minutos sem verificar o celular.
Há também um impacto nas relações. Nunca estivemos tão conectados digitalmente e, ao mesmo tempo, tão distantes emocionalmente. Em muitos lares, famílias compartilham o mesmo espaço físico, mas cada pessoa permanece concentrada em sua própria tela. Conversas diminuem, refeições são interrompidas por notificações e momentos de convivência dão lugar às interações virtuais.
As crianças aprendem observando esse comportamento. Pais frequentemente distraídos pelo celular acabam reduzindo a qualidade das interações com os filhos. Já adolescentes e jovens convivem com comparações constantes e padrões irreais, fatores que podem contribuir para ansiedade, baixa autoestima e sofrimento emocional.
Outro ponto importante é a perda dos momentos de pausa. O cérebro precisa de períodos de descanso para processar emoções, consolidar memórias e recuperar energia. Quando todo intervalo é ocupado por uma tela, essas oportunidades desaparecem.
Isso significa abandonar a tecnologia? Claro que não. O desafio é usá-la com consciência. Reduzir notificações, evitar o celular antes de dormir, estabelecer momentos de desconexão e reservar tempo para conversas presenciais são atitudes simples que podem fazer diferença.
Talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo passamos no celular, mas quanto da nossa vida estamos deixando de viver enquanto olhamos para ele.
A tecnologia deve servir às pessoas. Quando acontece o contrário, é hora de recuperar algo que nenhuma tela é capaz de substituir: a presença real.
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Tribuna Livre,por Leitores do Jornal A Tribuna