E agora?
Depois de anos dedicada a um grande projeto, a autora explora o vazio, o alívio e o pequeno luto que chegam junto com a sensação de missão cumprida
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Há três semanas, tenho trabalhado cerca de 17 horas por dia. Foram dias reunindo documentos, organizando informações, recuperando registros e buscando evidências de tudo aquilo que, ao longo de cinco anos, foi construído no curso de Psicologia em que trabalho. O motivo é uma avaliação de reconhecimento: um momento em que alguém olha para o que foi prometido no início e pergunta se aquilo foi, de fato, realizado. E nós realizamos.
Foi exaustivo, mas também profundamente significativo. Ver tudo reunido, organizado e comprovado produz uma sensação difícil de nomear. Há orgulho, claro, mas também a consciência de que nada disso foi feito sozinho.
Há alunos, professores, coordenadores, equipes e tantas pessoas que participaram dessa construção. E há minha família, que precisou lidar com minhas ausências enquanto eu estava completamente tomada por esse projeto.
O curioso é que, quando tudo se organiza e o trabalho se mostra completo, surge uma mistura inesperada. Há satisfação, alívio e, ao mesmo tempo, uma espécie de silêncio interno. Não porque algo tenha dado errado, mas justamente porque deu certo. E isso me fez pensar sobre o que acontece quando um ciclo se encerra.
Carl Rogers fala sobre a intencionalidade, sobre direcionarmos nossa vida para aquilo que faz sentido. Viktor Frankl, por sua vez, nos lembra da força que um sentido pode ter para sustentar nossa existência.
Durante muito tempo, eu tive um caminho claro. Havia um objetivo que organizava tudo. Eu sabia para onde estava indo. E fui. Trabalhei, insisti, errei, recomecei, aprendi e continuei. Até que, de repente, o objetivo se cumpre.
E então surge a pergunta que raramente nos preparam para fazer: e agora?
Existe uma idealização da chegada. Falamos muito sobre conquistar, realizar, vencer. Pouco falamos sobre o dia seguinte. Um objetivo grande não ocupa apenas a agenda; ocupa também o pensamento, o desejo e a forma como nos percebemos. Quando ele termina, algo se reorganiza dentro da gente.
Não acredito em um único grande propósito para a vida inteira. Talvez tenhamos muitos. Alguns duram anos, outros meses. Alguns transformam nossa trajetória; outros apenas nos conduzem até a próxima etapa. Talvez viver seja também aprender a criar novos sentidos depois que alguns deles se completam.
Por isso, estou vivendo este momento com uma mistura difícil de explicar. Há orgulho, gratidão e uma enorme sensação de missão cumprida. Mas há também um pequeno luto. Porque encerrar um ciclo é, de alguma forma, despedir-se da pessoa que fomos enquanto o construíamos. Minha terapeuta me fez olhar com mais cuidado para esse “e agora?” que aparece quando algo tão estruturante chega ao fim.
Ainda vou apresentar o trabalho e espero, naturalmente, que todo esse esforço seja reconhecido. Mas, independentemente da nota que vier, algo já se completou dentro de mim: chegamos lá.
E agora? Eu não sei. E talvez tudo bem não saber imediatamente. Talvez exista beleza nesse intervalo entre o que termina e o que ainda não começou. Um espaço para respirar, olhar para trás, reconhecer o caminho e permitir que um novo desejo apareça.
Talvez “e agora?” não seja uma pergunta sobre o fim. Talvez seja a primeira pergunta de um novo começo.
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