Dor crônica atinge muito além da coluna e exige diagnóstico preciso
De lombalgia a enxaqueca, diferentes mecanismos de dor exigem diagnóstico cuidadoso e estratégias personalizadas para recuperar função e autonomia.
A dor crônica nem sempre chega ao consultório com o nome de uma doença. Ela pode aparecer como uma dor lombar que não melhora, uma dor cervical que limita os movimentos, uma enxaqueca que interrompe dias de trabalho, um ombro que impede atividades simples, um joelho que dificulta caminhar ou uma queimação persistente após um episódio de herpes-zóster.
São manifestações diferentes de um problema que tem enorme impacto sobre a saúde e a autonomia da população. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a lombalgia a principal causa de incapacidade no mundo.
Dimensão global da dor lombar e das cefaleias
Cerca de 619 milhões de pessoas conviviam com lombalgia em 2020, e a estimativa é que esse número chegue a 843 milhões em 2050. Mas a coluna lombar é apenas uma parte dessa história, pois as cefaleias estão entre as doenças neurológicas mais comuns do planeta.
Segundo a OMS, aproximadamente 40% da população mundial — cerca de 3,1 bilhões de pessoas em 2021 — convive com algum transtorno de cefaleia, como a enxaqueca, capaz de comprometer trabalho, sono, convívio social e qualidade de vida.
Principais tipos de dor atendidos em centro especializado
Na Relevium Centro de Controle da Dor, em Vitória, esse universo aparece diariamente em diferentes formas:
- dores lombares e cervicais;
- dores de ombros, joelhos e quadris;
- cefaleias e enxaqueca;
- ciatalgias e outras dores relacionadas aos nervos;
- neuralgias, como a neuralgia pós-herpética;
- dores musculares e miofasciais;
- fibromialgia e outros quadros de dor persistente.
O desafio é que pacientes com queixas aparentemente semelhantes podem ter mecanismos de dor completamente diferentes.
Por que dores parecidas podem ter origens distintas
Uma dor na perna, por exemplo, pode estar relacionada a uma articulação, a músculos e tendões, a uma raiz nervosa, a uma neuropatia ou a uma combinação desses fatores. Da mesma forma, nem toda lombalgia significa que uma alteração encontrada na ressonância magnética seja necessariamente a responsável pelo que o paciente sente.
É por isso que, na medicina da dor, o diagnóstico não deve se limitar a perguntar “onde está a lesão?”. É necessário compreender “qual é o mecanismo que está mantendo essa dor?”.
Francisco Bohrer Kabouk, neurocirurgião, reforça que nem sempre a solução passa por cirurgia.
"Nem toda hérnia de disco ou estenose vista na ressonância representa indicação cirúrgica. A cirurgia tem seu momento certo, reservado a casos com compressão nervosa significativa ou falha do tratamento conservador bem conduzido"
Para o anestesiologista e especialista em dor André Félix, tratar sem entender o mecanismo é apenas postergar o sofrimento.
"Tratar a dor sem entender sua origem é apenas adiar o problema. Duas pessoas podem apontar exatamente para o mesmo lugar do corpo e terem dores produzidas por mecanismos completamente diferentes. Quanto mais precisa for essa compreensão, mais racional e individualizado pode ser o tratamento"
Consequências da dor crônica na qualidade de vida
Independentemente do diagnóstico, talvez o ponto em comum entre esses pacientes seja aquilo que a dor começa a retirar deles. Primeiro pode ser uma noite de sono. Depois, uma caminhada. O treino. A concentração no trabalho. Uma viagem. A capacidade de dirigir.
Subir uma escada. Brincar com os filhos ou netos. Até que, aos poucos, a vida começa a se organizar em torno daquilo que a pessoa acredita que não consegue mais fazer.
"O problema da dor crônica não pode ser medido apenas de zero a dez. Precisamos perguntar o que aquela dor está impedindo aquela pessoa de fazer. O objetivo do tratamento não é somente diminuir um número na escala de dor. É devolver função, autonomia e vida"
Essa mudança de olhar também ajuda a combater uma ideia ainda comum: a de que sentir dor continuamente seria uma consequência natural do envelhecimento. Embora envelhecer possa aumentar a ocorrência de algumas doenças, a dor persistente não deve ser simplesmente normalizada como “coisa da idade”.
Quando ela interfere no sono, movimento, trabalho, humor, atividade física ou independência, merece investigação.
Avaliação integra história, exame e mecanismos da dor
Em um centro especializado, a avaliação procura integrar história clínica, exame físico, exames complementares quando indicados e identificação dos mecanismos envolvidos na dor.
A partir daí, o tratamento pode envolver diferentes estratégias — medicamentos, reabilitação, atividade física orientada, acompanhamento interdisciplinar e, quando há indicação, procedimentos intervencionistas, radiofrequência, neuromodulação, acupuntura e outras técnicas.
A diferença está justamente em não utilizar a mesma ferramenta para todas as dores.
O médico acupunturista e especialista em dor Dr. Rômulo Félix do Rosário destaca que o exame de imagem é apenas parte do processo.
"O exame é uma parte da avaliação, mas nós tratamos o paciente, não a imagem. Há pessoas com alterações importantes nos exames e pouca dor e outras com sofrimento muito relevante sem uma alteração estrutural proporcional. O raciocínio clínico é que permite juntar essas peças e decidir qual caminho faz sentido para cada paciente — que pode incluir, quando indicado, recursos como a acupuntura dentro de um plano mais amplo"
Importância da abordagem interdisciplinar
Para quadros persistentes, o cuidado também pode exigir uma abordagem interdisciplinar,
"Dor crônica repercute no movimento, no sono, no condicionamento e em diferentes dimensões da vida. Por isso, em determinados pacientes, associar diferentes estratégias dentro de um plano estruturado — da reabilitação a técnicas complementares como a acupuntura — pode produzir resultados que uma intervenção isolada dificilmente alcançaria" Alberto Soares Barbosa, médico anestesiologista e acupunturista
Assim, compreender o mecanismo da dor, integrar diferentes recursos terapêuticos e olhar para o impacto no dia a dia são passos centrais para recuperar função, autonomia e qualidade de vida.
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