Aposta em satélites, GPS e irrigação inteligente em produção de soja no ES
Fazendas do Norte do Espírito Santo usam satélites, GPS e irrigação inteligente para elevar a produtividade e diversificar a produção de grãos.
Muito além de tratores e colheitadeiras, a soja produzida no Norte do Espírito Santo já conta com monitoramento por satélite, irrigação inteligente e agricultura de precisão.
A Fazenda Paraíso, que pertence ao grupo Fazendas AAC, por exemplo, aposta na tecnologia para elevar a produtividade e consolidar uma cultura que ainda ocupa uma pequena área no ES, mas já apresenta resultados expressivos.
O primeiro plantio de soja ocorreu em 2011. A partir de 2023, a cultura passou a ser intensificada e hoje é a principal lavoura da safra de verão. Segundo o engenheiro agrônomo e sócio-proprietário das Fazendas AAC, Henrique Coutinho, a decisão surgiu da necessidade de rotacionar as culturas.
Antes, a agricultura era voltada quase exclusivamente ao milho, utilizado na alimentação do confinamento bovino do grupo.
“A soja trouxe ganhos para o solo, reduziu a incidência de pragas e doenças e ampliou a sustentabilidade econômica da atividade”, salienta Henrique.
Atualmente, são 520 hectares totalmente irrigados por pivôs centrais, em uma área de aproximadamente mil hectares. Nos últimos dois anos, a fazenda alcançou produtividade média de 80 sacas por hectare, resultado atribuído aos investimentos em irrigação, agricultura de precisão e manejo técnico.
“Todas as operações agrícolas são acompanhadas em tempo real por plataformas digitais. A irrigação é controlada remotamente com base em dados de uma estação meteorológica, enquanto o solo é analisado por amostragem georreferenciada, permitindo aplicações localizadas de insumos. As máquinas utilizam GPS de alta precisão e monitoramento digital, garantindo margem de erro de cerca de 2,5 centímetros”, detalha Henrique.
Inovação
A inovação também está presente na sustentabilidade. Os dejetos do confinamento bovino são transformados em composto orgânico utilizado nas lavouras, reduzindo a necessidade de fertilizantes químicos. Fungos e bactérias benéficos também são empregados no controle biológico de pragas.
Hoje, toda a produção é comercializada com tradings exportadoras, que destinam grande parte da soja ao mercado internacional, principalmente à China.
Milho também ganha protagonismo no campo
Nas propriedades rurais, a soja não é a única protagonista. O milho também ocupa papel estratégico no sistema produtivo e integra um modelo baseado na diversificação das culturas.
Em muitas fazendas, soja e milho se alternam no campo e convivem com lavouras de café, mamão, pimenta-do-reino e feijão, reduzindo riscos, preservando a fertilidade do solo e aumentando a eficiência da produção.
A integração entre as culturas gera ganhos agronômicos: o milho contribui para o melhor desempenho da soja, enquanto a soja favorece a produtividade do milho.
Mais do que isso, esse sistema fortalece uma cadeia produtiva sustentável, em que os grãos deixam de ser apenas commodities para se transformar em insumos que impulsionam outras atividades no campo, geram valor agregado, movimentam a economia e produzem alimentos que chegam à mesa dos consumidores.
Na Fazenda Paraíso, em Mucurici, do grupo Fazendas AAC, a produção de milho abastece o confinamento de bovinos da propriedade.
O engenheiro agrônomo e sócio-proprietário das Fazendas AAC, Henrique Coutinho, explica que, como a região está distante dos grandes polos produtores de grãos, produzir o cereal na própria fazenda reduz custos logísticos, garante maior segurança no abastecimento e fortalece a sustentabilidade econômica da atividade.
Segundo ele, cada animal em confinamento consome por dia de sete a dez quilos de milho, o que torna a cultura essencial para viabilizar o sistema produtivo.
Na Fazenda AgroSanders, em Pinheiros, a estratégia busca ainda agregar valor à produção na própria propriedade.
O empresário Arthur Orletti Sanders destaca que após investir no processamento da soja para a fabricação de farelo e óleo vegetal, o próximo objetivo é ampliar a cadeia produtiva com a produção de proteína animal, como peixes, suínos, bovinos de corte ou de leite.
Análise
“Motor direto de qualidade de vida nos centros urbanos”
“Vejo que a visão de agronegócio sustentável impacta não somente os processos no campo, mas é motor direto de qualidade de vida nos centros urbanos.
A adoção de práticas e tecnologias sustentáveis — como a utilização de sementes de alta qualidade, a fixação biológica de nitrogênio e a coinoculação, a agricultura digital e de precisão, sistemas como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), ferramentas de inteligência como o ZARC, além da biotecnologia e edição gênica, do plantio direto, e do manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas e o manejo integrado de pragas de sementes e de grãos armazenados — garante a produtividade com a mitigação das emissões de gases de efeito estufa e a preservação dos recursos naturais.
Assim, o campo assegura a produção de alimentos seguros e de qualidade, estabilidade financeira e geração de renda que impulsionam diretamente a economia, o desenvolvimento e a sustentabilidade das cidades.”
Saiba Mais
Origens e expansão da soja
Há cinco mil anos, a soja era uma planta selvagem, que crescia nas terras baixas e úmidas da China Central. Nesse período, a leguminosa foi domesticada pelos chineses, o que a torna uma das culturas agrícolas mais antigas do mundo. A produção do grão, em larga escala, iniciou-se na década de 1920, nos Estados Unidos, com o desenvolvimento das primeiras cultivares comerciais.
A soja chegou ao Brasil pela Bahia, em 1882. Os primeiros testes com cultivares não teve sucesso.
O primeiro estado a cultivar soja, em escala comercial, foi o Rio Grande do Sul, a partir de 1914. O cultivo foi bem-sucedido, principalmente devido à adaptação das tecnologias norte-americanas à região, particularmente as cultivares.
Até o início dos anos 70, a produção concentrava-se nos estados do Sul do Brasil, como opção para ocupar, no verão, as terras cultivadas com trigo no inverno. Nesse período, a produção de soja era de cerca de 10 milhões de toneladas.
A partir de 1970, o governo brasileiro estimulou a expansão por meio de incentivos fiscais e à pesquisa.
Liderança
No mundo
Na safra 2024/25, o Brasil produziu aproximadamente 169 milhões de toneladas de soja, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o que mantém o País na liderança mundial da produção, seguida de Estados Unidos e Argentina.
No Brasil
Com volumes que ultrapassam 50 milhões de toneladas por safra, o Mato Grosso se consolida como o maior produtor de soja do Brasil e ganha destaque internacional.
No Espírito Santo
A produção de soja no Estado ainda é pequena, mas apresentou expansão nos últimos anos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), a área colhida passou de 80 hectares, em 2022, para 1.000 hectares em 2023, quando a produção saltou de 200 para 3.780 toneladas.
Em 2024, a área cultivada foi de 504 hectares, com produção de 1.509 toneladas e rendimento médio de 2.994 quilos por hectare. Os números se repetem em 2025.
Pinheiros concentra quase toda a produção estadual, respondendo por 1.500 toneladas, em 2024, o equivalente a 99,4% do total, enquanto Iúna produziu nove toneladas (0,6%).
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