O lado invisível da maternidade: quando o “cansaço” materno vira doença
Especialistas explicam os problemas psicológicos que podem atingir as mulheres após o nascimento do bebê. Entrevistadas contam suas experiências
Durante séculos, choro incontrolável, exaustão e pensamentos fora de controle no pós-parto tiveram explicações que nada tinham de médicas: bruxaria, na Inquisição; loucura, nos manicômios dos séculos 19 e 20; frescura ou cansaço, ainda hoje, em rodas de conversa e consultórios.
Antes da medicina nomear e tratar as questões mentais da maternidade, mulheres em desespero após o nascimento de um filho eram condenadas pela sociedade. Hoje sabemos que pode ser doença e tem tratamento.
Foi também sob o rótulo de “cansaço” que uma esteticista, de 37 anos – que preferiu não se identificar –, enfrentou, meses a fio, uma depressão pós-parto depois do nascimento da filha.
Ela relata que tudo começou em seu trabalho de parto, ainda na maternidade, quando, por causa da pandemia, foi informada que só poderia ter um acompanhante. Em seguida, ainda teve de lidar com as dificuldades da amamentação.
Segundo ela, passou boa parte desse período parecendo uma “extensão da poltrona de amamentação” – só se levantava para ir ao banheiro, às vezes nem isso, e dormia ali mesmo, com a filha no colo, enquanto a menina, que não conseguia sugar direito o leite, a levava a idas e voltas ao banco de leite.
“Eu não conseguia traduzir em palavras como me sentia, apenas chorava copiosamente”.
Exaustão
Num dia em que o marido trabalhava e o choro da filha parecia não ter fim, exausta e sem rede de apoio, ela se aproximou da janela do apartamento. Foi como ouvir uma voz: “Se ela cair, o cansaço acaba”.
“Fiquei tão apavorada com aquela visão mental dela caindo que corri para o fundo do apartamento, o cômodo mais distante da janela, onde eu permaneci até que meu marido chegasse. Esse foi o dia mais marcante entre muitas lembranças tristes”, relembra.
“Tive de lidar com um sentimento de repulsa pela minha filha junto ao sentimento de aprender a amá-la”, revelou.
Segundo o doutor em Psiquiatria Joel Rennó Jr., diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto & Departamento de Psiquiatria da USP e coordenador da Comissão de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a OMS estima que mais de 10% das mulheres grávidas ou que acabaram de dar à luz apresentam depressão pós-parto (DPP).
“Em países em desenvolvimento, a OMS estima que 19,8% das mulheres têm DPP”, destaca o também professor do departamento de Psiquiatria da FMUSP.
“Achava depressão uma frescura”
Uma gravidez tranquila, um casamento feliz e a chegada de um filho. Para uma servidora pública de 37 anos, nada indicava que o pós-parto seria tão difícil.
Aos poucos, porém, o cansaço, as mudanças no corpo e a falta de sono vieram acompanhados de uma sensação de solidão e de uma cobrança para que ela seguisse a rotina, além de ter de lidar com seus próprios preconceitos.
“Eu era uma pessoa muito preconceituosa, achava que depressão era 'frescura'. Quando procurei ajuda, minha filha já estava com dois anos. Vi que havia alguns danos em meu casamento”.
A servidora conta ainda que sentiu falta de acolhimento e ajuda. “A falta de empatia também vem de mulheres que já tiveram filhos, como mãe e sogra, que esquecem que já passaram por isso ou acham que também temos de passar por esses momentos difíceis”.
“Hoje, eu sigo na terapia, além de investir na atividade física, porque sei que a depressão é um quadro que pode voltar. Como quero ter outro filho, assim que engravidar quero ter um psicólogo me acompanhando”, afirma.
A ideia de que tornar-se mãe é uma experiência que vem acompanhada apenas de emoções agradáveis, como alegria e satisfação, ainda é muito presente, analisa a psicóloga perinatal e parental Nayara Teixeira.
“No entanto, cuidar de um filho envolve também muitas renúncias e frustrações do que se idealizou durante a gestação. Sentir-se triste ou irritada é o avesso do que se espera da mãe, então é difícil para ela admitir suas dores, para si mesma e para os outros”.
A especialista destaca que há o medo do julgamento e das críticas, que podem feri-la ainda mais em um momento que já é sensível, devido a todas as transformações relacionadas ao puerpério.
“Existe a culpa por achar que esses sentimentos a tornam uma mãe ruim ou colocam em dúvida o amor pelo filho. Com isso, muitas mulheres se calam diante de seus desconfortos e acabam sofrendo sozinhas, sem buscar os apoios que fariam tanta diferença nesta fase”.
Nayara chama atenção ainda para o fato de que a romantização da maternidade pode aumentar o sentimento de culpa, uma vez que a mulher se vê incapaz de vivenciar essa experiência como ela esperava e as outras pessoas também.
Saiba Mais
O que pode afetar a mãe no puerpério
Baby blues
- É uma reação transitória às oscilações hormonais e aspectos psicossociais dos primeiros dias após o parto. Ocorre aproximadamente entre 50% a 80% das puérperas. Costuma surgir nos primeiros dias e melhora espontaneamente em até duas semanas. Pode haver sintomas como choro fácil, mudança rápida, intensa e repentina do humor; irritabilidade e ansiedade. A mulher geralmente mantém um contato adequado com o bebê e capacidade global de funcionamento.
Depressão pós-parto
- Quando os sintomas persistem além de 2 semanas, aumentam progressivamente, provocam perda significativa de funcionamento ou comprometem o cuidado da própria mulher ou do bebê, com sintomas como desesperança intensa, ansiedade incapacitante, agitação, perda de prazer importante, alteração importante do sono, pensamentos negativos ou até perda do juízo da realidade.
- Atinge mais de 10% das mulheres no mundo, segundo a OMS – e 19,8% em países em desenvolvimento. Exige acompanhamento psiquiátrico e/ou psicológico.
TOC perinatal
- Pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos e indesejados, geralmente ligados à segurança do bebê. A mulher reconhece que o pensamento é irreal, mas ele é perturbador, fenômeno chamado de egodistonia.
Psicose puerperal
- Rara (1 a 2 casos a cada mil partos), mas é emergência médica. Inclui confusão mental, alucinações e pensamentos delirantes sobre o bebê, exigindo internação imediata.
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