“Não existe liberdade se temos de esconder quem somos”, diz Armando Babaioff
Em entrevista ao AT2, Armando Babaioff conta como Tom na Fazenda transformou sua trajetória e fala sobre identidade, medo e preconceito.
É impossível viver plenamente quando se oculta parte da própria identidade, assim como um dos personagens centrais de “Tom na Fazenda”, espetáculo que Armando Babaioff protagoniza há quase uma década.
Para ele, a experiência no palco aponta para uma ferida social que continua aberta e atravessa famílias, relações e gerações inteiras acostumadas a transformar silêncio em mecanismo de sobrevivência.
“A peça reforçou uma convicção que eu já tinha: a de que não existe liberdade quando precisamos esconder quem somos. Talvez por isso o texto de Michel Marc Bouchard seja tão poderoso. Muitas pessoas aprendem primeiro a se proteger, a disfarçar, a mentir para sobreviver, e só muito depois conseguem descobrir quem realmente são”, lamenta Babaioff ao AT2.
Gay assumido na vida real, o ator pernambucano traduziu a obra do canadense para o português e é também o intérprete de Tom, que, após a morte de seu companheiro, descobre que a sua então sogra nunca havia ouvido falar sobre sua existência e nem da homossexualidade do filho.
Entre os dias 21 e 23 deste mês, essa história que segue provocando debates e já foi vista por 200 mil pessoas, inclusive em outros países, e recebeu mais de 30 prêmios, faz sua estreia em Vitória.
“É uma alegria muito grande finalmente chegar ao Espírito Santo. A equipe de 'Tom na Fazenda' tem base no Rio. Somos estados vizinhos, separados por um voo de poucos minutos, mas, na prática, circular pelo Brasil é muito caro”.
“Eu enxergo uma mentira de longe”
AT2 — Quase dez anos após a estreia, “Tom na Fazenda” chega aos palcos capixabas. Por que a demora?
Armando Babaioff — Empreender fazendo cultura ainda é um desafio. E isso é uma pena, porque, quando um espetáculo viaja, ele não leva só os artistas. É uma cadeia inteira que se movimenta. Além disso, sabemos que existe público. Vitória é uma das cidades mais pedidas nas nossas redes sociais.
Nossa chegada ao Espírito Santo faz parte de uma circulação nacional que só está sendo possível graças ao patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Rouanet e do Ministério da Cultura.
É a primeira peça que traz para o Espírito Santo?
É a segunda vez que volto ao Estado com um projeto meu. A primeira foi em 2010, com “Na Solidão dos Campos de Algodão”, minha estreia como produtor teatral. Eu ainda estava começando essa caminhada como produtor e também estava em cena como ator. Foi uma alegria enorme e um incentivo para seguir acreditando que era possível produzir meus próprios projetos.
Quando estreou “Tom na Fazenda”, em 2017, imaginou o alcance que esse espetáculo teria?
Nunca imaginei. Quando estreamos, era um espetáculo para uma sala de 63 lugares. Meu desejo era simplesmente fazer uma boa peça. A ideia nunca foi construir uma carreira internacional ou imaginar que, quase dez anos depois, ainda estaríamos em cartaz. Acho que fui entendendo a dimensão do espetáculo aos poucos.
O sucesso de “Tom na Fazenda” está na combinação de alguns fatores. Existe um texto extraordinário, uma encenação muito potente do Rodrigo Portella e um elenco que sobe ao palco com a mesma entrega do primeiro dia.
Mas existe também uma questão triste: a peça continua atual. Ela fala de preconceito, de masculinidade, de violência, de medo de ser quem se é. Infelizmente, esses temas continuam atravessando a vida de muita gente.
Qual a importância dessa peça na sua trajetória artística?
Mudou a forma como passei a olhar para o teatro, me mostrou que uma produção independente pode sonhar grande.
As artes cênicas foram um espaço de fuga e afirmação da sua verdadeira identidade?
Muita gente pensa no teatro como uma forma de fuga. Para mim, é exatamente o contrário. Eu comecei a fazer teatro aos 11 anos. Para um menino de escola pública, sonhar em viver de teatro parecia algo muito distante. Mas, curiosamente, eu nunca tive dúvida de que era isso que queria fazer.
O teatro me deu um sentimento de pertencimento muito cedo e, desde então, nunca consegui me imaginar fazendo outra coisa. Foi no teatro que, pela primeira vez, senti que podia existir por inteiro, sem precisar me encaixar em expectativas ou esconder partes de mim. Até hoje é assim.
Ao falar de temas muitas vezes tão íntimos, recebe do público depoimentos confessionais?
Recebo muitos. O que me emociona é perceber que, quase todas as noites, alguém encontra na peça as palavras para iniciar uma conversa que talvez estivesse sendo adiada há anos. Acho que esse é um dos papéis mais bonitos que o teatro pode desempenhar. Ele não muda o mundo sozinho, mas pode mudar uma pessoa. E, às vezes, isso já muda uma família inteira.
Toda a trama da peça é construída a partir de uma mentira. Quão nociva uma mentira pode ser?
Apesar de ter nascido no dia 1º de abril, eu não sei mentir. Mas enxergo uma mentira de longe. Quão nociva uma mentira pode ser? Aí só assistindo à “Tom na Fazenda”.
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