Biomédica explica o que é “poupança biológica” e promessa de cura
Congelamento de células-tronco do cordão umbilical após o parto permite armazenar material genético para tratar doenças no futuro
Quem não gostaria de, em um futuro, ao se deparar com uma possível doença, como leucemia ou anemia, ter uma “poupança biológica” capaz de curá-la? É dessa forma que famílias enxergam a possibilidade de guardar as células-tronco do sangue do cordão umbilical do bebê logo após o nascimento.
O procedimento ocorre após o parto, quando o cordão umbilical é cortado e o sangue que fica na placenta é retirado por punção e depois armazenado.
O assunto ganhou destaque nos últimos dias após a atriz Camila Queiroz, de 33 anos, revelar que decidiu armazenar as células-tronco da filha, Clara, que nasceu em dezembro do ano passado. O motivo, segundo a atriz, foi “pensando principalmente no futuro da Clara”.
Mas como é feito o armazenamento do material? A biomédica Lauziene Soares, especialista em Biologia Molecular e Genética Laboratorial e doutoranda em Biotecnologia pela Ufes, explica que após o sangue do cordão e da placenta ser retirado, ele é armazenado em uma bolsa estéril com anticoagulante, seguindo para um laboratório especializado, onde passa por testes, além de exames para descartar doenças infecciosas.
“Em seguida, recebe uma substância chamada crioprotetor, que protege as células durante o congelamento. As amostras são armazenadas em tanques de nitrogênio líquido a cerca de -196°C, temperatura que preserva as células por décadas”.
O custo do procedimento varia de sete a 10 salários mínimos, além de uma taxa de manutenção anual que gira entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, segundo Lauziene.
Segundo o hematologista Douglas Stocco, o estudo mais recente mostrou que essas células permanecem conservadas por, pelo menos, 27 anos, mantendo 100% da viabilidade.
Como o volume coletado é muito pequeno, quando há necessidade de uso normalmente utiliza-se toda a bolsa, de acordo com o hematologista Rafael Rocha de Lima, do Grupo Pulsa Espírito Santo, serviço localizado no Hospital Santa Rita.
“A legislação exige que tenha uma quantidade mínima de células e um volume mínimo. Se não tiver uma quantidade de células, não tem como guardar”.
Coleta não é garantia de cura
Apesar do crescimento do interesse por armazenar células-tronco do cordão umbilical, o uso desse material para transplantes de medula óssea vem caindo nos últimos anos, apontam especialistas.
De acordo com o hematologista Rafael Rocha de Lima, com o avanço das tecnologias e das terapias de imunossupressão, começou-se a fazer o transplante haploidêntico – realizado com metade da compatibilidade genética –, que permite usar pai, mãe ou irmãos como doadores com mais facilidade.
“Isso acabou diminuindo ainda mais a necessidade de utilização do sangue de cordão umbilical”.
O próprio Criobanco, no Espírito Santo, encerrou novas coletas há cerca de dois anos. “Desde 2008, houve apenas duas utilizações dos cordões armazenados”, revela Rafael. Hoje, quem deseja realizar a coleta precisa procurar clínicas fora do Estado.
A biomédica Lauziene Soares destaca ainda que o armazenamento das células não é garantia de que será possível tratar uma doença lá na frente.
Para o hematologista Douglas Stocco, quem decide armazenar o cordão hoje faz isso pensando em possíveis tratamentos inovadores.
“O cordão é rico em células capazes de regenerar alguns tecidos. Isso tem sido usado em estudos para regenerar tecidos afetados por males degenerativos, como esclerose múltipla, além de quadros reumatológicos e autoimunes. Esse uso ainda não é uma realidade hoje”.
Foi com essa esperança que a policial Andressa Lauria, de 40 anos, e o marido, o policial penal Carlos Eduardo Lauria Júnior, de 44 anos, decidiram colher células-tronco do sangue do cordão umbilical do caçula, Anthony, que hoje tem 8 anos.
Eles viram na segunda gravidez a chance de, mais adiante, auxiliar no tratamento do diabetes tipo 1 da primeira filha, Nicole, de 17 anos.
“O material fica armazenado em um laboratório do Rio de Janeiro. Fizemos isso visando os próximos anos, caso haja possibilidade de trazer a cura para ela”, conta Andressa.
Saiba mais
Guarda de células-tronco do cordão umbilical
É um procedimento realizado logo após o nascimento do bebê para coletar e armazenar as células-tronco presentes no sangue do cordão umbilical e da placenta. O objetivo é preservar esse material para um possível uso terapêutico no futuro.
Como é feita a coleta?
Após o parto e o clampeamento do cordão umbilical, o sangue remanescente no cordão e na placenta é coletado por punção em uma bolsa estéril com anticoagulante. Em alguns casos, também é coletado um fragmento do tecido do cordão.
O que acontece depois?
O material é enviado a um laboratório especializado, onde passa por testes para verificar qualidade e quantidade de células, viabilidade celular e presença de doenças infecciosas. Depois disso, recebe uma substância crioprotetora e é congelado de forma controlada.
Como é armazenado?
As células ficam em tanques de nitrogênio líquido a cerca de -196°C (alguns centros utilizam aproximadamente -180°C), em um processo chamado criopreservação.
Existe prazo de validade?
Ainda não. Estudos já demonstraram que as células permanecem viáveis por pelo menos 27 anos, e pesquisadores acreditam que esse período pode ser ainda maior.
Quanto custa?
O armazenamento em bancos privados envolve o pagamento da coleta, que pode variar entre sete e dez salários mínimos (de R$ 11.347 a R$ 16.210), dependendo do serviço e da logística, além de uma taxa anual de manutenção para manter o material congelado.
Pode ser usado para tratar quais doenças?
As indicações são principalmente para algumas doenças hematológicas, como leucemias, alguns linfomas, mieloma múltiplo e anemia aplástica.
Vale a pena guardar?
Especialistas afirmam que a decisão deve ser individualizada. Com o avanço de outras terapias e do transplante de medula óssea, a utilização do sangue de cordão para transplantes diminuiu nos últimos anos.
A grande maioria dos transplantes que utilizam as células-tronco do sangue de cordão umbilical e placentário é realizada com células armazenadas em bancos públicos.
Mais de 32 mil pacientes no mundo todo foram transplantados com células doadas por doadores não aparentados.
No Brasil, entre 2003 e 2018, mais de 140 mil unidades de sangue de cordão umbilical e placentário foram armazenadas em bancos privados, e apenas seis foram utilizadas em transplante autólogo (quando as células provêm do próprio paciente), enquanto dez unidades foram empregadas em transplante aparentado.
Um dos motivos para a pouca utilização autóloga do sangue de cordão é que as células podem carregar o mesmo material genético e os mesmos defeitos responsáveis por uma doença que venha a aparecer nos primeiros anos de vida da criança.
Fonte: Especialistas consultados e Ministério da Saúde.
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