Brasil: o país que formava craques agora prioriza as cifras
Eliminação do Brasil na Copa reacende discussão sobre mercado, metodologia e a formação dos novos talentos brasileiros
Durante décadas, o Brasil foi reconhecido como a maior escola de talentos do futebol mundial. Peladas de rua, campos de várzea, criatividade e improviso formavam gerações de jogadores que encantavam o planeta e ajudavam a construir a identidade do pentacampeão mundial.
Hoje, porém, o cenário é diferente. A eliminação precoce da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026 reacendeu um debate que vai além dos resultados: o País ainda consegue formar jogadores completos? A resposta passa pelas categorias de base.
Nas últimas décadas, o modelo brasileiro mudou para atender às exigências do mercado internacional. Se antes a prioridade era preparar atletas para o time profissional, hoje muitos clubes buscam formar jogadores com potencial de venda.
Para Rafael Soriano, técnico do Vitória, essa mudança acelerou etapas importantes do desenvolvimento. “A formação está um tanto quanto precoce, com jogadores saindo cada dia mais jovens e tendo que acelerar muitos processos. Outro ponto é a questão econômica, que fez o olhar voltar muito mais ao mercado do que para a própria formação e evolução técnica”, afirmou.
O treinador também avalia que a identidade do futebol brasileiro foi afetada. “Mudou bastante o olhar para a base e, com isso, perdemos a essência. A própria forma de jogar futebol ficou mais voltada para o olhar europeu”.
Matheus Luchi, treinador do Sub-20 do Alvianil, destaca que a busca por resultados imediatos também prejudica a formação. “A ênfase na maioria dos clubes está no resultado e não numa formação de qualidade. A consequência é que a formação dos atletas é deixada de lado”, explicou.
Segundo ele, o mercado passou a influenciar diretamente as escolhas dos clubes. “Hoje, o que manda no futebol de base é a palavra ‘perfil’. Os clubes não procuram talento, procuram perfil. Isso afeta diretamente a nossa formação, pois o mercado sempre prevalece sobre o talento”.
Cleiton Marcelino acredita que a questão envolve uma transformação maior no futebol.
“O futebol mudou muito, o mercado também, e os clubes precisaram se adaptar. O problema é que, em muitos lugares, a preocupação passou a ser muito mais formar um atleta com valor de mercado do que um jogador completo. Alguns jovens chegam ao profissional muito fortes fisicamente e até bem organizados taticamente, mas com dificuldades para tomar decisões, interpretar o jogo e criar soluções”, enfatizou o técnico do Rio Branco de Venda Nova.
Quais as soluções?
Para os treinadores, a retomada do protagonismo brasileiro passa por mudanças na formação dos atletas. Rafael Soriano defende o resgate da essência do futebol de rua e do futsal, além de mais espaço para o desenvolvimento técnico e cognitivo dos jovens. Também cita a necessidade de melhorar a transição da base para o profissional.
Matheus Luchi acredita que a principal mudança precisa ser de mentalidade. E Cleiton Marcelino destaca a importância de priorizar o desenvolvimento do jogador, investir na capacitação dos treinadores e criar ambientes de treino que estimulem atletas a pensar e resolver problemas.
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