Influenciador engana ChatGPT com pegadinhas e viraliza nas redes
Matt Husk submete o robô a testes diários, expõe erros e impulsiona o debate sobre limites da inteligência artificial
Se parte do trabalho dos humoristas é rir da cara de figuras públicas, não é de surpreender que a vidraça da vez seja um personagem que passou a fazer parte da vida das pessoas nos últimos anos: o ChatGPT.
O modelo de linguagem da OpenAI é o alvo de um influenciador e humorista chamado Matt Husk (@husk.irl), que explodiu no último mês no TikTok e no Instagram. Todos os dias, Husk submete o serviço de voz do ChatGPT a testes simples -não só para mostrar como o robô erra, mas também como garante que está certo.
As situações são criativas. Em uma das que mais repercutiu, Husk pede ao robô que cronometre uma corrida sua. O influenciador não sai do lugar, dois segundos depois avisa que já voltou, e o chatbot crava: demorou 10 minutos e 12 segundos.
Em outra, Husk pede ao ChatGPT que faça um "beatbox" enquanto rima por cima da batida. O modelo de linguagem se embanana quando o influenciador começa a cantar, porque está programado para responder ao interlocutor.
É o absurdo das situações que faz o espectador rir. "Meu Deus, pisei em areia movediça!", diz o influenciador em um dos quadros. O robô responde com deboche: "Você está afundando em areia movediça imaginária!".
O ChatGPT está na maioria absoluta dos vídeos, mas vez ou outra surge algum outro modelo. No YouTube, ele chega a flertar com uma mulher virtual gerada por IA, fingindo que os dois estão em um restaurante -a vergonha alheia é de doer.
O que tem chamado atenção não é tanto o número de seguidores de Husk nas redes sociais (621 mil no TikTok e quase 900 mil no Instagram), mas o engajamento de seus vídeos. Segundo dados levantados pelo site Axios, a taxa de engajamento de perfis como o de Husk no Instagram costuma ser de menos de 1%. Os do humorista, contudo, com frequência ultrapassam os 10%. E alguns posts recentes ficaram na faixa de 35% a 55%.
Husk nasceu no Maine e vive em New Hampshire, nos Estados Unidos. Ao contrário de outros influenciadores, ele não fala muito da própria vida em seus conteúdos -mas contou algumas histórias em uma entrevista recente ao podcast Tom and D.
O influenciador já fazia perguntas e pedidos bizarros ao ChatGPT há muito tempo, mas em privado. Um dia, resolveu filmar como o robô reagiria a uma explosão nuclear e publicou o vídeo no TikTok; no dia seguinte, a postagem já tinha mais de 100 mil visualizações. Husk viu ali que tinha descoberto um novo formato de humor.
O tom quase inexpressivo do influenciador, em contraste com o estilo prestativo do robô, contribui para a graça dos vídeos. É como se Husk tivesse criado um personagem sob medida para irritar o ChatGPT, que, no entanto, nunca deixa seu ar cordial e próximo do servil.
O sucesso do vídeo da corrida gerou uma resposta até de Sam Altman, o CEO da OpenAI. Numa entrevista ao podcast Mostly Human, o executivo reagiu ao vídeo da falsa corrida de Husk, dizendo que esse é um problema conhecido e o modelo de voz ainda não tem a capacidade de cronometrar nada, mas que há planos de incluir essa habilidade no serviço em algum momento.
Críticos têm apontado como problema não o fato de o robô ser incapaz de cronometrar algo, mas mentir que é capaz de fazê-lo. E insistir no erro mesmo quando é questionado.
Num vídeo feito em sequência, Husk pergunta ao chatbot se ele consegue configurar um cronômetro e, diante da resposta positiva, resolve mostrar ao robô a entrevista de Altman dizendo o contrário -mesmo assim, o ChatGPT insiste que é sim capaz dessa habilidade, para então errar a contagem outra vez.
Husk ainda insiste na piada e fala que um dos dois está mentindo. O robô responde que só pode haver alguma confusão.
As piadas de Husk acabam revelando algo mais profundo, ao explicitar um dos principais paradoxos no desenvolvimento da inteligência artificial. O mundo nunca teve modelos tão avançados, que se saem tão bem nas principais métricas de avaliação; mas, ao mesmo tempo, podem ser incapazes de realizar tarefas simples, como ver as horas.
"Isso é inerente ao mecanismo de treinamento e funcionamento dos modelos, mas está melhorando rápido com os modelos de raciocínio", diz o professor da PUC-SP Diogo Cortiz, doutor em Tecnologias da Inteligência e Design Digital.
"Conforme as pessoas usam a IA, elas vão percebendo as limitações. Esse influenciador viraliza por conseguir encontrar falhas bem específicas. Esses deslizes podem nos ajudar a refletir e colocar o pé no freio, ver que essa tecnologia tem limitações."
Os pesquisadores de IA chegam a usar a expressão "jagged frontier" (fronteira irregular) para definir esse paradoxo. O termo, popularizado por pesquisadores da Universidade Harvard e do Boston Consulting Group no artigo "Navigating the Jagged Technological Frontier" (2023), serve para dizer que a fronteira da IA não avança de um jeito uniforme.
Alguns analistas chegam mesmo a dizer que vivemos não a era da AGI (artificial general intelligence), que seria superior à humana, mas da AJI (artificial jagged intelligence), ou inteligência irregular. Pode ser até uma pedra no discurso das empresas que prometem uma tecnologia que supere a humanidade --mas que é engraçado, isso é.
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