Médicos alertam: retatrutida vendida ilegalmente pode afetar fígado e rins
Sem aprovação regulatória, “supercaneta” é vendida ilegalmente e pode causar danos ao fígado, rins e coração, dizem especialistas
Ainda sem aprovação de qualquer agência reguladora no mundo, a retatrutida já é vendida ilegalmente no Brasil como promessa de emagrecimento acelerado. Médicos alertam que o uso da chamada “supercaneta” clandestina pode provocar danos ao fígado, rins e coração.
As canetas vendidas como “retatrutida” têm sido apreendidas de forma rotineira em operações da Receita Federal e polícias, principalmente trazidas do Paraguai.
A endocrinologista e diretora Científica da Sociedade Brasileira de Diabetes regional Espírito Santo (SBD - ES), Flávia Tessarolo, explicou que a retatrutida é uma medicação chamada agonista triplo, ou seja, atua nos receptores de três hormônios: GLP1, GIP e glucagon, promovendo saciedade e controle do apetite. “Os estudos mostram grande potência no tratamento da obesidade”.
Entre no nosso canal e receba notícias em seu WhatsApp.
Apesar dos resultados promissores, ela ressalta que a retatrutida ainda está em fase 3 de estudos clínicos. “Ela não foi aprovada pelas agências reguladoras em nenhum país do mundo. O uso de medicamentos que afirmam ser retatrutida é um risco para a saúde a curto, médio e longo prazo”.
Entre os riscos, ela cita a possibilidade de toxicidade em fígado, rins e coração, além do risco de infecção e desencadeamento de alergias e doenças autoimunes.
A diretora científica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Espírito Santo (SBEM -ES), Rita Cesquim, também frisou que a retatrutida é uma medicação “extremamente promissora” para o tratamento da obesidade.
“No entanto, não existe retatrutida aprovada disponível para compra. Isso torna extremamente preocupante a venda desses produtos. Como não há um medicamento aprovado, não há garantia de que o frasco contenha a substância, nem de sua concentração, qualidade ou esterilidade”.
Segundo ela, esses produtos podem conter outras substâncias, doses inadequadas ou contaminantes, aumentando o risco de efeitos adversos graves, como náuseas, vômitos, diarreia e desidratação, que podem evoluir para insuficiência renal aguda.
“Também há o risco de lesão hepática, incluindo hepatite medicamentosa, além da possibilidade de conter substâncias capazes de provocar complicações cardiovasculares”.
O que elas dizem
Sem controle
“Sem controle sanitário, o paciente que faz uso dessa medicação pode receber uma substância adulterada, contaminada ou com dose inadequada, potencialmente aumentando o risco de eventos cardiovasculares, além de retardar o tratamento correto da obesidade e de outros fatores de risco cardiovascular”.
Riscos
“Produtos fabricados sem controle de qualidade podem apresentar contaminação por bactérias, fungos ou endotoxinas, favorecendo infecções potencialmente graves. O maior risco é justamente a falta de controle sobre o que está sendo aplicado”.
Fase de estudos
“A retatrutida ainda está em estudos de fase 3 e não foi aprovada pela Anvisa nem por outras agências reguladoras para uso clínico. Quando uma pessoa compra um produto clandestino, ela não sabe sequer qual é a composição daquela substância. Não há garantia sobre concentração, impurezas ou contaminantes”.
Fique por dentro
Retatrutida
- É um medicamento experimental em fase avançada de testes clínicos (fase 3), desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly.
- Ainda não está no mercado em lugar nenhum do mundo.
- Ela é apontada como uma evolução das atuais canetas emagrecedoras (como o Ozempic e o Mounjaro).
- Diferente de outros medicamentos já no mercado, que atuam simulando um ou dois hormônios produzidos pelo organismo, a retatrutida age como um “agonista” triplo.
- Ou seja, ela simula a ação de três hormônios: GLP-1, GIP – já presentes nas outras canetas – além do Glucagon – que ajuda a aumentar o gasto energético e a queima de gordura .
- Alguns resultados já apresentados em estudos
Pesquisa
- Foi publicada na revista científica Lancet, no último mês, mostrando resultados do uso da retatrutida.
- Foram analisados no estudo 930 adultos com diabetes tipo 2,que receberam doses semanais do medicamento ou placebo por até 80 semanas.
- A pesquisa reforça dados que a farmacêutica Eli Lilly vinha divulgando.
Redução de peso
- Pacientes que tomaram a dose mais alta perderam, em média, 28,3% do peso —mais de quatro vezes o resultado do grupo placebo.
- Mais de 65% desses pacientes deixaram de se enquadrar nos critérios de obesidade pelo IMC.
- A queda no nível de açúcar no sangue também foi mais que o dobro da observada no grupo controle.
Outras doenças
- Em pacientes com obesidade, a retatrutida reduziu em 60,6% a gravidade da apneia do sono — distúrbio em que a respiração para e recomeça durante a noite.
- O medicamento também reduziu em até 73,1% a dor causada pela osteoartrite no joelho, doença que desgasta as articulações e afeta milhões de brasileiros.
Quando chega ao mercado?
- Ainda não há prazo. A divulgação do estudo consolida a fase 3 da pesquisa – última etapa de testes em larga escala antes de a medicação ser submetida à avaliação dos órgãos reguladores.
- Geralmente, a indústria farmacêutica organiza toda a documentação para dar entrada nos pedidos de aprovação regulatória. Agências como o FDA (americana) e a Anvisa (brasileira) devem levar algum tempo ainda para avaliar.
- Até lá, médicos recomendam uso para quem tem indicação das medicações já no mercado.
Mercado ilegal
- Mesmo sem ter sido submetida a agências reguladoras de nenhuma parte do mundo, e antes mesmo da conclusão dos estudos de fase 3, uma medicação já tem sido vendida como retatrutida.
- Elas são importadas, em sua maioria, do Paraguai.
- Segundo médicos, no entanto, há riscos de não se ter a certeza do que está sendo comercializado como retatrutida, assim como não há informação sobre o grau de pureza e possíveis contaminações.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários