Especialistas dizem que vício de idosos em redes sociais é silencioso
Redes sociais como TikTok e Instagram têm se tornado um refúgio, mas também podem abrir caminho para dependência
Em meio à solidão e ao isolamento social, redes como TikTok, Instagram e Facebook têm se tornado um refúgio, mas também podem abrir caminho para uma dependência silenciosa, alertam especialistas.
A médica psiquiatra com doutorado pela UVV Sarha Andrade afirmou que, no idoso, o uso problemático das redes sociais costuma ser mais silencioso, porque frequentemente se disfarça de hábito inofensivo, passatempo ou tentativa de manter algum vínculo com o mundo.
“Diferente da criança, que costuma ter o tempo de tela vigiado pelos pais, o idoso muitas vezes vive esse excesso de forma solitária, sem que a família perceba a intensidade ou o prejuízo envolvido”.
Ela ressaltou que, em muitos casos, a família só percebe tarde, quando já há isolamento, irritabilidade, ansiedade, insônia, abandono de atividades presenciais ou exposição intensa a conteúdos alarmistas, desinformação e golpes.
A psicóloga clínica Cristiane Rizzo frisou que o grande segredo da tecnologia na terceira idade está no equilíbrio e na intencionalidade.
“As redes sociais e as ferramentas digitais possuem um lado altamente positivo. Fazer uma chamada de vídeo para ver os netos, por exemplo, é uma forma poderosa de manter o vínculo afetivo vivo. Esse tipo de uso reduz a distância geográfica, promove a autonomia e combate o isolamento social, gerando acolhimento”.
Por outro lado, ela ressalta que o impacto negativo surge quando, por exemplo, rolar o feed de redes sociais de forma interminável expõe o idoso a notícias alarmantes ou a comparações com vidas aparentemente perfeitas.
A médica psiquiatra e do trabalho e vice-presidente da comissão de psiquiatria e trabalho da Associação Brasileira de Psiquiatria, Letícia Maria Akel Mameri Trés, aponta que a família deve observar mudanças de padrão no idoso.
“Não é só a quantidade de horas na internet que preocupa, mas o impacto que isso tem”.
Entre os sinais de alerta, ela aponta que está irritação, ansiedade ou agressividade quando alguém pede para parar, abandono de atividades que antes davam prazer e redução do contato presencial com familiares e amigos.
“Também pode ter piora do sono, uso do celular durante refeições e conversas, além da necessidade constante de checar mensagens. O ideal é que a família não aborde o tema com julgamento ou punição. O melhor caminho é conversar e entender o que aquela rede está preenchendo — solidão, tédio, ansiedade, luto, entre outros”.
Mudança na rotina
“Uso exagerado me deixava ansiosa”
A aposentada Maria Rosa Rodrigues, 67, revelou que já passou muito tempo no celular, jogando e acessando as contas nas redes sociais TikTok, Instagram e Facebook.
Ela mora com seu marido e sua filha, que trabalham o dia todo. “Eu ficava muito tempo sozinha, então buscava o celular para me ocupar. Chegou uma hora que percebi que o uso exagerado me deixava ansiosa, por isso busquei alternativas”.
A aposentada começou a frequentar o Centro de Convivência para Pessoa Idosa de seu bairro, onde conheceu novas pessoas e passou a fazer diversas atividades.
Além disso, ela começou a fazer artesanatos e vai à casa das amigas para fazer as unhas e bater um papo. “Nos fins de semana, também vou passear no sítio da minha fisioterapeuta. O contato com pessoas mais jovens ajuda muito os idosos”.
O que eles dizem
Dependência
“No idoso, o uso problemático das redes sociais pode ser mais silencioso do que em crianças e adolescentes. Quando falamos de crianças, geralmente há responsáveis acompanhando tempo de tela, rendimento escolar, sono e comportamento. Já no caso dos idosos, muitas vezes a família interpreta o uso excessivo como algo inofensivo. O problema é que, em alguns casos, esse uso funciona como uma dependência comportamental”.
Mudanças
“A família deve ficar atenta às mudanças de comportamento. O principal sinal de alerta é quando o idoso começa a trocar a convivência real pelo isolamento na tela. Isso se torna evidente quando ele passa a abandonar hobbies antigos, como o cuidado com as plantas ou o artesanato, para priorizar o celular.
A orientação para a terceira idade não é se isolar do mundo digital, mas fazer um uso consciente dele. A recomendação é direcionar a tecnologia para conectar-se com pessoas reais e fortalecer afetos, deixando de lado os conteúdos que trazem angústia ou solidão”.
Silencioso
“O vício em telas, na pessoa idosa, muitas vezes tem a mesma função que tem para algumas crianças, no sentido de deixá-los ocupados com alguma coisa.
Enquanto nas crianças esse vício é menos silencioso – já que muito se fala sobre o tema e sobre a importância de brincar – nos idosos acaba tendo uma invisibilidade na sociedade.
A família pode perceber sinais de uma dependência e avaliar seu papel nesse contexto”.
Fragilidades
“Para muitos idosos, as redes sociais funcionam como uma espécie de companhia disponível, especialmente em contextos de viuvez, aposentadoria, afastamento dos filhos, redução da mobilidade ou redução da vida social. O problema surge quando essa companhia digital substitui a presença real, a conversa e a rotina fora da tela.
O algoritmo tende a capturar fragilidades humanas profundas – como solidão, medo, luto, necessidade de pertencimento – e pode ampliar ansiedade, comparação, dependência emocional, exposição a fake news e vulnerabilidade financeira”.
Sinais de vício em idoso
- Passar muito tempo no celular, sem conseguir reduzir o uso.
- Checar o aparelho de forma compulsiva, procurando mensagens, vídeos e notícias a todo momento.
- Ficar irritado, ansioso ou até agressivo quando alguém sugere diminuir o tempo de tela.
- Trocar atividades presenciais pelas redes sociais, deixando de encontrar familiares e amigos.
- Abandonar atividades que antes davam prazer, como passeios, exercícios físicos ou artesanato.
- piora no sono, principalmente por usar o celular até tarde.
- Usar o celular em momentos inadequados, como durante refeições, consultas e conversas.
- Descuidar da própria rotina, deixando de lado alimentação, higiene, medicações ou compromissos.
- Acreditar em notícias falsas e alarmistas, passando a demonstrar desconfiança excessiva.
- Envolver-se em golpes, compras impulsivas ou contatos suspeitos, tornando-se mais vulnerável a fraudes e manipulações.
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