Márcio Félix: projeto de microrrefinaria no Norte do ES continua vivo
Márcio Félix diz que iniciativa continua em desenvolvimento e que trabalha no avanço da exploração de sal-gema em Conceição da Barra
Referência quando o assunto é petróleo e gás, Márcio Félix Bezerra, CEO da EnP Energy Platform, garantiu que o projeto para implantação de uma microrrefinaria no Norte do Espírito Santo continua vivo.
Em entrevista ao podcast Histórias Empresariais, ele classificou a iniciativa como um “sonho concreto” e explicou que a proposta vem sendo estruturada dentro de um modelo modular, com foco na produção de combustível marítimo, asfalto e lubrificantes.
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Márcio Félix também destacou o potencial da jazida de sal-gema de Conceição da Barra para impulsionar novas atividades industriais ligadas ao gás natural e à indústria química no Norte capixaba. Segundo ele, o avanço do projeto da EnP depende da aprovação do relatório de pesquisa pela Agência Nacional de Mineração (ANM).
A Tribuna — A microrrefinaria segue nos planos da EnP?
Márcio Félix — Ainda é um sonho que a gente trabalha. Eu não posso adiantar muitas coisas agora, mas é um sonho concreto. É um sonho que tem possibilidade de se tornar realidade. Nós estamos trabalhando para viabilizar algo aqui no Norte do Espírito Santo.
Por que o Brasil não tem mais refinarias, na sua visão?
O mercado mudou com a entrada de mais biocombustíveis, como etanol, biodiesel e biometano. Isso fez o Brasil buscar um novo ponto de equilíbrio. Talvez depender de 30% de diesel importado seja muito. Diesel e GLP (Gás Liquefeito de Petróleo) são itens em que ainda precisamos encontrar esse equilíbrio.
Nossa ideia não é produzir derivados tradicionais, mas combustível marítimo, lubrificantes e asfalto. A chegada dos carros elétricos, o avanço do gás natural, do biometano, do etanol e dos veículos híbridos mostram que há um processo de transformação. Por isso, vemos uma oportunidade de fazer uma refinaria com outro conceito.
A microrrefinaria é planejada para qual município?
É na região Norte, nos municípios produtores. Mais próximo da BR-101. Linhares, Jaguaré, São Mateus...
Quais são os ativos da EnP?
Nós temos negócios no Espírito Santo e na Bahia. Temos ativos exploratórios, áreas que estão sendo estudadas visando uma descoberta, tanto aqui no Espírito Santo como na Bahia.
Tínhamos uma empresa, a Capixaba Energia, que produzia petróleo no Polo Lagoa Parda, e vendemos essa empresa no ano passado. Ela continua produzindo em terra, em Linhares. A Capixaba Energia é um dos produtores do Estado.
E a gente também tem um direito minerário para sal-gema em Conceição da Barra.
O que falta para fazer a exploração em Conceição da Barra?
O processo é longo. Na mineração, existe uma fase de pesquisa, equivalente à exploração no petróleo, e nós já concluímos essa etapa. Há muita informação disponível, com mais de 40 poços perfurados na região, vários deles atravessando o sal.
Protocolamos o relatório de pesquisa na Agência Nacional de Mineração (ANM) há mais de 2 anos e meio. Tivemos alguns comentários, respondemos e aguardamos a aprovação. Depois, passaremos para a fase de lavra, com um projeto para produzir e beneficiar o sal.
Teria uma espécie de polo sal-químico ali na região?
Esses nomes estão vivos, mas a gente precisa fazê-los acontecer agora. É um ativo importante.
É a maior jazida de sal-gema do País?
Sim, a maior do Brasil em conjunto. Eram 11 áreas que a Petrobras detinha. A gente tem acesso a duas. Participamos do leilão da ANM e optamos pelas áreas que consideramos ter a melhor combinação entre volume de sal e licenciabilidade ambiental.
O sal-gema não é o sal usado para cozinhar. Qual é a aplicação exatamente?
Quimicamente, ele é igual ao sal comum: NaCl. A diferença é que vem com impurezas e, para uso humano, exigiria um refino que o tornaria pouco competitivo.
Já para uso animal e industrial, há aplicações em setores como a indústria cloro-soda, saneamento e tratamento de água
Há possibilidade de transformar isso em produtos mais acabados?
Sim, exatamente. Você vai adensando a cadeia produtiva e criando novas indústrias. A minha visão não é ter um grande polo concentrado, mas vários subpolos capazes de utilizar esses produtos.
A ideia é juntar o gás com o sal e desenvolver produtos a partir das matérias-primas disponíveis e das demandas da indústria instalada. É um jogo estratégico de integração.
No Estado, não há o risco que houve em Maceió (onde bairros sobre as jazidas afundaram)...
Além de não ter esse risco por ser uma área livre, existe um aprendizado e cuidados que têm que ser tomados. Você vai produzindo o sal, injeta água quente, ele vai derretendo e formando uma caverna. Então você tem de preencher essa caverna à medida que ela se forma.
Existem locais onde essas cavernas são usadas para estocar gás natural. A Holanda explora sal-gema há mais de 100 anos e utiliza as cavernas formadas para armazenar produtos. Não seria recomendável fazer isso em área urbana, como ocorreu em Maceió. Hoje, o licenciamento é diferente.
Qual a expectativa de começar a produção?
Não dá para saber agora. Primeiro precisamos obter a aprovação da ANM para o relatório de pesquisa. É nisso que trabalhamos.
Vencida essa etapa, qual é o investimento necessário?
Depende da planta e do seu tamanho. Nosso foco é entender qual é o menor projeto viável. Estamos trabalhando com módulos pequenos, como projetos-piloto, que podem crescer ao longo do tempo. E esse crescimento não precisa ficar concentrado em uma única empresa ou em um único lugar.
E o capital para investimento? Já há previsão?
A indústria vive um processo de descarbonização e busca por processos mais limpos. Nesse contexto, ganham espaço as plantas modulares. É assim que pensamos a refinaria: começar com um módulo e crescer de forma gradual, com passos sustentáveis.
Por falar em emprego, qual a previsão?
É difícil estimar, porque é um processo modular. Normalmente há mais pessoas na construção, mas as atividades ficam distribuídas entre montagem e conexões. Já a operação exige um número menor de trabalhadores.
Tem estimativa de quantas pessoas são necessárias para a operação dos dois projetos?
Inicialmente, é difícil falar em muitos empregos. A operação é pequena, algo para 50, 100 ou 150 pessoas. Números maiores dependem do desenvolvimento de todas as etapas do projeto. Mas há os empregos indiretos e a capacidade de atrair empreendimentos.
Curiosidades
Lagos, neve e Brasil
Apaixonado por viajar, Márcio Félix cita uma passagem por Calgary, no Canadá. Ao lembrar dos lagos cercados por neve da região, contou que chegou a comentar com moradores locais sobre a beleza da paisagem, mas ouviu uma resposta curiosa: apesar do cenário, eles preferiam o sol e o clima do Brasil.
Como em outro País
Morando atualmente no Rio de Janeiro, Márcio Félix disse que sente uma sensação especial ao chegar a Vitória.
Segundo ele, o Espírito Santo se destaca pela organização, qualidade urbana e ambiente acolhedor, a ponto de parecer “um outro país” quando desembarca no Espírito Santo.
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