Capixabas enfrentam o calor histórico da Europa
Países como França, Espanha, Itália e Alemanha registram temperaturas acima dos 40°C e população sofre consequências
A Europa enfrenta uma das mais intensas ondas de calor de sua história recente, e países como França, Espanha, Itália e Alemanha registram temperaturas acima dos 40°C.
Capixabas que moram na Europa relatam como tem sido enfrentar o calorão, onde mesmo o verão costuma não ser tão intenso.
Natural de Colatina e moradora de Barcelona, na Espanha, Sthefany Almeida, de 26 anos, dá aulas online de inglês e trabalha em uma cafeteria. Ela conta que o tempo seco faz a sensação de calor aumentar.
“Está pior do que Colatina, não tem uma nuvem no céu. O ventilador só espalha o ar quente e quando preciso dar aulas online procuro ambientes climatizados. No meu apartamento não é possível instalar ar-condicionado”.
A agente de turismo Fran Nichel é de Campo Grande, em Cariacica, e mora em Paris. Ela contou que precisou adaptar roteiros de passeios por causa das altas temperaturas.
Em locais a céu aberto, como o Jardim de Luxemburgo, ela conta que só é possível fazer uma parada rápida para fazer fotos.
“Eu me sinto num deserto, nunca tinha passado por isso. Já fez 43ºC, mas a sensação térmica é mais alta e Paris não é preparada para este calor”.
Segundo a agente de turismo, pontos turísticos como o Arco do Triunfo, a Torre Eiffel e o Museu do Louvre não estão sendo abertos à tarde. “Temos que adaptar a rotina para os clientes”.
Fran Nichel contou que a escola em que a filha estuda suspendeu as aulas na semana passada e recomendou que os alunos fossem de boné e levassem uma garrafa d´água.
“As escolas não têm ventilador e nem ar-condicionado e eu comprei um ventilador pequeno, portátil, para minha filha”.
Morando em Paris há nove meses, o psicólogo Rafael Pereira Valamiel, de 26 anos – acostumado com os verões da Praia da Costa, onde morava –, diz que está passando sufoco com o calor.
Na última quinta-feira, ele contou que a temperatura chegou a 40ºC na Cidade Luz.
“Cresci em Vila Velha e, de fato, no verão a gente sabe como é, chega a 35ºC, são temperaturas altas. E aqui chegou a bater 40ºC, mas a sensação térmica vai além disso. Cidades aqui no entorno chegaram a registrar 45ºC. Realmente no quesito temperatura já é elevadíssimo e ainda tem a questão do ar ser muito seco”.
Fenômeno ajuda a explicar aumento nas temperaturas
A Europa enfrenta uma das mais intensas ondas de calor de sua história recente devido ao bloqueio Ômega, fenômeno que impede a chegada de frentes frias e mantém o ar quente sobre o continente por vários dias.
“Essa estrutura impede o avanço de frentes frias e mantém o ar quente estacionado sobre a região por dias ou semanas, elevando as temperaturas a níveis alarmantes”, explica o ambientalista e professor aposentado do Departamento de Oceanografia da Ufes Luiz Fernando Schettino.
O fenômeno compromete o funcionamento de serviços essenciais e pressiona a economia. “Redes elétricas sobrecarregadas, usinas nucleares reduzindo produção por falta de água fria para resfriamento e colheitas comprometidas pela seca compõem um cenário de vulnerabilidade sistêmica”.
Segundo Schettino, o bloqueio Ômega é mais do que um evento meteorológico: é um sinal inequívoco das mudanças climáticas.
Onda de calor
O bloqueio ômega é um padrão atmosférico em que uma área de alta pressão fica estacionada entre duas áreas de baixa pressão, formando nos mapas um desenho semelhante à letra grega ômega.
Esse arranjo prende o ar quente sobre uma região por vários dias ou semanas, intensificando ondas de calor como a que atinge a Europa neste ano.
Como funciona
Alta pressão no centro: mantém o ar quente e estável.
Baixas pressões nas laterais: criam barreiras que impedem o deslocamento normal dos sistemas climáticos.
Corrente de jato deformada: em vez de transportar sistemas de Oeste para Leste, ela ondula e isola as áreas de pressão.
Consequências
Calor persistente: temperaturas acima de 40ºC em países como França e Espanha.
Céu limpo: a alta pressão inibe a formação de nuvens, aumentando a radiação solar.
Seca e estresse térmico: o ar quente estacionado agrava impactos na saúde, agricultura e energia.
Duração
Normalmente entre 3 e 10 dias, mas pode se prolongar por semanas.
Durante esse período, o clima fica praticamente “congelado” em um padrão estável.
Mudanças climáticas
Ainda não há consenso científico sobre se o aquecimento global aumenta a frequência dos bloqueios Ômega.
Mas há evidências de que intensifica os efeitos das ondas de calor associadas a eles.
Fonte: Luiz Fernando Schettino.
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