Cura textual
Ensaio critica silenciamentos da gramática, defende a legitimidade da variedade linguística e destaca a literatura como resistência
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Nas últimas décadas, as palavras, por um receio indefinido, deixaram de denunciar termos invasivos, como vocativos insinuantes e adjuntos sedutores, sobretudo em estruturas compostas, revelando não apenas um fenômeno social.
Essas estruturas omitem desvios sintáticos até que o predicado, em orações subordinadas, reaja; sem concordância, reúne termos dispersos e provoca ruptura textual. Ela não se limita à gramática: simboliza tensões ocultas que rompem a ordem aparente.
Enquanto isso, outro elemento, menos radical, aguarda posição diante do assédio do adjunto adnominal ambíguo, SDII (Sintaxe de Dependência II), sugerindo a presença de forças que operam de maneira indireta, influenciando sentidos e relações sem se exporem abertamente.
Ainda assim, a palavra mantém o anonimato, como se o núcleo nada soubesse, preservando uma aparência de neutralidade que encobre responsabilidades. Esse silêncio estrutural reflete uma forma de autocensura, na qual elementos deixam de denunciar aquilo que, embora evidente, permanece disfarçado.
Até que, um dia, o núcleo se revela; porém, a gramática silencia e valida o sujeito. Nesse ponto, evidencia-se uma crítica às normas que, em vez de questionar, legitimam o que deveria ser problematizado.
A validação do sujeito, mesmo diante da ruptura, aponta para sistemas que sustentam estruturas falhas, priorizando a manutenção da ordem em detrimento da verdade.
Por fim, o enunciador, indignado, cala-se, enquanto a gramática padece sobre o verbo, indicando o esgotamento daquele que reconhece o problema, mas encontra barreiras para expressá-lo. Como solução aparente, resta ao apagador suprimir o sujeito, uma metáfora contundente que representa a tentativa de apagar responsabilidades e silenciar agentes, evitando o enfrentamento direto das causas do conflito.
A cura, portanto, reside na capacidade de reconhecer as diferenças. Conforme Bagno (2004–2012) e Faraco e Zilles (2017), compreende-se que, para a cura textual, a metodologia dos gramáticos e a legalidade da senhora gramática “aprovam” a variedade linguística como fenômeno legítimo, não apenas linguístico, mas também social e formador da identidade cultural brasileira.
Assim, é necessário romper silêncios e permitir que o discurso revele, em vez de ocultar, as complexidades da realidade. A cura, portanto, reside na capacidade de reconhecer as diferenças, e a flexibilização das normas constituem a verdadeira solução.
A obra Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, é compreendida como documento de resistência e denúncia social, no qual o predicado, informado por tensões ocultas que emergem e provocam ruptura textual, registra o poder da palavra como forma de sobrevivência.
Ainda assim, mantém o anonimato que encobre responsabilidades, bem como amplia o diálogo entre a literatura e a realidade brasileira contemporânea, reafirmando a importância de reconhecer e valorizar vozes historicamente silenciadas, cuja revelação rompe a aparente ordem estabelecida.
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