Brasão deixa saudade no Arruda e lembranças de uma era de resistência
Personagem de uma das fases mais difíceis do Tricolor, atacante marcou época pela raça, pelos gols e pela identificação com a torcida coral
O ex-jogador Ivan Fiel da Silva, o Brasão, foi assassinado a tiros na madrugada desta sexta-feira (19), no município Tubarão, no Sul de Santa Catarina. Ídolo de uma geração de torcedores do Santa Cruz, o ex-atacante foi morto em um estabelecimento comercial do qual era proprietário, no bairro de Vila Esperança.
Segundo a Polícia Civil catarinense, que atualizou as informações nesta tarde, um segundo homicídio foi registrado minutos depois, a cerca de 500 metros dali. O alvo foi o empresário João Roberto Pereira de Oliveira, de 20 anos. Os dois não estavam juntos, como foi divulgado inicialmente.
Há indícios de que os dois crimes tenham sido praticados pelo mesmo homem, que está sendo procurado.
Brasão foi atingido no tórax e no antebraço e morreu ainda no local. O crime está sob investigação da Polícia Civil, que busca apurar as circunstâncias e o que motivou o assassinato. Após pendurar as chuteiras, Brasão atuava como empresário e era dono de um estabelecimento comercial naquela região
A notícia se espalhou rapidamente entre torcedores, ex-companheiros e dirigentes. Em Pernambuco, a morte do ex-jogador provocou uma onda de homenagens. Embora tenha defendido o Santa Cruz por apenas uma temporada, Brasão conquistou um espaço raro na memória coral.
Mais do que gols, deixou lembranças.
Mais do que números, deixou uma identidade.
O homem que virou símbolo da resistência coral
Em 2010, o Santa Cruz atravessava um dos períodos mais delicados de sua história. O clube tentava se reconstruir após sucessivos fracassos e estava na Série D do Campeonato Brasileiro, a última divisão nacional.
Foi nesse cenário que Brasão chegou ao Arruda.
Defendia o Atlético Goianiense e não desembarcou no Recife com status de estrela nacional. Mas bastou um mês para que a torcida percebesse algo diferente.
Ele corria como se cada partida fosse a última.
Disputava cada bola como quem carregava o peso de uma camisa centenária. Brigava com os zagueiros, pressionava a saída adversária e transformava esforço em espetáculo. Em um momento de desconfiança e sofrimento, representava exatamente o que o torcedor queria ver dentro de campo: raça.
Entre gols e provocações, nasceu um xodó
Brasão também entendia o lado emocional do futebol. Era 'amostrado' nas quatro linhas, tirava a camisa, fazia passinho, mostrava os músculos como Hulk - personagem em quadrinhos. Mas era chamado por alguns cronistas esportivos e fãs de Super Homem. Era “de outra galáxia”, diziam, e se transformou em fenômemo de popularidade.
Fora das quatro linhas, cultivava um estilo irreverente e provocador que rapidamente conquistou os torcedores.
A rivalidade com Carlinhos Bala, que se autointitulou como Rei de Pernambuco jogando pelo Náutico, ajudou a incendiar um dos capítulos mais folclóricos daquele Campeonato Pernambucano. As provocações entre os dois atravessaram entrevistas, bastidores e decisões, aumentando ainda mais a identificação do atacante com a torcida tricolor.
Dentro de campo, os resultados apareciam.
Segundo registros do site especializado do Santa Cruz, Brasão disputou 18 partidas oficiais pelo Santa Cruz e marcou 10 gols. Está em 14º lugar em artilharia pelo Santa Cruz.
Com um estilo provocativo, participou da campanha no Campeonato Pernambucano, da Copa do Brasil e da Série D, além de integrar o elenco campeão da Copa Pernambuco de 2010.
A noite em que o Santa Cruz calou o Rio de Janeiro
Entre tantas lembranças, uma permanece viva na memória coral.
Era 1º de abril de 2010.
O Santa Cruz havia perdido por 1 a 0 para o Botafogo no Arruda e chegava ao Rio de Janeiro como franco azarão. De um lado, um clube tradicional da Série A. Do outro, uma equipe que lutava para reencontrar seu caminho no futebol brasileiro.
O roteiro parecia definido.
Mas o futebol nem sempre respeita as previsões.
No então Engenhão, atual Estádio Nilton Santos, o Santa Cruz venceu por 3 a 2 e eliminou o adversário em uma das maiores façanhas de sua história recente. O gol decisivo saiu aos 45 minutos do segundo tempo e entrou para a galeria dos momentos inesquecíveis do clube. Os gols foram de Léo, Brasão e Souza.,respectivamente.
“O super herói do Santa está ai”, disse Brasão durante a partida na qual fez um dos 3 gols da Cobra Coral. “Mais difícil foi a viagem”, completou o atacante depois da proeza no estado carioca.
Alegria inesquecível
Brasão não foi apenas mais um jogador naquela noite.
Foi um dos rostos da resistência coral. Um atacante que transformava entrega em liderança e ajudava a empurrar um time desacreditado contra adversários mais poderosos.
Também esteve à frente do setor ofensivo na marcante vitória por 4 a 2 sobre o Náutico, resultado que reforçou seu vínculo com a torcida. Na época, o resultado, que teve dois gols de Brasão e expulsão por retirada da camisa duas vezes, garantiu a vice-liderança ao Santa Cruz no campeonato pernambucano.
Uma carreira construída pelo Brasil
Natural de São Paulo, Brasão percorreu diversos estados ao longo da carreira. Vestiu camisas de clubes como o Athletico Paranaense, Atlético Goianiense, Treze, Brasil de Pelotas e Vitória da Conquista.
Foi em Santa Catarina, porém, que passou boa parte da trajetória profissional, atuando por equipes como o Clube Atlético Tubarão, Inter de Lages, Camboriú, Atlético de Ibirama e Concórdia Atlético Clube.
O adeus de quem nunca foi esquecido
Há jogadores que passam anos em um clube sem deixar marcas.
Brasão fez o contrário.
Permaneceu pouco tempo no Arruda, num ano em que o time não foi campeão, mas conseguiu algo que as estatísticas não explicam. Tornou-se um símbolo de um período em que o Santa Cruz precisava mais de coragem do que de craques.
Sua morte interrompe uma vida aos 44 anos. Mas dificilmente apagará a lembrança daquele atacante de chuteiras gastas, disposição inesgotável e alma inquieta que ajudou a levantar um clube ferido.
Na memória da torcida coral, Brasão não será lembrado apenas pelos gols.
Será lembrado pela entrega. Pela personalidade. E por representar, dentro de campo, o sentimento de um Santa Cruz que se recusava a desistir.
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