A Casa Comum em risco
Em um tempo de encruzilhada histórica, ciência, governança e espiritualidade se cruzam no debate sobre a Casa Comum
Leitores do Jornal A Tribuna
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A humanidade vive um tempo de encruzilhada histórica. Leonardo Boff nos lembra que a Terra não é apenas um recurso a ser explorado, mas um organismo vivo que clama por cuidado e exige uma nova postura ética.
Para ele, “protelar o fim do mundo” significa transformar radicalmente nossa relação com o planeta, superando o consumismo desenfreado e o antropocentrismo, que coloca o ser humano como centro absoluto da criação. Essa mudança implica reconhecer que somos parte de uma teia de vida interdependente e que nossa sobrevivência depende da saúde da Casa Comum.
O sistema internacional, consolidado desde a Paz de Vestfália, em 1648, e baseado na soberania dos Estados, mostra-se insuficiente diante da crise climática. A lógica de fronteiras rígidas e interesses nacionais não responde à urgência de uma cidadania planetária capaz de enfrentar desafios globais como o aquecimento da atmosfera, a perda da biodiversidade e a degradação dos ecossistemas.
A sustentabilidade, portanto, não deve ser vista apenas como pauta ambiental, mas como projeto político e ético de reconstrução social. A educação ambiental é instrumento essencial para formar cidadãos conscientes e capazes de agir coletivamente, enquanto a ética deve orientar escolhas políticas e econômicas em favor da vida.
Nos artigos que publico, insisto que as mudanças climáticas não são apenas fenômenos científicos: são também questões sociais e políticas, exigindo responsabilidade intergeracional e cooperação global. O climatologista Carlos Nobre alerta para os riscos que ameaçam a Amazônia, especialmente o processo de “savanização” provocado pelo desmatamento e pelo aquecimento global. Sua mensagem é clara: sem a floresta em pé, não há futuro climático seguro.
José Carlos Carvalho denuncia retrocessos institucionais que fragilizam a governança ambiental, enquanto Ailton Krenak reforça que “a humanidade precisa adiar o fim do mundo”, recuperando a espiritualidade da Terra e o respeito aos povos originários.
No campo espiritual, Papa Francisco, em Laudato Si’, convoca todos a cuidar da Casa Comum. Antes dele, Papa Leão XIII inaugurou a Doutrina Social da Igreja, com a Rerum Novarum (1891). Hoje, Papa Leão XIV atualiza esse legado ao tratar da ética da Inteligência Artificial em Magnifica Humanitas, mostrando que os dilemas tecnológicos também fazem parte da responsabilidade moral diante da vida.
Rachel Carson, com Silent Spring (1962), denunciou os impactos devastadores dos pesticidas e inaugurou uma nova consciência ambiental global. Sua obra demonstrou que ciência e ética devem caminhar juntas para proteger a vida.
Enquanto isso, o Congresso brasileiro aprova leis que fragilizam o licenciamento ambiental e reduzem a proteção de povos indígenas. Nos Estados Unidos, Donald Trump minimiza a crise climática e alimenta discursos de desinformação, revelando como a política pode ser usada para negar evidências científicas e atrasar soluções urgentes.
A crise planetária exige, portanto, uma aliança entre ética, ciência, espiritualidade e política. Entre Boff, Nobre, Carvalho, Carson, Francisco, Leão XIII/XIV e Krenak, emerge um chamado comum: superar o negacionismo e construir uma civilização do cuidado, da justiça e da esperança.
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