Raimundo Carrero e a livraria que encontrei dentro de um homem
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
Siga o Tribuna Online no Google
Quando liguei para Raimundo Carrero, em julho do ano passado, para falar sobre o lançamento de A vida é traição, sua última obra publicada, bastaram poucos minutos para surgir uma sensação rara. À medida que ele falava, parecia que eu entrava numa livraria.
Não uma livraria de paredes, corredores e estantes.
Uma livraria feita de memória.
De personagens.
De romances.
De culpas.
De fé.
De tudo aquilo que um homem consegue transformar em literatura ao longo de uma vida inteira.
Enquanto sua voz atravessava a linha telefônica, eu pensava na quantidade de livros que ele havia escrito, nos leitores que havia formado, nos escritores que ajudou a nascer e nos mundos que construiu. Pensei em A História de Bernarda Soledade, Sombra Severa, Viagem no Ventre da Baleia, Maçã Agreste, O Amor Não Tem Bons Sentimentos e tantas outras obras que ajudaram a formar a literatura pernambucana contemporânea.
E tive uma sensação rara para quem trabalha diariamente com palavras: a de não saber quase nada.
Como quem entra numa livraria enorme e percebe que jamais conseguirá ler todas as histórias que existem ali.
Eu era só Aline.
Do outro lado da linha estava Raimundo Carrero.
Nesta terça-feira (16), ao saber de sua morte, aos 78 anos, voltei imediatamente àquela conversa.
Não pensei primeiro nos prêmios dele.
Nem no Jabuti.
Nem nos troféus.
Nem no escritor consagrado.
Pensei na voz.
Pensei no homem que transformava as dores mais íntimas em literatura sem transformá-las em espetáculo.
A culpa que atravessou uma vida
A vida é traição era, segundo ele próprio, sua carta ao mundo.
Uma novela breve, mas construída ao longo de uma vida inteira.
Durante a entrevista, Carrero me contou uma história que o acompanhava desde a infância. Sua mãe morreu de leucemia quando ele tinha apenas 10 anos. Mas, ainda menino, ouviu de uma mulher que trabalhava na casa da família que a culpa daquela morte era dele.
Era uma acusação absurda.
Cruel.
Mas crianças não recebem certas palavras como os adultos recebem.
Elas as absorvem.
Elas as guardam.
Elas crescem junto com elas.
Aquela frase atravessou décadas.
E atravessou também a literatura de Carrero.
Lembro de ouvir sua voz narrando aquilo e perceber que não estava diante de uma lembrança distante. Era uma ferida antiga. Não aberta. Mas nunca completamente fechada.
Em A vida é traição, essa experiência reaparece transformada em ficção através de Solano, personagem que carrega um peso semelhante. Acusado de assassinato da mãe, perseguido pela própria consciência, ele atravessa a narrativa tentando compreender aquilo que talvez nunca possa ser completamente compreendido.
Livro e vida pareciam caminhar lado a lado
Não porque Carrero confundisse literatura com autobiografia.
Mas porque fazia aquilo que os grandes escritores sabem fazer: transformava uma dor particular em algo universal.
Quem nunca carregou uma culpa que não merecia?
Quem nunca se condenou por algo que estava além de seu controle?
Quem nunca desejou voltar atrás para corrigir uma palavra, uma ausência, um pensamento?
A entrevista falava dele.
Mas também falava de todos nós.
Quando a entrevista deixou de ser entrevista
Houve um momento em que deixei de ouvir apenas como jornalista.
Carrero falava da mãe.
Da culpa.
Da forma como certas dores permanecem conosco mesmo quando a razão já demonstrou que não fazem sentido.
E eu me reconheci em parte daquela conversa.
Anos atrás, acompanhei o sofrimento de uma parente muito querida que permaneceu acamada por longo período após um derrame. Quem já viveu algo parecido sabe como o amor pode nos conduzir a territórios difíceis de explicar.
Às vezes, desejar o fim do sofrimento de alguém amado produz uma culpa silenciosa.
Mesmo quando esse desejo nasce do amor.
Mesmo quando nasce da compaixão.
Mesmo quando não existe culpa alguma.
Enquanto Carrero falava, eu me lembrei disso.
E chorei. E ele pausou. Chorei um pouco mais.
Não porque ele estivesse contando uma história triste.
Jornalistas escutam histórias tristes todos os dias.
Mas porque ele tocava numa região da alma onde as palavras costumam permanecer escondidas.
Falava sobre aquilo que muitas pessoas sentem e poucas conseguem nomear.
Naquele instante, a entrevista deixou de ser apenas uma entrevista.
Não porque eu estivesse diante de um escritor famoso.
Mas porque estava ouvindo alguém falar com uma honestidade rara sobre as fragilidades humanas.
Talvez tenha sido ali que compreendi uma das razões pelas quais sua literatura permanece.
Carrero nunca escreveu apenas sobre acontecimentos.
Escreveu sobre aquilo que acontece dentro das pessoas.
As zonas escuras.
As contradições.
As rachaduras.
Os lugares onde convivem fé, medo, amor, culpa e esperança.
A vida, a traição e o perdão
Há algo que me acompanha desde aquela conversa.
Carrero não falava como alguém que havia vencido todas as suas dores.
Também não falava como alguém derrotado por elas.
Falava como quem aprendera a caminhar ao lado delas.
Em determinado momento da entrevista, ele me disse que a culpa infundada não é consciente nem inconsciente. Que a carregamos para a eternidade.
A frase me impressionou porque contrariava o discurso fácil dos tempos atuais, que promete curas rápidas para tudo.
Carrero não acreditava nisso.
Seu último livro também não.
Em A vida é traição, não existe solução mágica.
Não existe redenção simplificada.
Não existe final confortável.
A vida continua sendo um território de perdas, ambiguidades e perguntas sem resposta.
Mas existe algo que aparece repetidamente em sua fala pelo telefone.
O perdão.
Não como esquecimento.
Não como apagamento completo da dor.
Mas como escolha.
Ao final daquela entrevista, depois de falar sobre culpa, sofrimento e fé, ele me deixou uma frase que nunca esqueci:
"Eu não carrego amargura. Carrego perdão."
Talvez esteja aí uma das maiores lições de Raimundo Carrero.
A culpa permanecia.
A dor permanecia.
As perdas permaneciam.
Mas a amargura não.
Alguns escritores não morrem
Um dia depois daquela entrevista, encontrei Raimundo Carrero no lançamento de A vida é traição.
Comprei o livro.
Tirei uma fotografia.
Guardei aquele momento com a alegria silenciosa de quem finalmente encontra um autor que admirava havia muitos anos.
Mas, curiosamente, quando penso nele hoje, a lembrança mais forte não é a da foto.
Nem a do autógrafo.
Nem a da fila de leitores.
É a da voz.
A voz que atravessou uma ligação telefônica e me fez sentir como se estivesse entrando numa livraria inteira construída dentro de um único homem.
Talvez por isso a notícia de sua morte não me conduza apenas ao luto.
Ela me leva às estantes.
Às páginas.
Às perguntas.
Às inquietações que continuam vivas dentro de seus livros.
O protagonista de A vida é traição não encontra respostas capazes de apagar completamente suas dores. Carrero sabia que a existência humana é mais complexa do que isso. Talvez seja justamente por essa razão que sua obra permaneça tão necessária.
Porque ela não promete soluções.
Ela oferece companhia.
Hoje, ao lembrar daquela entrevista, volto à sensação de entrar numa livraria sem sair do lugar. Volto à voz de um homem sertanejo que passou a vida tentando compreender os mistérios da culpa, da fé, da perda e do amor.
Raimundo Carrero partiu.
Mas algumas pessoas deixam mais do que livros.
Deixam corredores inteiros para serem percorridos.
E, enquanto houver leitores dispostos a abrir uma de suas páginas, aquela livraria continuará de portas abertas.
Começei admirando Carrero pelo escritor, pelo professor, pelo discípulo de Ariano, pelo mestre da ficção.
Mas a entrevista me apresentou outra grandeza.
A do homem.
Aquele que transformou Pernambuco em literatura e a literatura em abrigo para tantos leitores.
E, por tudo isso, obrigada, Carrero!
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
Pernambuco que encanta, por Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
ACESSAR
Pernambuco que encanta,por Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
PÁGINA DO AUTORPernambuco que encanta
A coluna Pernambuco que encanta, do Tribuna Online PE, revela histórias inspiradoras dos municípios pernambucanos e seus moradores. Com olhar sensível, informativo e analítico, valoriza as riquezas humanas, econômicas e culturais do estado, mostrando quem transforma comunidades com criatividade, coragem e afeto.