Homem que fez chamada de vídeo durante feminicídio é transferido para o Cotel
Motorista de aplicativo teve a prisão em flagrante convertida em preventiva pelo crime cometido em Jaboatão; duas crianças pequenas estavam na casa
Com colaboração de Rubens Marinho
O motorista de aplicativo Felipe Marcos Santos Silva, de 30 anos, indiciado por matar a esposa a tiros com suas duas filhas em casa, foi encaminhado para o Centro de Observação e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), em Abreu e Lima, no Grande Recife. Ele responderá pelos crimes de feminicídio e porte ilegal de arma, com o agravante de ter cometido o ato na presença de menores de idade.
A prisão em flagrante de Felipe foi convertida em preventiva após a acusação de assassinar a companheira, Tamiry Mirelly Souza dos Santos, de apenas 21 anos. O crime aconteceu na manhã do sábado passado, na residência do casal, localizada na Travessa Estrada de Piedade, no bairro de Socorro, em Jaboatão dos Guararapes.
O homem fugiu do local em seu próprio veículo e foi capturado por policiais militares do 25º Batalhão no bairro vizinho de Sucupira, com o corpo e as vestimentas cobertos de sangue. No imóvel, os agentes apreenderam uma pistola calibre .40, de uso restrito, utilizada nos disparos. “O inimigo entrou nela”, disse aos repórteres o homem que desferiu de três a cinco tiros na esposa, segundo a contagem dos disparos feita pelos vizinhos.
O homicídio foi executado enquanto o suspeito realizava uma chamada de vídeo para a irmã da vítima, que assistiu à ação por meio do telefone celular. No interior da casa, estavam as duas filhas do casal, uma criança de 3 anos e um bebê de 3 meses de vida. Logo em seguida aos disparos, moradores da localidade tentaram prestar socorro a Tamiry Mirelly, mas ela não resistiu aos ferimentos antes da chegada das equipes de resgate.
Isolamento e rotina do casal
Felipe, na vizinhança, era considerado uma pessoa acima de qualquer suspeita. Quatro dias antes do crime, no entanto, o homem instalou placas de telha de fibrocimento para vedar o portal de ferro vazado da entrada da residência. Os vizinhos acreditam que a mudança foi motivada por ciúmes. Os mesmos moradores apontaram que o casal morava há pouco tempo no endereço e não costumava apresentar desentendimentos públicos.
Declarações e contradições do suspeito
Ao ser conduzido ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e, posteriormente, ao Instituto de Medicina Legal (IML) para o exame de corpo de delito, o homem apresentou justificativas e versões conflitantes sobre a dinâmica do crime.
"Eu ia passear com a cachorra que eu não tinha passeado mais cedo, porque eu rodei no aplicativo. Ela perguntou e disse: ‘você não vai para canto nenhum não. Vá dormir. Num já trocou de roupa já? Num já terminou o bebê…’ Aí começou a se mexer… E me deu um soco no rosto”, contou, garantindo que desferiu os tiros em legítima defesa.
Felipe alegou que fez a ligação para a cunhada para mostrar a situação da esposa, que estaria com “o inimigo”. A alegação de legítima defesa, contudo, apresentou divergências com a perícia inicial e com os registros oficiais:
Ausência de marcas físicas: O suspeito afirmou ter recebido um soco na região dos olhos, mas durante a entrevista aos repórteres, não havia hematomas, escoriações ou marcas de agressão no rosto do homem.
Histórico inexistente: O homem alegou que a companheira costumava feri-lo com golpes de faca durante discussões anteriores, mas admitiu nunca ter registrado um boletim de ocorrência sobre os supostos ataques. Por outro lado, segundo informações da audiência de custódia, ele já teria disparado a arma anteriormente dentro da casa onde vivia com a família.
A chamada de vídeo: Ao ser interpelado sobre a razão de ter acionado a irmã da vítima por vídeo no momento dos disparos, o suspeito não apresentou justificativa clara, limitando-se a dizer que não ligou para filmar a crueldade, mas sim o estado em que a companheira se encontrava (ele se referia ao inimigo).
Situação das crianças: O motorista alegou que as duas filhas pequenas “estavam dormindo” no momento dos tiros, ao ser questionado se as crianças testemunharam a ação no mesmo cômodo. A Justiça considerou o fato de ele ter matado a esposa na presença dos filhos como um agravante para a manutenção da prisão.
O caso segue sob investigação do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
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