R$ 144 bi parados são um erro econômico
Projeção aponta menos dias úteis, queda na produtividade e mais recursos parados na Justiça, afetando consumo, crédito e recuperação financeira
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No Brasil, a demora no encerramento dos processos sempre foi tratada como um tema exclusivamente jurídico. Mas essa visão já não dá conta da realidade.
Quando bilhões de reais permanecem imobilizados por anos, o que se tem é um problema econômico com impactos diretos sobre consumo, investimento e recuperação financeira de famílias e empresas.
Em 2026, esse quadro tende a se tornar ainda mais sensível. Copa do Mundo, eleições e um calendário marcado por feriados e interrupções comprimem o número de dias úteis e impõem pressão adicional ao ritmo de resposta do sistema.
A estimativa considera a diminuição para 214 dias úteis ao longo do ano, levando em conta o recesso forense previsto no artigo 220 do Código de Processo Civil e os feriados específicos do Judiciário estabelecidos pela Lei nº 5.010/66. O resultado é previsível: mais acúmulo, mais espera e mais recursos sem cumprir sua função econômica.
As consequências imediatas dessa projeção inicial são a perda de 4,46% da capacidade produtiva do sistema e a redução superior a 131 mil encerramentos processuais comparada aos cenários passados em que a totalidade de dias operacionais era maior.
Esses cálculos foram elaborados a partir de modelagem estatística baseada na produtividade média diária observada em 2025, utilizando indicadores oficiais do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), como o Índice de Produtividade dos Magistrados (IPM) e o Índice de Produtividade dos Servidores (IPS), além dos parâmetros estabelecidos pelas Metas Nacionais do Judiciário.
O estoque projetado chega a 7,66 milhões de processos, representando cerca de R$ 144,57 bilhões imobilizados.
Tratar esse número como uma simples estatística judicial é ignorar seu verdadeiro significado.
Dinheiro parado em processo não movimenta comércio, não sustenta pequenos negócios, não paga dívida cara, não recompõe orçamentos domésticos e não sustenta recomeços.
No Espírito Santo, a inadimplência do consumidor encerrou dezembro de 2025 em 33,9%. Ao mesmo tempo, o crédito livre para pessoas físicas chegou a 63% ao ano em maio de 2026.
Em outras palavras, milhares de pessoas aguardam valores já reconhecidos e, nesse intervalo, acabam recorrendo a linhas de crédito de alto custo para enfrentar despesas imediatas.
Defendo, portanto, uma mudança de olhar. A possibilidade de antecipar o futuro e permitir escolhas no presente. O debate econômico de 2026 não deveria se limitar a inflação, juros, câmbio ou eleições.
Deveria incluir também o impacto da imobilização de valores que poderiam estar cumprindo hoje a função econômica real. E, nesse contexto, alternativas legítimas de liquidez para créditos já reconhecidos, como a antecipação de créditos trabalhistas, podem ser estruturadas com análise, transparência e segurança jurídica, permitindo que parte desses recursos volte a cumprir, no presente, a função socioeconômica que permaneceria adiada.
Em ano de Copa, eleições e feriados prolongados, o Brasil falará muito sobre futuro. Mas a economia também perde quando recursos que já têm destino permanecem por tempo demais sem circular. E, quando isso acontece na escala de R$ 144 bilhões, já não estamos falando apenas de prazos. Estamos falando de impacto econômico.
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