Doença nos EUA pode elevar demanda por carne do Brasil
Verme-da-bicheira em bezerro e tarifa de 25% sobre a tilápia entram no radar do mercado, com reflexos diferentes para a pecuária e a pesca capixabas
A confirmação de um caso do verme-da-bicheira-do-novo-mundo em um bezerro no Texas acendeu um novo alerta para o mercado global de proteínas.
A praga, considerada uma das mais prejudiciais à pecuária, surge em um momento de oferta reduzida de bovinos nos Estados Unidos e pode ampliar a pressão sobre os preços da carne e de produtos derivados.
Embora as autoridades norte-americanas afirmem que o caso está isolado, a ocorrência preocupa o setor porque acontece em meio ao menor rebanho bovino dos Estados Unidos em 75 anos. A situação também afeta o comércio internacional.
Os Estados Unidos suspenderam recentemente as importações de gado vivo do México após o avanço da praga naquele país, reduzindo ainda mais a oferta disponível para frigoríficos.
O impacto pode chegar a outros mercados, inclusive ao Brasil, em um cenário de demanda crescente por proteínas animais e suplementos alimentares.
No Espírito Santo, o impacto deve ser tímido. A grande maioria da produção de carne da pecuária capixaba é para consumo interno, com a exportação representando uma fração pequena, conta o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária (Faes), Júlio Rocha.
“Mas o Brasil pode certamente tirar vantagem, porque temos um rebanho de qualidade, inclusive com certificações internacionais”.
O último registro da praga nos Estados Unidos havia ocorrido em 2016, entre cervos nas ilhas Florida Keys. Em bovinos, o caso mais recente era de 1976. Segundo o USDA, naquela época as perdas para a economia do Texas chegaram a US$ 375 milhões.
Tilápia não deve ficar mais barata
A tilápia ficou de fora da lista de exceções da tarifa de 25% proposta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para produtos brasileiros.
As exportações brasileiras representam, no entanto, apenas cerca de 2,1% de toda a produção brasileira de tilápia, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior.
No Espírito Santo, a maior parte da produção é destinada para o consumo interno, afirma o presidente do Sindicato da Indústria de Pesca do Estado (Sindipesca-ES), Lúcio Mauro Machado.
“A tilápia capixaba é consumida no mercado local, pois o consumo dela está muito pujante. Hoje é um dos peixes com maior citação na mesa do brasileiro", diz.
A maioria dos exportadores para os Estados Unidos está localizada em São Paulo, afirma Machado. Por isso, o prejuízo seria para esses produtores e ainda assim reduzido, dada a baixa relevância das exportações na produção.
A maior dificuldade, comenta Machado, ficaria para outras produções — as chamadas “selvagens”, pescadas em mar aberto, e não criadas em cativeiro.
“O Espírito Santo será afetado com os produtos como badejo, garoupa, cioba, dourado”, explica o representante.
O defeso do badejo-verdadeiro começa em 1º de agosto e da garoupa é em 1º de novembro.
Esses produtos entram em um período de defeso justamente nesta época em que estão sendo tarifados. Com esse cenário, em que se somam paralisação da pesca e tarifas elevadas, é possível que os impactos sejam sentidos em outubro, comenta Machado.
Embora os produtores não estejam tranquilos com o cenário, é esperado que a diminuição da oferta de pescados no período de defeso equacione uma eventual redução nos preços que possa ocorrer com a queda nas exportações.
“Como a oferta cai um pouco, pode haver uma elevação nos preços, pois é a lei da oferta e da procura. Então talvez a gente consiga equilibrar isso e seguir em frente como estávamos seguindo no passado”, comenta.
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