Ganhou coração novo 17 anos após doar órgãos do filho: "Cheia de sonhos"
Depois de passar pela dor de perder um filho, Magda sentiu a alegria que o ato de doar órgãos é capaz de proporcionar
O ano era 2009. Magda Maria Mariano Messias, na época com 20 anos, passa por uma situação que mudaria para sempre sua vida: seu filho primogênito, Matheus, de 1 ano e 7 meses, teve morte encefálica depois de sofrer diversas convulsões. Mesmo em meio a dor ela decide doar os órgãos do menino.
O que ela não imaginava é que 17 anos depois, seria ela quem estaria na dependência de um doador. Devido a uma insuficiência cardíaca grave, em março deste ano, ela recebeu um novo coração. A doação aconteceu um dia após Magda ter completado 37 anos, no Hospital Evangélico de Vila Velha (HEVV).
Foi aos 30 anos, depois de ter tido sua filha caçula Lorena, de 7 anos, que ela começou a apresentar os sintomas cardíacos. “Eu estava inchando muito e com muita falta de ar. No início estava sendo tratada como uma paciente com bronquite e asma”.
Posteriormente, Magda recebeu o diagnóstico de insuficiência cardíaca, quando ainda morava em São Paulo, sua cidade natal. “Já sabia que era uma possível candidata a um transplante. Mas eu pensava que nunca aconteceria. Tinham muitas pessoas na frente”.
Há cinco anos ela veio para o Espírito Santo, no batizado de seu afilhado, se apaixonou pelo estado e resolveu ficar, já que estava buscando mais qualidade de vida. “Vim para cá pensando em viver o que tinha de viver e ficar próxima de meus filhos. Mas a doença não estava me deixando viver”, contou.
Sem conseguir realizar tarefas simples, como pentear os cabelos e brincar com os filhos, e passando semanas internada, Magda, no leito de hospital, fez uma oração de apelo para Deus.
“Um dia antes do transplante tinha sido meu aniversário e eu falei para Deus: 'Estou cansada, se não for para dar certo, me leve logo'. Eu não aguentava mais ver meus filhos sofrerem.”
Na madrugada do dia 10, um dia após seu aniversário, sua oração foi respondida. “O cirurgião chegou até mim e falou: 'apareceu um órgão compatível'. Eu não sabia o que falar, apenas lágrimas escorreram de meus olhos”.
Agora, ao lado dos filhos Bruno, 13, Manuella, 10, Lorena , 7, e do marido Felipe Araújo, 47, ela comemora a nova vida. “Hoje eu só quero ficar com minha família”.
“Salvou uma mulher cheia de sonhos”
Dois meses após ter sido submetida a um transplante de coração no Hospital Evangélico de Vila Velha (HEVV), a coordenadora de fast food Magda Maria Mariano Messias, de 37 anos, relembra os momentos que viveu quando perdeu seu filho mais velho, Matheus, com 1 ano e 7 meses, e tomou a difícil decisão de autorizar a doação dos órgãos da criança.
A Tribuna — Como foi perder seu filho e tomar a decisão de doar os órgãos dele?
Magda Maria — Foi o momento mais difícil da minha vida. O Matheus era meu filho mais velho e, na época, meu único filho. Até 1 ano e 6 meses ele não tinha nada. De repente começou a ter convulsões. Os médicos falavam que era como se fosse uma epilepsia, mas não conseguiam descobrir a causa. Um dia ele teve uma convulsão, ficou muito tempo sem oxigênio e acabou tendo um problema no cérebro. Chegaram a reanimá-lo, mas ele não voltou.
Depois de três dias foi constatada a morte encefálica. Na época eu tinha muito preconceito, não com a doação, mas porque, para mim, enquanto eu via o coração batendo, ele estava vivo. Quando a equipe de captação veio conversar comigo, eu fiquei muito receosa de assinar. Foi muito, muito difícil mesmo. Na época morava em São Paulo.
O que a ajudou a entender aquela decisão?
O que me ajudou foi entender que ele não veio para ser meu. Ele veio para salvar outras pessoas. Depois recebemos uma carta informando que ele tinha ajudado 10 pessoas. Até a pele dele foi utilizada.
Quando entendi isso, passei a enxergar tudo de outra forma. Eu acho que foi a decisão mais madura que tomei na minha vida, e eu tinha apenas 20 anos.
E em que momento soube que precisaria de um transplante?
Depois que tive minha filha mais nova, que hoje tem 7 anos. Eu comecei a inchar muito e sentir muita falta de ar. No início estava sendo tratada como bronquite e asma. Só depois descobriram que era insuficiência cardíaca e que minha fração de ejeção já estava muito baixa, em torno de 30%.
Acreditou que não conseguiria sobreviver?
Sim. Naquela última internação eu já estava muito cansada. Foram anos de luta e, nos últimos meses, eu praticamente vivia no hospital. No dia 10 de março, um dia depois do meu aniversário, eu estava na UTI. Meus filhos tinham ido me visitar e eu já não aguentava mais vê-los sofrendo. Eu fiz uma oração para Deus.
O que você falou?
Eu falei para Deus que estava cansada. Pedi que, se não fosse para dar certo, que Ele me levasse logo. Eu não aguentava mais a dor, não aguentava mais o sofrimento dos meus filhos me vendo daquele jeito. Na madrugada do dia seguinte, o médico veio no meu quarto e me disse que tinha aparecido um órgão compatível e que começariam a preparação para o transplante. Eu não consegui falar nada. Só chorei.
Como foi acordar depois da cirurgia?
Eu estava deitada e não sentia falta de ar. Antes do transplante eu não conseguia nem me deitar. Meu corpo estava diferente. Lembrei de quando autorizei a doação do Matheus. Eu estou muito grata a quem permitiu a doação e queria que soubesse que salvou uma mãe de três filhos. Salvou uma mulher cheia de sonhos. Não foi em vão!
Estou conseguindo pentear o cabelo das minhas filhas, fazer comida, cuidar da minha casa, passear um pouco, viver coisas simples que antes pareciam impossíveis. Agora quero aproveitar minha família. Quero ter meu próprio empreendimento. Não tenho medo mais de nada!
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