ChatGPT quer lançar celular e deixar iPhone obsoleto
OpenAI estuda lançar aparelho voltado à Inteligência Artificial, com interação menos dependente de aplicativos e telas
Um novo smartphone capaz de processar de maneira autônoma atividades vinculadas a Inteligência Artificial é a promessa da OpenAI, dona do ChatGPT, para a entrada da empresa na Bolsa dos EUA — e com a visão de concorrer diretamente com o iPhone, da Apple, tornando-o obsoleto, ultrapassado.
O objetivo da empresa, segundo o analista da TF International Securities, Ming-Chi Kuo, é que o celular inteligente comece a ser fabricado já em 2027. A OpenAI estaria desenvolvendo chips em parceria com a Qualcomm e a MediaTek, com foco na Unidade de Processamento Neural (NPU). A chinesa Luxshare seria a responsável pela fabricação e pelo desenvolvimento do design do produto.
Mas, por trás dos anúncios e das promessas, especula-se: isso já é uma realidade ou seria apenas uma estratégia de marketing — e até uma tentativa de frear os concorrentes enquanto as empresas desenvolvem e aperfeiçoam suas próprias ferramentas?
Para o advogado Carlos Augusto Pena da Motta Leal, presidente da Comissão de Tecnologia da Informação e Direito Digital da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional capixaba (OAB-ES), as duas hipóteses podem coexistir. Segundo ele, é natural que empresas de tecnologia utilizem anúncios ambiciosos para posicionar sua marca e atrair investidores, consumidores e desenvolvedores.
“No entanto, também é verdade que o avanço da inteligência artificial está impulsionando uma mudança significativa na forma como as pessoas interagem com dispositivos eletrônicos”, disse.
A ideia de um aparelho concebido desde a origem para funcionar como interface de IA não é tecnicamente impossível, diz: “Hoje, smartphones ainda dependem de telas, aplicativos e menus. Um dispositivo centrado em IA poderia reduzir essa dependência, tornando a interação mais conversacional e automatizada”.
Por outro lado, segundo Carlos Augusto, declarações sobre riscos da IA e pedidos por maior regulação, como os feitos por empresas concorrentes, também podem refletir interesses estratégicos.
“Historicamente, grandes empresas costumam defender regras mais rígidas quando já possuem estrutura tecnológica e financeira para cumpri-las, o que pode criar barreiras para novidades no mercado. Isso não significa que os riscos não existam, mas é importante reconhecer que o debate envolve tanto preocupações legítimas quanto disputas de mercado”.
Força da “maçã” e dependência de chips entre os desafios
A concorrência da OpenAI com o iPhone no mercado de celulares inteligentes vai depender, também, do posicionamento como um artigo de consumo, classificam especialistas.
O smartphone da Apple, além das características como câmera e sistema operacional, também se tornou um artigo de status, reforça Eduardo Glazar, CSO da Globalsys.
“O iPhone, para muita gente, não se define pela tela nem termina na ficha técnica. Começa na maçã. No mercado de smartphones, a escolha nem sempre passa apenas por desempenho, câmera ou bateria”, comenta.
Outro desafio é o mercado de semicondutores, confirma Otávio Lube, professor de Engenharia da Computação. Ele explica que a tecnologia de chips de dois nanômetros, que é a arquitetura planejada pela empresa, só é produzida por pela TSMC, que é uma empresa de Taiwan.
“Isso mostra uma fragilidade da cadeia de suprimento deles, depender exclusivamente de um chip que só é produzido em Taiwan. Uma guerra comercial entre Estados Unidos e China coloca a cadeia em risco”, diz.
Lube também comenta que a proposta da empresa é realizar tarefas pequenas no celular e jogar as tarefas complexas para a nuvem — ou seja, para a internet.
“Vai ter um tempo de processamento e se a conexão não for muito boa, ou até mesmo se você tiver algum gargalo de conexão, como a gente tem usando hoje serviços de internet, você vai ter problemas de processamento”, comenta.
O que se sabe até agora
Celular da OpenAI
- A empresa MediaTek é tida, no momento, como a favorita para ser a única fornecedora do chipset do aparelho, que seria uma provável variante do Dimensity 9600;
Fabricação
- A fabricação do chip ficaria a cargo da TSMC a partir da arquitetura N2P, enquanto a Luxshare seria a corresponsável pelo design;
Padrões
- Os padrões modernos de memória RAM LPDDR6 e UFS 5. 0 de armazenamento interno serão usados para “aliviar gargalos” no desempenho, enquanto uma arquitetura dual-NPU seria a responsável por garantir a computação de Inteligência Artificial;
Aspecto técnico
- Outro aspecto técnico priorizado é a capacidade de detecção visual no mundo real, inclusive por meio de um pipeline HDR aprimorado;
Lançamentos
- Para o analista Ming-Chi Kuo, “se o desenvolvimento permanecer no cronograma”, a fabricação do dispositivo começa já em 2027, com envios previstos para um período que vai do final do ano que vem até algum momento de 2028, totalizando 30 milhões de unidades no período.
Depoimentos
Marketing
“É um grande desafio, mais marketing do que realidade. A OpenAI é um dos maiores players no que se fala de IA. Mas, ao que me parece, está tentando abraçar uma série de áreas dizendo que vão fazer inovações muito grandes. Creio que é factível (lançar um celular), mas dizer que vai superar um iPhone, um Samsung, acho que é um plano muito ambicioso”.
Mudança na demanda
“Hoje você não se preocupa, por exemplo, se o seu celular tem uma boa recepção. Você se preocupa sobre quantos gigas tem de memória, qual a resolução da câmera. Mudou-se a demanda inicial, que era a voz. O que a OpenAI e outras empresas estão buscando é pivotar novamente a demanda, implementando nela assistentes de inteligência artificial muito mais eficazes. E o que outros estão começando agora, a empresa já tem um ecossistema muito mais efetivo”.
Vigilância
“Quanto mais avançado for o uso de inteligência artificial, maior tende a ser a preocupação dos consumidores sobre vigilância, perfilamento e uso indevido de dados. Por isso, competir com a Apple provavelmente exigirá não apenas inovação tecnológica, mas também um padrão elevado de governança e proteção da privacidade”.
Abrangência
“No meu entendimento, a Inteligência Artificial (IA) vai sim se consolidar como um ponto de contato primário com sistemas, tecnologias e hardware no geral. A tendência é que, cada vez mais, tenhamos uma IA generativa na borda dos dispositivos e que passemos a interagir diretamente com ela, em vez de interagir com aplicativos e sistemas tradicionais. Um ponto relevante é que a abrangência vai da computação pessoal aos sistemas corporativos”.
Desafio adicional
Um novo player não precisa copiar a Apple, mas precisa cumprir a LGPD/GDPR.
No caso de um 'agente autônomo', há um desafio adicional: como garantir que o usuário entenda e autorize cada ação que a IA executa em seu nome?
Quanto mais o aparelho decide sozinho, mais frágil tende a ficar a comprovação de consentimento informado”.
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