Psquiatra afirma: “O custo de não agir contra a depressão é muito alto”
Psiquiatra diz que o desgaste é grande não só para quem tem a doença, mas também para familiares, amigos e toda a rede de apoio
A depressão vai muito além da tristeza e pode afetar todas as áreas da vida de uma pessoa. A falta de diagnóstico e de tratamento adequado podem resultar em perda de qualidade de vida, dificuldades no trabalho e nos estudos, isolamento social, agravamento de doenças clínicas e até risco de suicídio.
Segundo a psiquiatra Tânia Corrêa de Toledo Ferraz Alves, o “custo de não agir” diante da depressão é alto não apenas para quem enfrenta a doença, mas também para familiares, amigos e toda a rede de apoio envolvida no cuidado com o paciente.
A especialista falou sobre os impactos da depressão resistente, os sinais de alerta da doença, o estigma em torno da saúde mental e a importância do tratamento adequado na 17ª Jornada de Psiquiatria da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo.
A Tribuna — O custo de não agir contra a depressão é sempre muito alto?
Tânia — Na verdade, quando a gente coloca “o custo de não agir”, eu estou pensando em não tratar adequadamente a depressão. Por que é alto? Porque quando você tem uma pessoa com depressão, você tem uma pessoa que adoece.
A depressão não é só tristeza. A pessoa diminui o rendimento no trabalho, começa a ter afastamentos, muitas vezes pensamento de morte, suicidalidade.
Você pode pensar em locais de trabalho, por exemplo. Pessoas que começam a faltar, ou vão trabalhar e não conseguem produzir, muitas vezes são demitidas. Quando a gente fala de jovens, podem perder faculdade, escola.
Esse custo se reflete em todas as áreas da vida?
Sim, inclusive na família. Se a gente pensa em uma pessoa em casa com suicidalidade, que é o pensamento de morte, de que a vida não vale a pena, ou risco de suicídio, eu tenho que pedir para a família ficar de olho. Imagina pedir para o marido, mulher, pai, mãe, filho, cuidarem dessa pessoa. Elas também começam a ter sobrecarga.
Quando a gente vê tentativas de suicídio em pacientes com depressão, imagina o impacto para todos ao redor. Filhos, companheiros, pais, falando do que é encontrar alguém nessa situação, levar para o hospital, não saber o que vai acontecer. Todo esse desdobramento vai gerando impactos.
E o custo maior, eu diria, é o suicídio. A gente está tendo no Brasil um aumento da taxa de suicídio, diferente do mundo, onde a taxa está diminuindo. Imagina o custo absurdo em termos de anos de vida perdidos. Quando a gente fala de custo, ele entra no emocional, na qualidade de vida, mas também no financeiro.
O que significa “não agir”?
A prevalência de depressão no Brasil é em torno de 10% da população. Dois terços das pessoas melhoram relativamente fácil. O problema são os que não melhoram. São aqueles que tomam um remédio, tomam dois, e nada muda.
Eu preciso pensar nos tratamentos que ela recebeu, posso pedir um exame farmacogenético para avaliar como ela metaboliza os medicamentos e pensar em outras terapêuticas.
“Não agir” pode ser simplesmente não procurar ajuda?
Muitas pessoas nem sabem que têm depressão. Acham que a vida é assim mesmo. Sem energia, sem ânimo, sem esperança. Existe a depressão muito grave, que todos reconhecem. Mas, em uma depressão leve ou moderada, a pessoa pode estar trabalhando, até do seu lado no dia a dia, porém ela passa o dia como se estivesse carregando uma mochila nas costas.
A pessoa com depressão olha o mundo de forma diferente: “eu não vou conseguir”, “vai ser difícil”. Muitas vezes ela nem reconhece que isso é um olhar alterado.
A depressão pode ser “resistente”?
Depressão leve e moderada geralmente é tratada pelo clínico geral. Dois terços das pessoas com depressão respondem com um antidepressivo, uma troca ou potencialização. O problema é esse um terço que não respondeu. São os casos que vão para o psiquiatra. Eles são mais graves. São pacientes resistentes.
Não dá para fazer “mais do mesmo”, porque eu só vou prolongando e aumentando o sofrimento. Então, quando a gente fala do “não agir”, é não pensar nessas pessoas como diferentes.
Às vezes eu já dei três, quatro remédios, mas continuo falando apenas “depressão”. E se não uso a palavra “depressão resistente”, eu não mudo a forma de tratar.
Quais podem ser as consequências para quem não trata a depressão?
Imagina uma vida sem brilho. Uma vida em que a pessoa perde a esperança. Muitas vezes ela acaba indo parar em hospital. A depressão pode aumentar doenças clínicas. Existe associação com enxaqueca, hipertensão, piora do diabetes.
Mesmo doenças sem relação podem piorar?
Sim. Uma pessoa deprimida com diabetes, por exemplo, tem mais dificuldade de tratar o diabetes. Não toma a medicação direito, não consegue seguir dieta, não adere ao tratamento. Em doença cardiovascular é a mesma coisa. Imagina alguém que infartou e não consegue fazer atividade física, não segue orientação médica.
Além disso, existem processos inflamatórios associados à depressão que aumentam o risco cardiovascular. Então a depressão interfere tanto no comportamento quanto na biologia.
Quais sinais podem indicar depressão?
A pessoa muda o comportamento. Você percebe que ela está diferente de como era antes. Muitas vezes mais sensível, mais emotiva. Dentro de casa, a pessoa fica mais reclusa, mais isolada. Recusa convites. Ela passa a ter um olhar muito negativo sobre a vida.
Existe um perfil mais suscetível à depressão?
Mulheres têm mais depressão do que homens. São cerca de duas mulheres para cada homem. A depressão atravessa todas as idades. Existe em crianças, adolescentes, adultos e idosos. No idoso, o número de homens aumenta.
Também existem famílias em que você vê agrupamento de ansiedade e depressão.
E grandes eventos podem aumentar casos de depressão. O que aconteceu em Porto Alegre, por exemplo, com as enchentes, aumentou a depressão na população por causa do aumento do estresse e do sofrimento.
Ainda existe tabu em relação à depressão?
Muito. As pessoas ainda falam: “fica alegre”, “vai fazer atividade física”, “é falta de religião”. Mas você não fala isso para alguém que quebrou a perna. Você não diz: “tira a muleta e vai correr”. A depressão é uma doença. E muitas vezes a pessoa precisa começar tratamento para depois conseguir fazer atividade física e outras mudanças que ajudam na melhora.
Como diferenciar tristeza passageira de depressão?
A tristeza geralmente está ligada a um problema específico. Você recebe uma notícia ruim, por exemplo, e fica triste. Isso é normal. Mas, com o tempo, a tendência é melhorar. Depois de alguns dias, você começa a enxergar uma saída. E, quando você sai daquela situação, consegue se distrair e ficar bem.
A depressão é diferente. Ela pode ter um gatilho ou não. Mas ela contamina tudo. Você sai do problema e continua mal. E o tempo não melhora. Por isso, às vezes, a gente espera alguns dias antes de medicar alguém que recebeu uma notícia muito difícil.
Perfil
Tânia Corrêa de Toledo Ferraz Alves
- Fez doutorado em Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Fmusp).
- É professora colaboradora do Departamento de Psiquiatria da Fmusp e diretora do corpo clínico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
- Também é coordenadora do Departamento de Psicogeriatria da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
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