Dois tubarões, duas espécies e a mesma consequência: amputações no Grande Recife
Especialistas apontam espécies distintas nos dois ataques registrados em apenas 26 horas; vítimas perderam as pernas após as mordidas
Um tubarão-tigre de aproximadamente três metros, equipado com dentes serrilhados capazes de cortar como lâminas, e um tubarão-cabeça-chata, conhecido pela mordida de enorme pressão e pela capacidade de arrancar tecidos ao sacudir a presa. Foram essas duas espécies, segundo as avaliações técnicas realizadas pelo até agora, que deixaram duas vítimas mutiladas em pouco mais de 24 horas no Grande Recife.
A estudante de Direito Marcela Vitória de Lima Santos, de 19 anos, perdeu a perna direita após ser atacada em Boa Viagem. Um dia antes, um menino de 11 anos teve a perna esquerda amputada após ser mordido em Piedade.
A sequência dos casos derruba uma hipótese que circulou nas redes sociais e entre banhistas desde o primeiro incidente: a de que um único tubarão estaria rondando a costa. As evidências apontam para dois animais distintos e de espécies diferentes, ampliando o alerta para quem insiste em entrar no mar em áreas consideradas de risco.
Roleta russa nas praias
O fato de espécies diferentes estarem envolvidas indica que o risco faz parte de uma dinâmica ecológica mais ampla da costa, e não da presença ocasional de um único indivíduo. São 33 quilômetros de litoral onde os banhistas da Praia do Paiva, no Cabo, até a Praia do Farol, em Olinda, entram no mar numa roleta russa.
Tanto o tubarão-tigre quanto o tubarão-cabeça-chata podem chegar muito perto da faixa de areia, mesmo com frequências diferentes. A estudante de direito, por exemplo, estava com água na cintura quando foi atingida por uma mordida.
Tigre e cabeça-chata: espécies diferentes, hábitos diferentes
O ataque à jovem em Boa Viagem foi atribuído a um tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier), espécie que pode ultrapassar cinco metros de comprimento, embora o exemplar envolvido no incidente tenha cerca de três metros, segundo estimativas.
Considerado um dos maiores predadores dos oceanos, o tubarão-tigre possui dentes largos, serrilhados e adaptados para cortar grandes porções de carne. É um animal oportunista, que se alimenta de peixes, tartarugas, arraias e praticamente qualquer presa que encontre.
Em entrevista à TV Tribuna PE, Danise Alves, secretária executiva do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes, o tigre tem dentes mais cortantes do que o cabeça-chata.
“O que a gente conseguiu apurar pelas imagens da lesão foi: é um tubarão-tigre, com aproximadamente três metros de comprimento, um animal adulto já de grande porte. Pelo padrão da mordida também a gente identificou, até porque foi uma amputação direta. A vítima já saiu sem a coxa direita, que se trata por conta da dentição serrilhada que perfura a pele e arranca Danise Alves, secretária executiva do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes
Já o menino de 11 anos foi atacado por um tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), espécie menor, normalmente encontrada entre dois e três metros de comprimento. Apesar do porte inferior, é considerado por pesquisadores um dos tubarões mais perigosos do mundo por sua proximidade com áreas costeiras e estuários. A espécie que mordeu o garoto tinha 2,5 metros.
Diferentemente do tigre, o cabeça-chata costuma frequentar águas rasas, desembocaduras de rios, canais e regiões próximas à praia. Sua estratégia de ataque não se baseia apenas no corte. Ele morde a presa e a segura com os dentes serrilhados.Em seguida, movimenta a cabeça de um lado para o outro com muita força. É justamente esse movimento que aumenta o rasgo dos tecidos.
O que os dois ataques revelam
A ocorrência de dois ataques graves em sequência chama a atenção por um motivo específico: os animais envolvidos ocupam nichos ecológicos diferentes.
O cabeça-chata é frequentemente associado às áreas costeiras da Região Metropolitana do Recife. Já o tubarão-tigre costuma circular por áreas mais amplas do litoral, embora também possa se aproximar da faixa de praia, como aconteceu.
Na prática, isso significa que o risco não estaria relacionado à presença isolada de um único animal, mas à circulação simultânea de espécies distintas em um trecho historicamente monitorado pelos pesquisadores.
De acordo com Segundo Danise Alves, o período chuvoso também costuma aumentar a preocupação. A água mais turva reduz a visibilidade, dificulta a percepção dos animais e altera o comportamento de diversas espécies marinhas. Além disso, o aumento do fluxo de matéria orgânica para o mar pode atrair cardumes e, consequentemente, predadores.
“A gente sabe que as pessoas... a praia é um bem, é um lazer de todos, né? E de muitas pessoas, inclusive, é talvez o único. Mas, de maio a junho, por exemplo, são os meses que mais têm incidência. A atenção precisa ser redobrada” Danise Alves,
Ataque em Boa Viagem deixou jovem em estado grave
Segundo testemunhas, a jovem foi retirada da água pelo primo, Jonas Andrée ajudada por outros banhistas. Ela sofreu intensa perda de sangue e recebeu os primeiros socorros ainda na areia. Um médico mineiro que estava na praia ajudou a realizar um torniquete até a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
A vítima foi levada inicialmente para o Hospital Alfa e posteriormente transferida para o Hospital da Restauração.
De acordo com o diretor-geral da unidade, Petrus Andrade Lima, ela chegou em choque hemorrágico e foi encaminhada diretamente para cirurgia de emergência. Após o procedimento, foi internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Menino teve perna amputada após ataque em Piedade
O caso do menino de 11 anos ocorreu um dia antes, na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes.
Ele também sofreu ferimentos gravíssimos e teve uma das pernas amputada em consequência da mordida. O Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) informou que as análises apontaram o tubarão-cabeça-chata como responsável pelo ataque.
Pernambuco soma 84 registros desde 1992
Dados do Cemit mostram que Pernambuco contabiliza agora 84 incidentes envolvendo tubarões desde o início da série histórica, em 1992.
Boa Viagem lidera o número de ocorrências, seguida por outras áreas da Região Metropolitana. Recife e Jaboatão dos Guararapes concentram a maior parte dos registros.
A sucessão de ataques em pouco mais de um dia envolvendo duas espécies diferentes e resultando em amputações, reforça o alerta que pesquisadores repetem há décadas: as áreas sinalizadas devem ser respeitadas e a entrada no mar em locais de risco continua representando uma ameaça real.
(Matéria em atualização)
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