“Você tem que se virar, fazer acontecer”, afirma a rapper capixaba Budah
A capixaba Budah fala ao AT2 sobre a luta para realizar sonho, o novo disco com nomes como Iza e Pabllo Vittar e estreia no Rock in Rio
Composições vulneráveis até podem ter sido um dos ingredientes que fizeram de Budah uma das principais cantoras de música urbana da atualidade. Mas, em “Frequência Lunar”, seu recém-lançado 2º álbum, ela surge bem dona de si, cheia de poder!
“Estou mais poderosa e madura! Hoje, eu sei da importância que meu trabalho tem. Às vezes, você escuta uma frase numa canção que muda totalmente sua mentalidade, a história da sua vida ou melhora sua autoestima”, observa ao AT2.
Retratando as vivências de uma artista capixaba em São Paulo, onde mora há 2 anos, o projeto chega cerca de 3 meses de sua estreia no palco do Rock in Rio e traz letras escritas por uma mulher negra perto dos 30 anos.
Nascida em Vila Velha, mas criada em Cariacica, ela é filha de sambista e conquistou uma legião de fãs cantando um ritmo, por vezes, marginalizado. Hoje, atinge 2,2 milhões de ouvintes mensais apenas no Spotify.
“Comecei muito cedo a cantar no karaokê com o meu avô e todo mundo já ficava meio que 'essa menina tem algo'. O sonho da minha mãe era que eu cantasse na igreja, mas não era uma parada que me preenchia. Me encontrei no rap”.
Para além dos versos, Budah se preocupou com o uso de graves e agudos nas músicas e, por ser um disco com atmosfera noturna, usou a Lua como referência na hora de avaliar as sensações causadas por cada uma delas.
“A frequência de som atinge diretamente o corpo do ser humano, assim como as fases da Lua. E os sentimentos que esses dois elementos traziam faziam total sentido com o que cada faixa queria dizer”, explica o título.
Foram recrutados artistas de peso dentro da cena pop e da música urbana para acompanhar a cantora na nova era: Pabllo Vittar, Duquesa, Tasha & Tracie, Ajulliacosta, Iza, Vita e Franco, The Sir!. O último convidado também esteve por trás da produção, ao lado de outros 12 nomes.
Antes do Rock in Rio, em agosto, ela reencontra o público do Espírito Santo no Movimento Cidade. “São shows com convidados, portanto, exclusivos”.
“Você tem que se virar, fazer acontecer”
AT2 — Com que frequência você tem vindo ao Espírito Santo?
Budah — Não consigo ficar três meses sem ir. Se eu pudesse, não teria saído do Espírito Santo, mas a gente tem que fazer alguns sacrifícios para o “corre” dar certo...
Em agosto, você canta no Movimento Cidade. Ansiosa para esse reencontro?
Sim. O público sempre me abraçou muito e eu nunca ignoro que sou daí. Muito pelo contrário, sempre estou dizendo que aí tem potências vocais incríveis, além do Dudu e do Cesar MC. Tem muita gente fazendo MPB, forró, funk e reggae muito bem. É um estado muito rico culturalmente.
No mês seguinte, estreia no “Rock in Rio”. Sempre sonhou com esse momento?
A gente trabalha para estar nos maiores festivais, mas é um “choque” ainda. Poxa, eu vim do Espírito Santo, sou uma artista preta e periférica que canta rap, então acho que era muito distante para mim pensar na possibilidade de ocupar esse lugar, sabe?
Mas é muito maravilhoso. Você sente que seu sonho está dando certo, que a galera está abraçando seu trabalho.
Qual foi o grande momento de “Púrpura”, seu 1º álbum?
Fiquei muito realizada quando a gente saiu do País com essa turnê. Além de tocar no “The Town” e no “AfroPunk”. Além de tocar no “The Town” e no “AfroPunk”, onde cantei junto com Wyclef Jean.
O que espera de “Frequência Lunar”?
A meta é sempre alcançar mais pessoas. Acho que o meu trabalho na terra é conseguir fazer com que as pessoas que me escutam se sintam valorizadas, corajosas, fortes, com a auto-estima lá em cima.
O que “Frequência Lunar” tem de semelhante e de diferente em relação à “Púrpura”?
De semelhante tem eu, porque não tem como ir para um outro lugar. Mas hoje, me vejo muito rica culturalmente e sinto que consigo fazer muito mais coisas do que as pessoas esperam de mim, né?
Nesse álbum, eu me arrisquei mais, trouxe feats inéditos. “Submundo”, com Vita, foi a que mais me arrisquei. É uma música que vai render muita jogação de leque.
Mas em “Púrpura”, eu sou uma pessoa muito mais romântica, era a fase que eu estava vivendo. E, agora, sou uma artista um pouco mais desinibida, sem vergonha. Minha postura no palco é diferente. Então eu queria muito que “Frequência Lunar” conversasse com o meu novo eu. Agora, quero que todo mundo dance!
“Púrpura” trouxe um grande time de compositores e produtores. Também trabalhou com muitos nomes neste novo projeto?
Adorei compor com pessoas diferentes no meu 1º álbum, então quis trazer também um time de compositores e produtores para somar comigo. Eu queria muito ir às festas e escutar minhas músicas, então passei esse dever de casa para eles. Eu tinha uma expectativa sobre o resultado do projeto, mas ela foi superada.
E qual foi a parceria mais sonhada desse novo álbum?
Sou fã de cada um que está envolvido no projeto. Mas acho que a parceria que a galera menos imaginou era a com Pabllo Vittar.
Dei algumas opções de música e ela escolheu a que eu menos esperava. Então, acho que ela se arriscou e sonhou junto comigo. E eu nem sabia que ela me conhecia, só para você ter noção.
O convite partiu de você?
A história é muito louca! Eu sonhei que chamava a Pabllo para o meu álbum e ela me bloqueava. No dia seguinte, a gente se trombou no estúdio, e escrevi no “X”: “Gente, a Pabllo está do meu lado e sonhei com ela essa noite, só pode ser um sinal”. O post furou a “bolha”, o público começou a pedir o feat e o empresário dela disse que era possível de acontecer.
Fiquei: “Meu Deus”. E, na semana que eu estava finalizando o álbum, ela se propôs a entrar e enriquecer ainda mais o projeto.
Como enxerga esse momento da mulherada no rap?
É um momento lindo. Eu fico muito feliz de fazer parte dessa geração que está fazendo história. A gente sempre se enxergou nesse lugar, mas o público demorou para entender que, com pouco, a gente conseguia fazer muito.
São mulheres que têm cantado sobre sexo. Fala abertamente sobre isso nesse disco?
Não de forma explícita porque eu não me sinto tão confortável, não me imagino falando certas coisas. Mas não tem como ignorar esse tema, porque o álbum é sobre uma pessoa que vive uma noite intensa. Só que tudo depende da música e da proposta dela. Tem faixa que eu falo de sexo de forma mais apimentada, mas sempre de uma forma bem Budah.
Sente-se pressionada a entregar muito mais no seu trabalho por apenas ser mulher?
Sim, e acho que essa cobrança vem por ser uma mulher preta, né? Você tem que se virar, mudar sua vida, fazer acontecer. Mas se for comparar a cena para mulheres e homens, a diferença é muito gritante. Com pouco recurso, a gente tem que fazer muito mais para aparecer. O cachê, tamanho de equipe, de palco, pedidos de camarim... é gritante a diferença.
E tem a cobrança comigo mesma. Tenho medo de voltar a viver algumas coisas, como ver minha família morando numa casa ruim, ou de perder as oportunidades que aparecem.
A canção “Vida de Artista” é sobre essa capixaba que conquistou o Brasil?
O álbum todo é sobre uma capixaba morando em São Paulo. Nessa música, trago o glamour do sucesso. É tipo: “meu Deus, chegamos nesse lugar, então vamos aproveitar cada drinque, camarim...”.
Mas tem “Ponto Mais Alto”, que finaliza o álbum. Nela, falo sobre tudo que eu tive que perder, o estado e a família que eu deixei para viver o meu sonho.
Serviço
“Frequência Lunar”
- Artista: Budah
- Faixas: 14
- Gravadora: Universal Music
- Preço: R$ 19,90 (digital)
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