Canetas para perder peso: médicos alertam para riscos de remédio ilegal
Médicas alertam para contaminação, dosagem incerta e efeitos graves; PRF relata aumento de apreensões no ES e nas estradas
Prometidas como solução rápida para emagrecer, as chamadas “canetas emagrecedoras” vendidas no mercado clandestino podem esconder riscos graves à saúde.
Médicos alertam que produtos sem procedência conhecida podem estar contaminados, adulterados ou até conter substâncias desconhecidas.
A presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional Espírito Santo (SBEM-ES), Maria Amélia Sobreira Gomes Julião, afirmou que tem acompanhado com muita preocupação o uso indiscriminado desses medicamentos, não só por estarem sem acompanhamento médico, mas também pelo crescente aumento de seu mercado ilegal.
“Esses medicamentos não são – na grande maioria das vezes – somente o produto descrito. Além disso, não contêm a dose exata e podem ainda conter contaminantes como fungos e bactérias. Quando não corretamente armazenados, podem perder a estabilidade das moléculas, alterando sua eficácia”.
Ela destacou que reações gastrointestinais graves, pancreatite aguda, reações alérgicas, palpitações, hipoglicemia grave, insuficiência renal aguda, toxicidade hepática e abscessos são complicações descritas com essas substâncias.
A médica endocrinologista Gisele Dazzi Lorenzoni ressaltou que o principal problema dos medicamentos – como a tirzepatida – vendidos de forma ilegal é que não se sabe a real procedência deles.
“Não sabemos a procedência da matéria-prima, qual a pureza, qual concentração, como são armazenados. Não tem um controle estabelecido em cima dessas medicações. Existe, ainda, um risco de contaminação”.
Em relação à retatrutida, também encontrada nas apreensões, o problema é ainda mais grave. “Essa é uma substância que ainda nem está liberada para uso. Não foi aprovada por nenhuma agência regulatória de saúde no mundo, já que está em fase 3 de estudo. Nesse caso, não sabemos nem o que está sendo comercializado”.
Substâncias escondidas até em pneus e doces
O combate ao contrabando e à venda das chamadas “canetas emagrecedoras” ilegais – principalmente vindas do Paraguai – tem sido reforçado nas estradas do País. Há registros de apreensões até mesmo dentro de pneus de carro e junto a doces – o que acende o alerta para o armazenamento das substâncias durante o transporte.
No ano passado, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu quase 300 ampolas de tirzepatida dentro do estepe de um veículo abordado.
No Espírito Santo, a PRF também vem realizando apreensões. Em janeiro, um motociclista abordado na BR-101, na Serra, foi flagrado com uma mochila contendo diversos medicamentos e substâncias de uso controlado e anabolizantes, entre eles frascos de tirzepatida, drostanolona, estanozolol e retatrutida.
O inspetor de comunicação da PRF, Wylis Lyra, explicou que o combate a esse tipo de crime tem sido feito com apoio da equipe de inteligência e integração entre forças de segurança de diferentes estados.
De acordo com Lyra, a preocupação das autoridades aumentou com o crescimento da procura pelas chamadas canetas emagrecedoras, comercializadas de forma clandestina.
“Antes você apreendia uma ou duas unidades. Agora as quantidades têm aumentado bastante”, destacou.
Ainda segundo o inspetor, o transporte irregular também agrava os riscos para os consumidores, já que muitos medicamentos precisam de armazenamento adequado, o que não acontece no contrabando.
Riscos
Procedência desconhecida
- Não há garantia sobre a origem da substância usada na fabricação nem sobre a qualidade da matéria-prima utilizada.
- O produto pode não conter o medicamento anunciado ou trazer substâncias diferentes das informadas na embalagem.
Contaminação
- Como não existe controle sanitário adequado, há risco de contaminação durante a fabricação, o armazenamento ou o transporte.
Dosagem incorreta
- A concentração da medicação pode estar abaixo ou acima do indicada, aumentando o risco de ineficácia ou de reações graves.
Armazenamento inadequado
- Muitas dessas canetas precisam de refrigeração e controle de temperatura. O transporte irregular pode comprometer a estabilidade da substância.
Efeitos colaterais intensos
- Médicos relatam casos frequentes de náuseas, vômitos, mal-estar e desidratação.
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