Brasil atinge maior IDH da história, impulsionado por políticas sociais
Levantamento do Pnud mostra avanço de 0,744 (2012) para 0,805 (2024) e aponta educação e Bolsa Família como fatores centrais
O Brasil ingressou, pela primeira vez, na categoria de países com desenvolvimento humano “muito alto”. Em 2024, o país alcançou 0,805 no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), ante 0,744 em 2012. A escala vai de 0 a 1, e a classificação “muito alto” corresponde a valores acima de 0,800.
Os dados são do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) Brasil, que divulgou nesta terça-feira (26) a pesquisa Radar IDHM. O estudo considera o período de 2012 a 2024 e analisa evolução e desigualdades do indicador.
O IDHM avalia saúde e longevidade, educação e renda. O levantamento também observa recortes por cor (negros e brancos) e por sexo (mulheres e homens), para identificar onde os avanços foram mais intensos e onde persistem diferenças.
Há 30 anos, quando o programa começou a calcular o índice, o Brasil era classificado como país de IDHM baixo, abaixo de 0,555.
Educação puxa avanço do índice
O parâmetro que mais impulsionou o IDHM no período foi a educação, que passou de 0,679 em 2012 para 0,798 em 2024.
A coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Pnud Brasil, Betina Barbosa, destacou a contribuição do Bolsa Família nesse contexto. “É o programa Bolsa Família que retira quantidade enorme de crianças do trabalho e dá a elas a condição da escola e a obrigatoriedade, também, de estar na escola. Então, aqui vejo diretamente o efeito de uma política pública brasileira.”
Segundo a coordenadora, o programa, criado em 2003, tende a produzir efeitos mais evidentes cerca de dez anos depois, quando beneficiários completam uma etapa mais longa de escolarização, do ensino fundamental ao médio.
Na avaliação da especialista, a melhora dos indicadores educacionais foi mais significativa entre famílias de menor renda, especialmente as negras. “É aqui que a população negra começa a apresentar melhores indicadores, melhor performance em educação. Então, a política pega um grupo que estava excluído e bota esse grupo para dentro do diálogo do desenvolvimento humano. Isso acontece a partir de 2016 de forma ascendente.”
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Desigualdades e desafios pós-pandemia
Betina Barbosa afirmou que não há alternativa para elevar o desenvolvimento brasileiro sem incluir a população negra na agenda de políticas públicas — e indicou que o mesmo vale para as mulheres. “Esses são dois entraves sérios para o Brasil, a desigualdade de raça e a desigualdade de gênero.”
Entre os subíndices, a saúde já apresentava desempenho de “muito alto desenvolvimento” em 2012 (0,829), atribuída à consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) desde a Constituição de 1988. Ainda assim, foi o componente de crescimento mais lento, chegando a 0,860 em 2024. Já a renda avançou em menor velocidade: de 0,732 em 2012 para 0,760 em 2024, mantendo-se no patamar de alto desenvolvimento.
O Pnud também aponta que as regiões metropolitanas concentram os melhores indicadores e ajudam a elevar a média nacional. Estados do Sul e do Sudeste já registram níveis muito altos, mas a pesquisa destaca a mudança em áreas antes vistas como “periferia” do desenvolvimento. Um exemplo citado é a Grande Teresina (PI), com 0,809. Entre os nove estados do Nordeste, sete regiões metropolitanas já aparecem com IDH muito alto — cenário considerado inédito nos trabalhos do Pnud.
O estudo ainda destaca os impactos da pandemia de covid-19: entre 2020 e 2022, o Brasil enfrentou uma crise sistêmica e, em 2021, o IDHM chegou a 0,757. Para a especialista, o mais grave foi a demora em reconhecer o tamanho do impacto e reagir com políticas públicas. “Essa negação e esse não envolvimento rápido com a criação de políticas públicas que combatam crises sistêmicas, isso é muito grave”, disse. “Ainda não nos recuperamos aqui, em termos de esperança de vida, do baque da covid-19”, acrescentou. Segundo o Pnud, a mortalidade infantil é um dos indicadores que mais preocupam e exige resposta rápida.
Os resultados do Radar IDHM foram calculados com base em dados da Pnad Contínua, do IBGE, em parceria com a equipe técnica e pesquisadores da Fundação João Pinheiro.
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