"Preço acessível não tira o status", diz criador da Konyk
José Carlos Bergamin diz que itens populares também podem ser símbolo de prestígio quando têm propósito e personalidade
Um empreendedor que é ícone da moda capixaba, com amplo conhecimento no comércio, atuação na indústria e atuação como liderança empresarial.
José Carlos Bergamin, fundador da Konyk, compartilhou sua história e seu conhecimento com o programa Histórias Empresariais e cravou: um produto barato também pode ter status, citando as sandálias brasileiras, feitas de borracha e consumidas em todo o planeta, por pessoas de todas as classes sociais.
Vice-presidente da Federação do Comércio do Espírito Santo (Fecomércio-ES), José Carlos Bergamin falou sobre consumo masculino, sucessão empresarial, varejo regional, design, e-commerce e a experiência de ter ficado retido no Oriente Médio durante a guerra iniciada no final de fevereiro.
Assista abaixo a entrevista completa
Parte da entrevista está no texto a seguir.
A Tribuna — Qual é hoje a estrutura da Konyk?
José Carlos Bergamin — No passado, tivemos venda via multimarcas, mas entendemos que o caminho era fortalecer a rede própria e de franquias regionalmente. Hoje, operamos fortemente no Espírito Santo, com influência em Minas e no sul da Bahia.
Todo o desenvolvimento fica em Vila Velha, no micropolo de confecções de Santa Inês, mas usamos parceiros de vários estados. São 25 lojas, e a empresa já passa por uma sucessão familiar. Temos um conselho formado por mim, minha mulher e meus dois filhos, cada um em uma área da operação.
A Konyk parece ter um estilo variado. É uma escolha?
No passado, a orientação de marca era muito focada em um público extremamente recortado, mas é preciso olhar o mercado em que se opera.
Em endereços muito qualificados dos shoppings, as lojas são altamente especializadas. Em bairros, o lojista precisa vender de tudo, porque trabalha em um comércio horizontalizado. Então precisei abrir mais o leque.
Hoje, um jovem usa a marca, mas também uma pessoa mais madura, e o consumidor quer sair da academia, trabalhar e sair à noite usando praticamente a mesma roupa. Lá atrás, eu já tinha uma visão próxima do que se defende hoje: não ser absolutamente exclusivo sem perder identidade de marca.
A exclusividade não está necessariamente ligada ao preço?
Não. Há sandálias de borracha muito baratas que são grandes marcas mundialmente reconhecidas. Isso não tem relação direta com o preço. A marca perde o status quando não tem propósito claro e direção clara.
O senhor percebeu mudanças no comportamento masculino ao longo do tempo?
Quando comecei, especialmente na Grande Vitória, a sociedade estava mudando, e aquela ideia de que homem não podia usar rosa ou uma roupa mais delicada começava a cair. Então, entendi que precisava ter preço para atingir um público grande, mas também muita qualidade, porque o homem exige isso.
Se cai um botão, vira uma confusão. E como ninguém segue etiqueta de lavagem, o produto precisa resistir em condição crítica.
Uma característica da Konyk é a exclusividade das peças?
Se não tivéssemos cuidado, teríamos muitas pessoas vestidas iguais. Como temos 25 lojas em um território relativamente pequeno, não posso fazer lotes grandes. Muitas vezes, pedem para repetir uma peça que vendeu toda, mas aproveitamos a ideia e criamos outra diferente. A roupa precisa ter personalidade.
Por que o senhor escolheu atuar no mercado masculino?
Havia carência de mercado. Existia muita roupa masculina grosseira, básica e sem design. Entramos com design.
Somos uma das poucas empresas do Brasil que se propõem a fazer moda masculina com detalhes, acabamentos e algo diferente.
Além disso, no varejo há dezenas de lojas femininas bem estruturadas, mas poucas masculinas.
Existe interesse em atuar mais no feminino?
Toda empresa feminina que tenta vender masculino sem identidade masculina acaba se perdendo. Da mesma forma, lojas masculinas que tentam vender feminino geralmente vendem produtos mal resolvidos, a não ser que sejam grandes lojas de departamentos.
E sobre públicos específicos, como o público LGBTQIA+?
No ambiente da moda, isso sempre foi tratado com naturalidade. Grandes estilistas mundiais têm essa característica. Nunca tivemos qualquer problema com isso.
Mas não acredito em segmentações que acabem segregando as pessoas. Não acho interessante criar “a loja dos homossexuais”, “a loja disso ou daquilo”. O ideal é convivermos todos juntos. O nosso papel é produzir roupas que atendam diferentes estilos e públicos.
Para encerrar, qual mensagem o senhor deixa para quem empreende?
Já passamos por tudo neste País. Década de 1970, década de 1980, crises de toda natureza. Não temos que nos sentir ameaçados. Ameaça intimida. Ameaça dá medo. Temos que nos sentir desafiados.
Desafio é estímulo. Desafio é energia. Desafio é vontade de vencer. Vamos vencer mais essa. Depois virão outras. É assim.
Estamos no Brasil.
Quem é?
José Carlos Bergamin
Fundador da marca capixaba de moda masculina Konyk
Vice-presidente da Fecomércio-ES
Ex-vice-presidente da Findes
Atua no comércio desde que tinha 12 anos de idade
Nasceu em Resplendor (MG), mas tem “vida capixaba”
Casado com Iná Maria Mendes Bergamin. Cidadão italiano, tem como hobby viajar, sobretudo para a Itália.
Curiosidades
“Sobrevivente” da guerra
José Carlos Bergamin relatou a experiência de ter ficado retido no Oriente Médio durante a guerra. Ele contou que viajou para Dubai e precisou ficar no navio após o agravamento da situação na região. Mesmo diante da tensão, conseguiu circular discretamente pela cidade e definiu Dubai como “outro mundo”. Disse ainda que pretende voltar quando o cenário se estabilizar.
Varejo no centro de Vitória
José Carlos Bergamim contou que veio para Vitória aos 26 anos fundar a DIT, na avenida Jerônimo Monteiro. A loja foi pioneira na venda de roupas prontas masculinas em uma época em que o hábito enfrentava resistência. Bergamim disse que a empresa criou um cartão de crédito eletrônico na década de 1970 e marcou sua trajetória no varejo antes da criação da Konyk.
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