Cirurgia devolve visão a quem tem até 30 graus de miopia
Substituição de partes do olho e cirurgias a laser são algumas técnicas utilizadas, atualmente, para tratar problemas de visão
Siga o Tribuna Online no Google
Não conseguir ver o próprio reflexo em um espelho, andar de ônibus, cozinhar, reconhecer as pessoas na rua e realizar tarefas simples do dia a dia: esse é um resumo de como era a vida de Ângela Conceição, de 54 anos, que chegou a ter 30 graus de miopia.
Todas essas dificuldades eram causadas por uma condição com a qual ela convivia desde a infância. “Descobri aos 7 anos. Na época, fui ao médico e constatei que estava com 3,5 graus de miopia”, relata Ângela.
Com o passar dos anos, a visão dela foi piorando. Aos 32, ela chegou aos 23 graus. Em 2024, o problema se agravou e ela desenvolveu 30 graus de miopia.
“Eu não enxergava com nitidez e não conseguia perceber a profundidade das coisas. Se alguém fizesse sinal para mim, na rua, não veria”, pontuou.
Os avanços da medicina e da tecnologia permitiram o desenvolvimento de novas técnicas para tratar pacientes com graus elevados.
Em março deste ano, o oftalmologista do Hospital dos Olhos de Vitória, Pedro Trés Vieira Gomes, fez uma cirurgia para corrigir a miopia de Ângela.
“De 10 anos para cá, técnicas mais modernas foram desenvolvidas para correções na vista. O diferencial delas é, principalmente, a rapidez na recuperação do paciente”, explicou.
Segundo o especialista, a cirurgia feita em Ângela é chamada de facoemulsificação. Ela se recuperou em apenas quatro dias após a intervenção.
“Essa operação é feita em pacientes que possuem catarata. Porém, pode ser realizada em pacientes que ainda não desenvolveram a condição, mas que possuem miopia. O objetivo final, nos dois casos, é o mesmo: trocar o cristalino, lente natural do nosso olho, por uma lente artificial”, afirmou o oftalmologista.
Procedimentos
De acordo com a oftalmologista Marília Vilas-Boas, outro procedimento com técnicas avançadas e que tem ajudado no tratamento da visão é a cirurgia a laser.
“Essa técnica é menos invasiva, porém só pode ser feita em pacientes que possuem até 10 graus. É importante lembrar que, de ano a ano, a oftalmologia evolui e consegue curar mais pessoas”, pontuou o especialista.
O tipo de cirurgia feita em Ângela Conceição traz outros benefícios, além da redução do grau, explica Marília.
“O paciente não desenvolve catarata e viverá o resto da vida com o grau que restou após a operação”, esclarece.
Ângela conceição, paciente com miopia
“Estou indo atrás dos meus sonhos”
A Tribuna — Como você descobriu que era míope?
Ângela Conceição — Percebi enquanto catava feijão, aos 7 anos de idade. Eu precisava colocar os grãos muito perto do rosto para identificar se estavam bons ou não.
E como foi o tratamento, inicialmente?
Eu usava óculos até os 18 anos. Depois passei a usar lentes de contato, pois meu grau estava tão alto que não tinha mais armação que aguentasse segurar as lentes do meus óculos.
Você conseguiu se adaptar às lentes?
Sim, consegui. Porém, era totalmente dependente das lentes. Eu ficava o dia inteiro com elas. Às vezes, chegava a dormir de lente, o que não é recomendado pelos médicos. Mas eu queria acordar e conseguir enxergar as coisas ao meu redor.
Como era a sua rotina, tendo que lidar com um problema tão sério de visão?
Eu não conseguia fazer tarefas simples do meu cotidiano, como lavar o banheiro da minha casa ou cozinhar. Não enxergava a sujeira nem a comida na panela. Também dependia de o meu marido me levar aos lugares, já que não conseguia pegar ônibus.
E qual era o sentimento, diante disso tudo?
Era bem ruim. Eu me tornei uma pessoa muito fechada, tinha vergonha de falar com as pessoas, porque sabia que não conseguiria reconhecê-las depois. Até na igreja eu era reservada e não falava muito com os outros. Eu só memorizava a fisionomia dos mais próximos, como minha família. Só não entrei em depressão, porque tinha uma rotina cheia, com muitos afazeres.
O que você deixou de fazer devido à miopia?
Muitas coisas. Deixei vários sonhos para trás, como, por exemplo, minha carteira de motorista. Sempre quis ter minha autonomia e dirigir para os lugares que desejasse. Outro sonho que não conseguia realizar antes era fazer um curso de estética.
Teve alguma coisa que você só descobriu após fazer a cirurgia?
Eu não sabia que tinha rugas no meu rosto. Quando passei a enxergar melhor, vi como eu tinha mudado com o tempo. Eu não conhecia meu próprio rosto. Também descobri que a cruz que fica na Praça do Papa é branca. Antes da operação, certa vez fiz um passeio por lá e não soube identificar a cor exata do monumento.
Como você está hoje?
Eu operei em março de 2026, então já tenho algum tempo de recuperação. Agora, tenho 2,25 graus de miopia em um olho e 3,25 no outro. Além disso, tenho um pouco de astigmatismo. Mesmo assim, minha visão melhorou muito. Não tem comparação ao que era antes. Agora, eu pretendo fazer óculos para me ajudar com esse grau restante, mas não é nada grave, apenas um suporte.
Diante de tudo que passou, qual a mensagem você gostaria de deixar?
Que as pessoas olhem mais para esses tipos de deficiência. Fala-se muito em prevenção, mas não em como buscar ajuda, como acolher quem enfrenta essas condições. Hoje, eu enxergo porque consegui pagar pela cirurgia. Mas há quem não tenha essa opção e passe por dificuldades piores do que as que eu passei. Além disso, é importante valorizar a saúde da visão, estar em dia com os exames e ter um bom médico.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários