A visita de Lula aos EUA
Reunião entre os presidentes ocorreu sem atritos, discutiu comércio, tarifas e cooperação estratégica entre Brasil e Estados Unidos
José Vicente de Sá Pimentel
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Sem dúvida, a primeira reação depois do encontro de Lula e Trump é de alívio. Dada a imprevisibilidade do anfitrião e a lembrança da acolhida que deu a Zelensky, Cyril Ramaphosa e aos líderes europeus, a eventualidade de uma armadilha não podia ser descartada. Mas, ufa, tudo correu dentro da disciplina diplomática, tudo tão discreto que a cobertura jornalística ficou pálida, carente de furos e de nhenhenhéns.
Lula conhece bem a Casa Branca. Esta foi a sua sexta visita oficial aos EUA, desde o primeiro mandato, e o terceiro encontro pessoal com Trump, desde a Assembleia Geral da ONU do ano passado. Os americanos capricharam no figurino, estenderam tapete vermelho à entrada e acomodaram mudanças no protocolo, eliminando a entrevista conjunta dos presidentes na Sala Oval e passando a entrada da imprensa para depois das conversas entre as partes.
Conversas que se estenderam por 3 horas, o que não é comum pelos padrões trumpistas. Como também não é comum o alto calibre das delegações, em que figuravam, pelo lado americano, o vice-presidente, os secretários do Tesouro e do Comércio e o chefe de gabinete da Casa Branca e, pelo brasileiro, os ministros das Relações Exteriores, Fazenda, Minas e Energia, Justiça e Desenvolvimento.
Pelos relatos disponíveis, não houve menção a assuntos controvertidos, como a possibilidade de considerar o CV e o PCC como organizações terroristas, ou a classificação do Pix como prática comercial desleal. Como em qualquer negociação com os EUA, o comércio bilateral teve papel predominante.
A presença na delegação americana do embaixador Jamieson Greer, chefe do Escritório de Representação de Comércio dos EUA (USTR), garantia uma defesa agressiva da investigação, em curso nos EUA, baseada na seção 301 da Lei de Comércio. A ação envolve o mercado de etanol, supostos cerceamentos às Big Techs no Brasil e até a venda de produtos falsificados no comércio da Rua 25 de Março, em São Paulo.
Ocorre que o Brasil tem bons argumentos para pleitear o encerramento da investigação e a eliminação das tarifas impostas por Trump. O superávit comercial americano dobrou, embora a corrente comercial, no acumulado do corrente ano até abril, tenha diminuído quase 15 por cento. Enquanto isso, as exportações brasileiras para a China registraram um aumento superior a 25 por cento no mesmo período, o que há de ser um sinal preocupante para os EUA. Ao derrubar o tarifaço imposto por Trump no ano passado em fevereiro, a Suprema Corte americana adicionou mais um ingrediente a essa questão, e diante disso tudo a melhor solução é mesmo constituir um grupo de trabalho, com técnicos dos dois lados, para discutir as tarifas em vigor e encaminhar soluções mutuamente aceitáveis.
Ao tratar dos recursos naturais estratégicos do Brasil, Lula se beneficiou da recente aprovação, pela Câmara dos Deputados, da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Após a aprovação pelo Senado, esta constituirá a base regulatória para destravar investimentos no setor. Com isso, passamos o recado de que o país está aberto a investimentos americanos, salvaguardando nosso legítimo interesse em processar os minerais críticos com outros parceiros, entre os quais, naturalmente, a China.
Em sua conversa com os jornalistas na embaixada brasileira em Washington, Lula sublinhou a avaliação de que Trump gosta do Brasil. É bom que goste mesmo, porque os dois países têm tudo para se beneficiar de uma cooperação esclarecida, respeitosa e sem exageros partidários ou ideológicos. Os EUA já têm problemas suficientes em outras regiões e não deveriam prescindir da cooperação com o Brasil, que é um agente de estabilidade na América do Sul.
Urge criar condições para tratar, por exemplo, da situação na Venezuela. A retirada de Maduro não resolveu os problemas do país vizinho — com o qual, é bom lembrar, temos 2.200 km de fronteira seca. Embora a Constituição venezuelana, que continua em vigor, estabeleça regras sobre a sucessão, nenhuma decisão foi tomada até agora pelo governo Delcy Rodríguez. A indefinição já está provocando manifestações públicas nas ruas de Caracas. A questão precisa ser encaminhada com urgência, e é oportuno e aconselhável que as duas principais chancelarias das Américas conversem e chancelem um encaminhamento diplomático para o assunto.
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