O rastro de sangue no Quati: o feminicídio que a vizinhança viu nascer
O machismo faz mais uma vítima: o companheiro mata Maria do Socorro dentro de casa; especialista aponta falência do sistema preventivo
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O silêncio na Rua 4 do bairro Quati, em Petrolina, foi rompido não apenas pelos gritos, mas pelo peso seco de um pedaço de madeira contra a vida. Dentro de um quarto fechado, onde o afeto deveria ser morada, Raimundo Júnior, de 35 anos, empunhou um pau para encerrar os dias de Maria do Socorro Cleonice de Oliveira, de 46 anos.
O homem, que dividia o teto com a vítima há apenas quatro meses, confessou o crime à Polícia Militar na noite desta quinta-feira (7). Ele não apenas a matou; ele destruiu o rosto e a dignidade de quem, segundo a irmã, Maria do Carmo, já vivia sob o jugo de um comportamento violento.
O cenário encontrado pelos policiais era a fotografia de uma tragédia anunciada. Vizinhos relatam que, nos parcos 120 dias de convivência sob o mesmo teto, o relacionamento abusivo era matéria exposta. Maria do Socorro era prisioneira de uma rotina de ciúmes e controle, um roteiro que se repete nas estatísticas policiais de Pernambuco com a precisão de um relógio quebrado. Ele já tinha antecedentes criminais na Lei Maria da Penha. E alegou, em depoimento, que ela o havia traído (versão dele sem confirmação).
A posse como combustível da morte
O caso de Petrolina expõe as vísceras do machismo estrutural. Segundo estudos do Dr. Sandro Sayão - professor da UFPE e pesquisador sobre violência, o feminicídio não nasce no golpe - mas na ideia de propriedade. Para o doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e pós-doutorado pela Université de Paris, o agressor não enxerga a mulher como um sujeito, mas como um objeto de sua posse. O ciúme, nesse contexto, não é um excesso de amor, mas a manifestação de um poder que, quando desafiado, recorre à eliminação física do outro.
A curta duração do convívio na mesma casa — apenas quatro meses — reforça o que mestres em sociologia da região apontam como o "ciclo de isolamento". O agressor ocupa o espaço da vítima, afasta os conselhos familiares, como os que Maria do Carmo tentou dar à irmã, e estabelece uma ditadura doméstica. Em Pernambuco, o feminicídio ainda é uma chaga aberta que desafia as políticas públicas de acolhimento.
A justiça diante da confissão
Raimundo Júnior não negou o ato. Diante da autoridade policial, admitiu o feminicídio. A Polícia Civil de Pernambuco, por meio da 25ª Delegacia de Homicídios de Petrolina, formalizou a prisão em flagrante. "O suspeito foi capturado e conduzido à delegacia para os procedimentos legais, ficando à disposição da Justiça", informou o órgão em nota oficial. Enquanto o processo segue, a Rua 4 tenta digerir o horror de ter tido, entre seus muros, o palco de um crime que a sociedade ainda não aprendeu a evitar.
Saiba onde buscar ajuda e como denunciar a violência contra a mulher em Pernambuco
Romper o ciclo da violência exige apoio e informação segura. Em Pernambuco, existem canais específicos que funcionam 24 horas para acolher, orientar e proteger mulheres em situação de risco.
Canais de Emergência e Denúncia
190 (Polícia Militar): Para situações de emergência imediata. Se a agressão está acontecendo ou acabou de ocorrer, ligue imediatamente.
180 (Central de Atendimento à Mulher): Canal nacional gratuito e anônimo. Oferece orientação sobre direitos e serviços públicos, além de registrar denúncias que são encaminhadas aos órgãos competentes.
0800 281 8187 (Ouvidoria da Mulher de PE): Canal estadual específico para orientação e acolhimento. A ligação é gratuita.
Onde registrar a ocorrência
Em Pernambuco, a mulher pode procurar qualquer delegacia, mas o atendimento especializado ocorre nas Delegacias da Mulher (DEAM). No Recife e em algumas cidades do interior, unidades como a de Santo Amaro funcionam em regime de 24 horas.
Recife: Rua do Pombal, Santo Amaro (Plantão 24h).
Petrolina: Rua Castro Alves, 57, Centro.
Caruaru: Avenida Portugal, s/n, Universitário.
Jaboatão dos Guararapes: Estrada da Batalha, s/n, Prazeres.
Delegacia pela Internet
Caso não haja violência física imediata e a mulher precise registrar ameaça ou injúria, é possível utilizar a Delegacia pela Internet da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (www.sds.pe.gov.br).
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