Educação pede socorro
Ensino focado no Enem, telas e IA desafiam o aprendizado; texto defende reorientação, pensamento crítico e valorização do técnico
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Em 2026, a educação brasileira atravessa uma encruzilhada. Se antes a escola formava cidadãos capazes de administrar a vida cotidiana, hoje o sistema se orienta a um objetivo central: preparar alunos para o Enem como porta de entrada para a universidade. Nesse percurso, habilidades essenciais foram deixadas de lado e trocadas pela memorização de conteúdos nem sempre aplicáveis. O aluno precisa estudar para aprender, a família e a escola devem estimular, mas isso raramente é ensinado.
Até poucas décadas atrás, o ensino médio também funcionava como etapa de inserção produtiva. Muitos saíam aptos a exercer funções técnicas, e havia conexão mais direta entre educação e empregabilidade. Hoje, essa ponte foi enfraquecida. A formação tornou-se excessivamente teórica para grande parte dos alunos, desconsiderando vocações práticas e a diversidade de talentos.
O resultado é um descompasso: universidades formam profissionais em áreas saturadas, enquanto o mercado carece de trabalhadores qualificados. O ensino médio, que deveria preparar cientistas e técnicos, falha em ambos. A remuneração desses profissionais melhorou, mas ainda precisa avançar, assim como a redução da carga tributária para combater a informalidade.
Há também o uso desenfreado de telas, que pode ter causado prejuízos cognitivos, mentais e sociais. Entre os fatores estão a redução da leitura profunda, o alto tempo de exposição e o uso excessivo de tecnologia. Jovens buscam estímulos rápidos, impulsionados por redes sociais e conteúdos curtos, reforçando recompensas imediatas. Trocam a rede social real pela digital.
Cresce a preocupação de que a dependência de tecnologia e inteligência artificial reduza o esforço mental e comprometa o pensamento crítico. O cenário combina educação desalinhada, excesso de estímulos digitais e perda de foco. A internet incentiva pensamento rápido, mas reduz a reflexão profunda, afetando a compreensão, o raciocínio crítico e a retenção de conhecimento. Muitos alunos passam superficialmente pelos conteúdos, sem consolidar o aprendizado.
A inteligência artificial pode atuar como “copiloto de aprendizagem”, com acompanhamento individualizado. Em teoria, é oportunidade para personalizar o ensino. Na prática, o uso ainda é desorganizado e, muitas vezes, sem orientação.
Esse uso indiscriminado levanta preocupações. A dependência de ferramentas digitais, sem desenvolvimento do pensamento crítico, pode comprometer habilidades cognitivas. Soma-se a isso alunos mais dispersos, com dificuldade de concentração. Professores relatam salas mais desatentas e ambiente fragmentado.
Nesse contexto, o papel do professor se transforma. Mais do que transmissores de conteúdo, passam a atuar como mediadores e mentores, orientando o uso consciente da tecnologia e estimulando a autonomia intelectual.
Entre as competências, destacam-se pensamento crítico, resolução de problemas e comunicação, que diferenciam o ser humano em um mundo automatizado.
Diante disso, cresce a defesa de um novo paradigma: sair de “estudar para prova” para “educar para a vida”, reconhecendo talentos e valorizando o ensino técnico.
A educação brasileira não precisa apenas de ajustes, mas de reorientação profunda. Entre o potencial da tecnologia e os riscos do uso inadequado, o desafio é equilibrar inovação e propósito. O futuro depende menos de diplomas e mais de cidadãos preparados para pensar, trabalhar e viver em uma sociedade em constante mudança.
Fausto Frizzera é membro do conselho do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metal Mecânico (CDMEC)
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