"Farmar aura" e "six seven": pais ficam "perdidos" com gírias da nova geração
Expressões como “farmar aura” e “six seven” fazem sucesso entre os jovens atualmente, mas deixam mais velhos confusos
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É normal crianças e adolescentes usarem linguajar próprio, porém, gírias usadas pela geração Alfa (nascidos entre 2010 e 2025) estão deixando pais, mães e pessoas de gerações mais antigas confusos.
Termos como “farmar aura”, “six seven”, “sigma”, “tankar”, entre outros, são expressões que se tornaram populares recentemente e podem parecer confusas para quem as escuta pela primeira vez.
“A geração Alfa, ao usar essas novas gírias, quer provocar a sociedade, mostrar que possui a própria cultura. A língua muda de acordo com cada época, e o jovem é muito sensível nesse sentido, principalmente com a chegada das novas tecnologias”, explicou Erineu Foerste, professor do Departamento de Linguagem, Cultura e Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
O professor também explica algumas das novas gírias: “tankar significa aguentar, suportar, seja de forma negativa ou positiva. Farmar significa obter, juntar algo, conquistar experiência. A prática linguística do jovem é de falar para iguais, criar o grupo dele”.
Para entender melhor de onde estão vindo essas novas gírias, e como se espalham mundialmente tão rápido, é importante lembrar que as novas gerações frequentam, de forma nativa, ambientes digitais, destaca José Antonio Martinuzzo, professor de Comunicação Social da Ufes.
“Na atualidade ganhamos um novo ambiente para viver, os espaços digitais. Nesses ambientes, de experiências e trocas humanas, inventam-se palavras e se reelaboram sentidos e usos de termos e expressões. A linguagem utilizada por cada geração revela a essência de seus integrantes”, destacou.
Junto da transformação da linguagem, influenciada por novas tecnologias, muda também a forma de socialização dos jovens, afirma Victor Meirelles, professor doutorando em Psicologia da Educação.
“Esses jovens habitam um 'dialeto de nicho'. A socialização não ocorre mais apenas pelo contato físico, mas pela validação de códigos que mudam a cada tela. Isso cria um senso de pertencimento fortíssimo, mas também uma exclusão imediata de quem não domina o código substituindo a língua materna pela 'língua de algoritmo'”, afirmou.
Pesquisa dos significados
“Não entendia nada que eles diziam”
As gírias da geração Alfa confundiram Grazieli Esposti, de 43 anos, mãe de Bernardo e Henrique, de 15 e 12 anos, respectivamente.
Ela conta que começou a ouvir os filhos falando as gírias no ano passado e precisou pesquisar na internet o que significavam.
“De início eu não entendia nada que eles diziam. Perguntava o que era e eles explicavam sem muita vontade, bem estilo adolescente. Procurei na internet o que significam, e hoje consigo interagir com eles falando as gírias. É melhor entender a cultura deles para estar junto do que proibir coisas novas”, destacou.
A mãe dos adolescentes conta também que já ouviu relatos similares de outros pais e mães: “Trocamos relatos direto, até brincando sobre”.
O que eles dizem
Medida certa
“A língua é muito dinâmica. Em cada época teremos jeitos próprios de falar, e isso principalmente para o jovem, que é muito sensível às mudanças da sociedade. Quando o jovem usa uma gíria, ele quer provocar, mostrar que possui a própria cultura. A escola, junto da família, tem que orientar as novas gerações para que saibam qual a medida certa do uso da gíria, para evitar dificuldades de comunicação”.
Mudanças na língua
“Os ambientes virtuais são uma realidade que compõe a cultura contemporânea, estabelecida em duas dimensões, a presencial e a digital. Em ambos os espaços, há socialização, viabilizada por meio da linguagem. Mudanças geracionais na língua são comuns. Aquelas que são absorvidas por grandes contingentes acabam se incorporando ao idioma”.
Impacto e criatividade
“Os jovens fragmentam a cultura em micromemes. A interação com o mundo deixa de ser contemplativa para ser utilitária. A cultura clássica ou a literatura podem ser vistas como lentas demais se não puderem ser sintetizadas em uma gíria de impacto. Por outro lado, há uma criatividade poética na forma como eles ressignificam termos técnicos de informática para descrever sentimentos humanos complexos”.
Fique por dentro
Referências digitais
Significados dos termos
- As gírias utilizadas pela geração Alfa derivam, em grande parte, de universos digitais e práticas coletivas.
“Farmar aura”
- Originado de jogos, refere-se ao acúmulo de prestígio, estilo e respeito, indicando uma presença social marcante.
“Sigma”
- Descreve o indivíduo independente e autossuficiente, enquanto “beta” é alguém em posição submissa em hierarquias sociais.
“Six seven”
- Funciona como código de grupo, reforçando pertencimento em contextos específicos.
“Tankar”
- Significa suportar ou aguentar situações, sejam positivas ou negativas.
“Cringe”
- Define algo constrangedor ou fora de contexto.
- Outras expressões seguem a lógica de adaptação linguística: “flopar” indica fracasso ou baixa repercussão; “hitar” significa alcançar sucesso; “rasei” deriva de “arrasar”.
Novas gírias
A linguagem da geração Alfa (nascidos entre 2010 e 2025) mostra o caráter dinâmico da língua, sensível às transformações tecnológicas e sociais.
Nas últimas décadas, a aceleração da circulação de informações redefiniu formas de comunicação, especialmente entre jovens, que criam códigos próprios para expressar identidade e pertencimento.
Essas gírias refletem uma leitura da vida mediada por referências digitais, como jogos e redes sociais, onde a interação ocorre por métricas, performance e visibilidade.
Termos como “farmar aura” indicam a gamificação das relações sociais, nas quais indivíduos acumulam prestígio simbólico.
Esse vocabulário forma um dialeto de nicho, criando forte senso de pertencimento, mas também exclusão de quem não domina esses códigos.
A linguagem utilizada por cada geração revela a essência de seus integrantes.
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