Saúde mental é responsabilidade compartilhada
Atualização da NR-1 reforça a importância da saúde mental no trabalho e exige mudanças nas empresas para prevenir adoecimento e promover bem-estar
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Há tempos a saúde mental vem ganhando papel de destaque, uma vez que é cada vez mais evidente o impacto dela em todos os segmentos da sociedade. Onde tem ser humano, deve haver cuidado com a saúde mental.
Recentemente, ela vem ocupando o centro das discussões sobre produtividade, bem-estar e sustentabilidade nas empresas. Nesse contexto, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que trata das disposições gerais e do gerenciamento de riscos ocupacionais, representa um avanço importante, especialmente quando analisada sob a ótica da psiquiatria.
Do ponto de vista clínico, sabemos, com base em evidências robustas, que fatores psicossociais no ambiente de trabalho, como sobrecarga, pressão constante por resultados, assédio moral, jornadas extensas e falta de reconhecimento, estão associados ao desenvolvimento de transtornos mentais como ansiedade, depressão e síndrome de burnout. Esses quadros comprometem a qualidade de vida do trabalhador e impactam a capacidade cognitiva, a tomada de decisão e o desempenho profissional.
A nova NR-1 fortalece a necessidade de as empresas adotarem uma abordagem mais estruturada na identificação e no gerenciamento dos riscos psicossociais.
Sob a ótica da psiquiatria, uma das grandes evoluções é o entendimento de que saúde mental não se resume à ausência de doença. Trata-se de um estado de funcionamento psíquico que permite ao indivíduo lidar com as demandas do cotidiano, manter vínculos saudáveis e exercer atividades com sentido e equilíbrio. Quando o ambiente de trabalho contribui para o oposto, ele deixa de ser apenas um local de produção e passa a ser um agente adoecedor.
Para as empresas, a mudança exige uma transformação cultural. Não se trata só de cumprir uma exigência legal. É preciso reconhecer que ambientes emocionalmente seguros são fundamentais para a saúde coletiva e para a sustentabilidade do negócio. Isso implica mapear fatores de risco, promover escuta ativa dos colaboradores, investir em lideranças mais preparadas emocionalmente e criar políticas claras de prevenção ao adoecimento mental.
A adequação à NR-1 deve ir além de protocolos formais. É essencial que as empresas desenvolvam estratégias concretas, como programas de promoção de saúde mental, canais seguros de acolhimento, flexibilização quando possível e acompanhamento sistemático de indicadores de adoecimento, como afastamentos e presenteísmo.
Para os profissionais, o impacto é significativo. Há um reconhecimento maior de que o sofrimento psíquico relacionado ao trabalho é legítimo e merece atenção. Isso contribui para a redução do estigma e pode facilitar a busca por ajuda especializada, um passo ainda difícil para muitos.
A saúde mental passa a ser, de fato, uma responsabilidade compartilhada. Empresas que compreendem essa mudança não apenas se adequam à legislação, mas constroem ambientes mais humanos, produtivos e sustentáveis. Do ponto de vista clínico, isso significa menos adoecimento e mais qualidade de vida, o que, no fim das contas, faz bem a todos.
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